Arquivamento das investigações e novo laudo: veja tudo o que se sabe sobre caso Orelha
Ministério Público de Santa Catarina entrou com pedido de arquivamento do caso e apontou falta de provas na investigação que apura a morte do cão

O caso do cachorro Orelha ganhou um novo desdobramento e voltou a chamar atenção nacional nesta semana. A novidade é que o Ministério Público de Santa Catarina entrou com um pedido de arquivamento das investigações que apuram a morte do animal, ocorrida em janeiro deste ano.
A justificativa apontada pelo órgão é a insuficiência de provas contra um grupo de adolescentes, apontados inicialmente como os assassinos do cachorro, e a divulgação de um novo laudo pericial que apontou uma reviravolta na causa da morte do animal.
Confira a linha do tempo do caso e entenda a decisão do MP:
Relembre a morte de Orelha
Orelha era um cachorro comunitário bastante conhecido por moradores da Praia Brava, na cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina. Por lá, o animal vivia há cerca de dez anos e era alimentado e cuidado por frequentadores da região.
Na madrugada do dia 5 de janeiro de 2026, o animal foi encontrado agonizando, escondido embaixo de um carro, com ferimentos graves na região da cabeça. O cão apresentava sangramentos e sinais de trauma severo.
O primeiro atendimento veterinário apontou que a morte do animal foi causada por uma "agressão por objeto contundente", como pauladas ou garrafadas. Diante da gravidade do quadro clínico, Orelha precisou passar por eutanásia. A hipótese inicial da investigação policial era de que o cachorro teria morrido após sofrer uma forte pancada na cabeça.
Adolescentes são investigados
Dias após o caso ganhar repercussão, a Polícia Civil de Santa Catarina passou a investigar o caso. Inicialmente, as diligências apontaram um grupo de quatro adolescentes como suspeitos pelas agressões que teriam levado à morte do cachorro. Um deles chegou a ter a internação solicitada após ser interceptado no aeroporto ao retornar de uma viagem aos Estados Unidos.
A investigação policial sustentava que um dos jovens teria permanecido cerca de 40 minutos no mesmo trecho da praia onde o cachorro estava e, durante esse tempo, agrediu o animal. A polícia também realizou buscas e apreensões nas residências dos suspeitos, onde aparelhos eletrônicos foram apreendidos.
Familiares acusados de coação
Além da investigação sobre maus-tratos, familiares dos adolescentes passaram a ser investigados por suspeita de coação no curso do processo. A suspeita era de que testemunhas do caso teriam sofrido pressão para alterar versões ou evitar depoimentos. A Polícia Civil chegou a indiciar três adultos ligados aos adolescentes investigados. No entanto, o Ministério Público também pediu o arquivamento dessa frente de investigação, alegando ausência de provas suficientes para sustentar eventual responsabilização criminal.
Comoção nacional e repercussão
O caso provocou forte mobilização popular e gerou indignação em diversas partes do país. Em Florianópolis, manifestações pedindo justiça foram realizadas após a divulgação das primeiras informações da investigação.
A morte de Orelha também repercutiu nas redes sociais, onde o caso viralizou e levou milhares de pessoas a cobrarem punição aos responsáveis. Artistas, influenciadores e ativistas da causa animal se posicionaram publicamente sobre o episódio.
Durante o Carnaval de 2026, o cachorro chegou a ser homenageado na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, em manifestações ligadas à proteção animal. A repercussão também alimentou debates sobre violência contra animais, impunidade e exposição de adolescentes nas redes sociais.
Pedido de exumação do corpo
Diante de lacunas na investigação inicial, o Ministério Público solicitou a exumação do corpo do animal em fevereiro deste ano. O novo laudo pericial, realizado pela Polícia Científica, foi determinante ao não encontrar qualquer fratura ou lesão óssea compatível com ação humana no esqueleto de Orelha.
Embora o corpo estivesse em fase de esqueletização, o exame minucioso de toda a estrutura óssea não confirmou o trauma craniano por pancada, como havia sido sugerido anteriormente.
Novo laudo e a causa da morte
O novo exame realizado pela Polícia Científica de Santa Catarina trouxe uma reviravolta no caso. A perícia revelou que a morte do animal estava associada a uma condição clínica grave e preexistente. Orelha sofria de “osteomielite na mandíbula esquerda”, uma infecção óssea crônica decorrente de doenças periodontais avançadas.
Essa infecção causava um inchaço profundo abaixo do olho, compatível com os sinais observados pelo veterinário no dia do atendimento. O contexto de vulnerabilidade sanitária foi reforçado pela morte da cadela "Pretinha", companheira de Orelha, que faleceu poucos dias depois vítima da doença do carrapato.
Pedido de arquivamento
Com base na revisão das provas, uma análise de quase dois mil arquivos digitais, incluindo imagens de câmeras, depoimentos e novos laudos técnicos, o Ministério Público de Santa Catarina protocolou o pedido de arquivamento das investigações. A manifestação, assinada por três Promotorias de Justiça, sustenta que não existem provas suficientes para comprovar que os adolescentes investigados agrediram o cachorro.
O documento aponta também uma inconsistência na investigação da polícia. Segundo o MP, houve um erro na sincronização de horários entre câmeras públicas e privadas analisadas durante o inquérito. O descompasso temporal identificado era de aproximadamente 30 minutos. Após a correção dos horários, a nova análise indicou que o cachorro e o adolescente investigado não estavam no mesmo local no horário em que a agressão supostamente teria acontecido.
O Ministério Público também afirmou que imagens mostraram Orelha caminhando normalmente cerca de uma hora após o momento apontado inicialmente como o da agressão, o que enfraqueceria a tese de traumatismo fatal naquele instante. Ainda de acordo com o órgão, parte da narrativa construída ao longo da investigação foi impulsionada por boatos e informações disseminadas nas redes sociais sem comprovação pericial.
Em que etapa está o caso atualmente?
Apesar do pedido do Ministério Público, o caso ainda não foi oficialmente encerrado. Agora, caberá à Vara da Infância e Juventude da Capital decidir se aceita ou não o arquivamento solicitado pelo MPSC. Até que a Justiça se manifeste, o procedimento segue em tramitação.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



