Itatiaia

Vontade fraca

Aprendemos, por falta de treino no “paladar”, a querer aquilo de que não se precisa, o que não se devia, o que não se pode

Por
A vontade é mais do que o desejo • Padre Samuel Fidelis | Reprodução

Já nas primeiras páginas da Bíblia, há uma descrição sobre a natureza humana. Nascido do barro, o ser humano é feito à "imagem e semelhança" de Deus (Gn 1,27).

Por imagem, entenda-se que é chamado a representar o divino. Por semelhança, que ele age por analogia, ou seja, deve ser guardião e cuidador do que a bondade de Deus criou.

Com relação à vontade, o outro dom divino que nos é concedido, sabemos que o coração humano vive de procura. Andamos sempre insatisfeitos, à procura do "bom", "do bem", "do que faz bem".

Crise na inteligência

Nos tempos que são os nossos, enfatiza-se muito a crise na "inteligência". Estudos (de algum lugar!) comprovam que essa é a primeira vez que as gerações subsequentes tendem a ser menos inteligentes do que a que a precedeu.

Essa é a consequência de uma sociedade com excesso de estímulo, com informações rasas, com ausência de repertório. Estamos, todavia nos esquecendo de outro grande mal: a debilidade da "vontade".

Vontade e desejo

A vontade é mais do que o desejo. O desejo é insubordinado, afetado pelo "hábito". A gente se habitua a querer. Aprendemos, por falta de treino no "paladar", a querer aquilo de que não se precisa, o que não se devia, o que não se pode.

Se o "querer” é uma” bruta flor" (Caetano Veloso), a vontade, em sentido diverso, é o movimento da alma em direção a um bem percebido pela "inteligência". Por conseguinte, se estamos (seja-me permitido o excesso de coloquialidade) mais burros, estamos também mais débeis em nossa vontade. 

Numa cultura sem direcionamento, em que a noção do que é um "bem", para além do que é "bom", desidratou, sofremos do mal da "vontade fraca". Seguindo a perspectiva do filósofo santo (ou seria santo filósofo?) Tomás de Aquino, podemos afirmar: não estar em posse da própria vontade, não ter clareza sobre a finalidade de um desejo, faz-nos menos humanos. 

Assistir vídeo:

E como se fortalece a vontade? Como educá-la, sobretudo, espiritualmente? Em primeiro, aprendendo apreciar o que se tem. "Quem deseja o que tem, tem tudo o que deseja".

Em segundo, é preciso treinar-se para apreciar o que é realmente "bom" e direcionar as nossas ações para o que é o "bem". Confundir esses dois conceitos adoece a vontade.

Em terceiro, meditação e oração, pois conexão com o Sagrado é fundamental. Lute por momentos de cultivo da vida interior: meditação, contemplação, os sacramentos. A gente fica menos pretensioso e inquieto quando se vê conectado a algo maior do que nós. Isso ajuda a saber que ainda que não seja como o planejado, tudo se ajusta na vida de quem encontra a meta de toda "boa vontade": amar e fazer bem.

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

Tópicos
 

 

Belo Horizonte