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O assassinato do amor

Samuel Fidelis é pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade e fala sobre o desafio do amor

No início era a paixão. É ela que marca o ponto de partida de qualquer movimento: “em direção a”. Se, no princípio da criação, Deus disse: “faça-se a luz” (Gn 1,1), no início de qualquer de nossas ações, está um alinhamento de frequência, uma pulsão, uma paixão...

O desafio é que a paixão que nos traz até “aqui”, a partir “daqui”, não nos sustentará. O que prende as células do corpo com muita emoção, a ilusão de ver através dos olhos da outra pessoa, a promessa de eternidade que é a realização de um desejo tão sagrado e doce, tão envolvente que não dá para respirar, cedo ou tarde se move e passa...

Se o querer, essa “bruta flor” que movimenta a alma não desabrocha em algo maior do que a si, ele assassina o amor. É precisamente, a incompreensão disso que pode fazer um casamento, um sonho, uma vocação definhar e morrer...

Em Hamlet, de Shakespeare, Ofélia é alertada por seu pai Polônio a tomar cuidado com sua paixão: “quando o sangue ferve na alma, o coração empresta juramentos para a língua”. Traduzindo em linguagem do TikTok: não se deve decidir nada sob efeito da paixão ou de vodka.

A paixão é o início imemorial. Nela está à fantasia de um “eu” que será completo quando der aquele beijo, comprar aquela casa, chegar lá... Paixões são estações, o amor é a permanência. Apaixonados, estamos na fantasia, na confusão entre “eu, ele, ela”, no amor há a distinção sempre mais clara do que é “meu, do seu, do outro”. Não é que no amor se separem totalmente, entende? Só é que se confundem e se sufocam menos.

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E não se iluda, coração! A gente se apaixona também por quem odeia. Até diria que com mais devoção e permanência. A gente “ama” quem odeia de um jeito sutil, profano, oficioso, trazendo até mais do que o esposo, no pensamento. A gente “ama” em surdina e de modo intenso...

Como recorda Freud, nenhum encontro se dá ao acaso. Apenas nos encontramos com as pessoas que já existem em nosso inconsciente. Seja por vontade de estar perto, seja por repulsa, há sempre na paixão, no ódio, na fantasia, no sexo, algo do que nos sobrou ou faltou na infância. Lá estamos nós, no princípio era a paixão...

Se a paixão é o início e se todo início é explosivo (bi g-bang), o amor seja o caminho. “Caminhai no amor”, exorta o Apóstolo Paulo, "à semelhança de Cristo que se entregou” (Ef 5,2). Quão Lúcida é essa frase de Paulo! A paixão até desperta para a rota, diríamos à luz dela, mas só o amor à semelhança de Cristo, é o caminho.

E qual é o caminho do amor, o caminho de Cristo? Ora, o da entrega, antes que a reivindicação, o da essência do encontro e do rito, antes que a obsessão do culto e da hipocrisia. O caminho de Jesus é o da divisão do pão para que ele multiplique. O caminho de Jesus é o do perdão, lá onde falhar a justiça...

Nestes tempos que são os nossos, não cometamos o homicídio do amor, não percamos a rota! Mesmo que nos custe, mesmo sem entender, mesmo diante de obstáculos aparentemente intransponíveis, o amor seja o sagrado caminho. Ele, mais do que nossa pretensão, nosso senso de justiça, lembra Roupa Nova, pouco a pouco, “remove as montanhas com todo cuidado...”.


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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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