Ouvindo...

Times

Você sabe orar?

A oração é o respiro da alma. Essa é uma das frases apócrifas da espiritualidade. Basta dar uma “googlada” e verá que pode ser atribuída a Chiara Lubich, Papa Francisco, Gandhi. Seja cristão ou não, “orar custuma fazer bem” (Pe. Zezinho). Isso porque orar dá coração humano leveza, quietude, conduz ao alto.

A oração requer interioridade, abertura, pausa. Num tempo de tantas urgências, a oração situa o que é mais importante. Num mundo em que o ímpeto de “felicidade” nos faz dependentes, inseguro e escravos, orar nos liberta. Na ilusão de que é preciso estar rendendo, fazendo algo o tempo todo, orar nos autoriza a sermos simples, a não termos que fazer nada, a sermos um pouco inúteis.

Na Tradição das Escrituras, a oração está fortemente presente. O seu conteúdo? O sorriso, o suor, a lágrima. Na Bíblia, reza-se para agradecer. Diante da beleza, do sagrado que nos visita na natureza, vemos o carinho divino (Sl 8). Quando nos vem a sensação de um trabalho sem sentido, a oração é pedir que nossa presença nesse mundo não seja estéril, que, com o olhar divino, percebamos melhor as riquezas em nosso dia (Sl 89). Se a vida estiver difícil, a oração ajuda a não amaldiçoar o destino, mas a perceber que lágrimas tendem a ser sementes fecundas, para quem age com sabedoria (Sl 125).

A regra da oração é que ela precisa ser sincera. Ninguém gosta de estar com uma pessoa que não lhe olha nos olhos. É horrível estar conversando com alguém distraído, que não está inteiro. A oração pressupõe presença plena e sem reservas.

A gente tende a sofrer querendo caber no olhar do outro. Lutamos continuamente para nos encaixar nesse ideal de “eu” que reside na lente da câmera, cuja foto, com muito filtro, vai para o Instagram. A oração, em sentido diverso, não precisa de filtro, não admite filtro. Deus ama os corações que são sem filtro, sine cera, sinceros (Sl 50,8).

A oração é tanto mais autêntica quanto mais desajustada. Ana ora, morrendo de ódio de Fenena (1 Sm 1). Jeremias ora com raiva de Deus, acusando-o de tê-lo enganado, aproveitando-se de sua inexperiência, como uma moça é seduzida por um homem (Jr 20,7). Habacuque questiona o Senhor porque ele tem mania de ver as coisas e não fazer nada (Hab 1,3). O publicano oferece a Deus, em oração, aquilo de que dispunha: seus pecados. E, com isso, volta para casa justificado (Lc 18,9-17). Jesus reza a seu Pai lhe questionando sobre o porquê de seu abandono (Mt 27,46).

Oramos não para que se faça o que queremos, mas confiando que tudo ficará bem. Oramos não para barganhar com Deus, com muitas palavras, mas para que o amor divino nos explique tudo. Oramos porque há coisas que escapam à nossa razão, ao nosso cálculo, ao nosso entendimento...

E como rezar? Bom. Quando questionado por seu discípulos sobre como é que se reza, Jesus lhes pede para dizer “abbá", ou seja, “paizinho”, em hebraico (Lc 11, 2). Ele ensina, com isso que a oração é experiência de amor, confiança no colo que todos os desamparos ordena, é proximidade.

Lendo os salmos, e por experiência própria, ao perceber que do “coração atribulado está próximo o Senhor e conforta os de espírito abatido” Sl 34,19, estou convicto de que a distância mais curta para o céu é um alma atribulada. Delas o Senhor mais está perto...

Leia também


Participe dos canais da Itatiaia:

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
Leia mais