Em rara entrevista, síndica do Edifício JK falou à Itatiaia sobre polêmicas e rotina do condomínio em 2023

Entrevista ao programa Rádio Vivo, da Itatiaia, revelou os bastidores da rotina no conjunto projetado por Oscar Niemeyer

Maria das Graças Lima, no programa Rádio Vivo, em julho de 2023

A ex-síndica do Edifício JK, Maria Lima das Graças, que esteve à frente do conjunto de prédios projetados por Oscar Niemeyer por mais de 40 anos, morreu no Hospital Felício Rocho, em Belo Horizonte, nessa sexta-feira (14).De acordo com o advogado da família, Faiçal Assruy, ela estava internada desde o dia 4 de março.

Maria das Graças era jornalista e advogada, e sua gestão foi marcada por denúncias, embates e pressões judiciais. Enquanto apoiadores destacavam sua dedicação e os cuidados com os idosos, opositores reclamavam de uma administração cara, sem transparência e resistente a mudanças.

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As polêmicas se intensificaram nos últimos cinco anos, quando moradores se organizaram em uma chapa de oposição e disputaram uma eleição marcada por controvérsias.

Em uma das raras entrevistas concedidas nesse período, ela participou do programa Rádio Vivo, da Itatiaia, em 22 de julho de 2023, em conversa com o jornalista Eduardo Costa. Na ocasião, falou sobre as despesas do condomínio, as principais dificuldades da administração e as chamadas “brigas de amor”. Os prédios, projetados em 1952 e localizados no Centro de Belo Horizonte, próximos à Praça Raul Soares, seguem como um dos ícones da capital.

Média mensal de despesas chega a R$ 300 mil

Administrar um empreendimento de 1.100 apartamentos, dezenas de lojas e um terminal é tarefa complexa e dispendiosa. Segundo a síndica, a inadimplência se mantém em torno de 9% a 10%, dentro da média do setor. Os gastos, por outro lado, são de município:

“A média mensal de despesas chega a R$ 300 mil, R$ 400 mil, e a arrecadação tem que cobrir isso. Muitas vezes, ainda fica devendo”, disse Graça. Existem 13 tipos de taxas condominiais, que variam entre R$ 800 (as mais baixas) e R$ 1.800 com taxa extra de reforma (as mais altas).

O condomínio emprega 160 funcionários fixos, além de prestadores de serviço que circulam diariamente. No contexto da entrevista, o IBGE indicou, em dados divulgados em junho, que o Edifício JK tinha cerca de 5 mil moradores — mais habitantes que 247 cidades de Minas Gerais.

A síndica admite que o orçamento mensal depende de variáveis como reajustes salariais, obras emergenciais e até a alta do custo de insumos. “Todo material usado na época da construção era importado, da Alemanha. (...) Até hoje, seguimos isso, e cada mês é uma luta para equilibrar as contas”, explicou.

Falta de apoio público

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Construído na era de Juscelino Kubitschek, o JK ostenta caráter histórico importante para Belo Horizonte e é tombado, acompanhado pelo Instituto Niemeyer. Mas o reconhecimento não se traduz em apoio financeiro, conforme o síndico.

“Da mesma forma que o governo tomba, deveria ajudar na manutenção e restauração. Isso acontece? Não. Não recebemos ajuda nem da prefeitura, nem do governo do estado”, lamentou Graça. A queixa se agrava com as dívidas do poder público: o Bloco B abriga órgãos da Polícia Civil, inclusive uma delegacia prisional, sem repassar contrapartida financeira. O Bloco A, que deveria abrigar um museu, também está em débito. “O condomínio fornece água, luz, funcionários para atender emergências. O governo virou meu sócio”, ironizou.

Conflitos do dia a dia

Ao ser questionada sobre os conflitos no condomínio, ela disse: “Lá o que mais tem é briga de amor. Os funcionários vão, acalmam a situação e conseguem contornar. É sempre briga de amor, briga de amor.”

Mesmo com milhares de moradores, ela disse que apenas 30 a 40 pessoas costumam comparecer às assembleias gerais, o que faz com que muitos optem por se representar por procuração. “Trinta ou quarenta que valem por muito”, afirmou. Ela reconheceu que muitos moradores não participam das discussões, mas depois criticam as decisões. “É uma necessidade das pessoas, têm que falar mal, né? Acho que é até um problema cultural”, acrescentou.

Outro embate recente ocorreu na assembleia-geral, quando os condôminos votaram pela proibição de locação por plataformas como o Airbnb. A síndica é firme: “Não aceitamos. Nem contrato digital está sendo aceito. Aqui é no punho, na caneta.”

Ao relembrar momentos mais difíceis, a síndica destacou os conflitos familiares em casos de separação. “Entramos para dosar”, concluiu.

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