Saulo Láuar, de 42 anos, relatou ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) uma denúncia de tentativa de abuso envolvendo o desembargador Magid Nauef Láuar, que é primo dele. O nome de Magid ganhou repercussão após o magistrado atuar como relator na absolvição de um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos. Nesta quarta-feira (25), o
À época do episódio narrado, Saulo tinha 14 anos. O depoimento foi prestado nessa terça-feira (24), em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, cidade onde ele mora atualmente. As informações são do “O Globo”.
De acordo com Saulo, o desembargador é primo de sua mãe. Ele afirmou que recebeu uma ligação do magistrado logo após a repercussão da decisão judicial que absolveu um homem de 35 anos acusado de estuprar uma menina de 12 anos — caso em que Magid atuou como relator.
No início da semana, ele relatou nas redes sociais como se sentiu ao tomar conhecimento da decisão do tio e como o episódio reabriu feridas.
Publicação denunciando o desembargador foi publicada no início da semana
Leia na íntegra
''Ele tentou abusar sexualmente de mim quando eu tinha 14 anos de idade. Quando eu trabalhava pra ele. O ato só não se consumou porque eu fugi.
Infelizmente, eu não tenho vontade de desejar bom dia, porque estou sem dormir direito desde a notícia dessa absolvição do pedófilo.
Estou revivendo uma dor pessoal que guardei por todos esses anos e que, apesar de todo tratamento psicológico que ainda faço, a ferida se abriu novamente.
Meu corpo está tenso, dolorido e a garganta entalada. Cada detalhe do fato retomou seu lugar, como se tivesse acontecido ontem.
Pensei na dor que isso poderia causar em vocês e até nele, na mãe dele, na esposa e nos filhos. Mas a dor da menina de 12 anos e de tantas outras crianças é mais forte. É mais importante nesse contexto.
Eu nutria por ele admiração profissional e um afeto quase paternal. Minha mãe confiou a ele um filho adolescente, sonhador e fragilizado.
Essa decisão mostrou a face que só eu conheci e, mesmo assim, quis esconder e tentar apagar.
Eu lamento mais essa dor da exposição, mas ela vem como um pedido: protejam-se, falem alto sobre os seus limites e dores, denunciem. Quando nos calamos, a dor cresce e se espalha, as feridas não cicatrizam e pode ser tarde demais, que resta em nós é a necessidade de lutar pra encontrar um pouco de amor, paz e alegria de viver, como me ensinou minha Tê! ''
‘Não poderia me omitir’
Nesta quarta-feira (25), Saulo voltou às redes sociais com um novo relato. “A minha intenção com o meu relato foi prestar apoio a uma insatisfação coletiva diante de uma decisão judicial que todos já conhecem. Em razão da minha experiência pessoal, senti que não poderia me omitir, e isso foi mais forte do que o meu desejo de guardar tudo comigo”, afirmou.
Ele disse ainda que tomou essa decisão pelo “Saulo de 14 anos”. “Acredito que todas as pessoas têm essa dívida com a sua criança, e agora é o momento de fazer isso”, completou. Na mensagem, ele também pediu que as pessoas se cuidem e procurem redes de apoio.
No relato, Saulo contou que a família tem sofrido com a situação. “Minha família está sofrendo muito. Em especial, minha mãe e meu irmão têm temido pela minha segurança.
A família da outra vítima que se manifestou na minha postagem também teme pela segurança. Mas eu já entendi que essa história não é mais minha, ela ultrapassa a minha vida. Com medo ou sem medo, sozinho ou acompanhado, eu vou seguir até o fim daquilo que eu posso fazer por isso”, disse.
Por fim, ele agradeceu o empenho das autoridades em fazer com que o caso avance, além do apoio do Ministério Público de Minas Gerais e do Conselho Nacional de Justiça. “Um grande abraço a todos e sigamos juntos”, finalizou.
Outras denuncias
Na segunda-feira (23), Duda Salabert já havia publicado nas redes sociais que recebeu denúncias contra o mesmo desembargador.
“Recebi até agora quatro denúncias contra esse desembargador do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. São denúncias pesadas que envolvem pedofilia, assédio sexual e violência sexual contra menores. Encaminhamos essas denúncias para o Ministério Público e vamos encaminhar também para o Conselho Nacional de Justiça. E essas denúncias assumem uma dimensão mais profunda porque envolvem um desembargador que está no alvo de um escândalo de debate jurídico e moral, que é o desembargador que inocentou um pedófilo de ter estuprado uma criança de 14 anos”, disse à Itatiaia.
Ela continuou: “O questionamento que a gente está fazendo é esse: pode um pedófilo julgar outro pedófilo? Não estou aqui afirmando que o desembargador é pedófilo, mas as denúncias que nós recebemos estão com este teor. Então, cabe agora a justiça pura; queremos celeridade no fato. Vai haver manifestações na porta do Tribunal de Justiça e nosso mandato está extremamente preocupado com a situação e com a imagem do Tribunal perante mais esse escândalo”.
Protesto nesta quarta (25)
Nesta quarta (25), integrantes do Conselho Tutelar de Belo Horizonte realizaram protesto na Praça Sete, no Centro da capital, contra a decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
No local, o grupo, com cerca de 30 pessoas, segurava duas faixas com os dizeres: “Nossa indignação é pela infância roubada. Criança não consente, criança não escolhe. Criança deve ser protegida” e “Nenhuma decisão pode estar acima da proteção da infância. Violência contra criança é crime e jamais será aceitável”.
Os manifestantes seguiram até a sede do Tribunal de Justiça (TJMG), na Avenida Afonso Pena, no bairro Cruzeiro, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. “Nos preocupa o precedente que essa decisão pode gerar. A proteção da criança precisa ser clara e firme, para que ninguém se sinta autorizado ou encorajado a violar direitos”, afirmou Valéria Evangelista.
Entenda
A denúncia contra o suspeito foi oferecida pelo MPMG em abril de 2024 por estupro de vulnerável. A mãe da vítima também foi denunciada por omissão, visto que tinha ciência dos fatos e não interveio.
Conforme a investigação, a menina morava com o homem, com permissão da genitora, e deixou de frequentar a escola.
Na delegacia, ele confirmou manter relações sexuais com a adolescente e relatou ter recebido autorização da mãe da menina para namorá-la.
O suspeito possui passagens policiais por crimes como homicídio e tráfico de drogas. Em 8 de abril de 2024, ele foi detido em flagrante, período em que estava com a adolescente. O homem e a mãe da adolescente foram condenados pela 1ª Vara Criminal e da Infância e da Juventude da Comarca de Araguari em novembro de 2025 à pena de nove anos e quatro meses de prisão.
Ambos recorreram e, neste mês, a 9ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) analisou o recurso, optando pela absolvição dos réus. Após repercussão nacional do caso, Magid Nauef Láuar
A reportagem entrou em contato com o Tribunal de Justiça de Minas Gerais para obter um posicionamento sobre a denúncia, assim como com o desembargador citado, mas não obteve retorno até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação. A Itatiaia também procurou o CNJ, que declarou que “não tem qualquer informação a respeito” do caso.