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Neonazismo: o que é a ideologia que inspirou ataques às escolas de Contagem e do Espírito Santo

O neonazismo, evolução da ideologia racista e extremista de Adolf Hitler, vem crescendo e preocupa especialistas

Com o aumento de casos de ataques de violência e vandalismo relacionados à ideologia nazista, especialistas demonstram preocupação com uma onda neonazista que se propaga na internet especialmente entre jovens. Em menos de um mês, dois casos de vandalismo associados a símbolos nazistas repercutiram em Minas Gerais, e um ataque violento matou quatro pessoas no Espírito Santo.

Segundo um levantamento feito pelo Núcleo Investigativo da CNN com as Secretarias de Segurança Pública dos estados do Brasil, apenas em Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Santa Catarina foram registradas 30 ocorrências policiais envolvendo apologia ao nazismo em 11 anos.

Em Minas Gerais, desde 2019, foram registrados sete casos de divulgação da ideologia nazista, sendo três apenas em 2020, conforme dados disponibilizados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais (Sejusp).

Apesar do aumento de ataques com apologia nazista e grupos neonazistas, os termos ainda são desconhecidos. Mestranda em História na Universidade Federal de Ouro Preto e coordenadora do Núcleo Brasileiro de Nazismo e Holocausto (NEPAT), Bárbara Deoti explica que a ideologista nazista continuou se disseminando mesmo após o fim da Segunda Guerra Mundial, ainda que de forma velada e, assim, surgiu o neonazismo.

“O neonazismo pode ser entendido como uma continuação da ideologia nazista, mas adaptada a um novo contexto. O regime nazista e a ditadura de Hitler acabaram com o fim da Segunda Guerra Mundial. As organizações do partido foram desmontadas e os nazistas foram tirados do poder. Mas, nada disso representou o fim da ideologia nazista”, detalha.

Segundo Deoti, o nazismo nasce em contextos de oposição dentro das sociedades – especialmente quando células conservadoras se sentem ameaçadas por minorias e grupos que divergem delas.

“Aquelas pessoas que eram nazistas durante o regime nazista, continuaram sendo tão nazistas quanto antes, só que de forma escondida. O neonazismo é essa mesma ideologia, que tem as mesmas bases e princípios, mas disseminada em um novo contexto e adaptada a ele, respondendo aos novos problemas.”

De acordo com Deoti, na Europa, por exemplo, o neonazismo surge especialmente em oposição ao movimento migratório vindo da África e do Oriente Médio. No Brasil, as conquistas dos direitos da comunidade negra e LGBT podem ser vistas como um problema para os grupos neonazistas.

“O neonazismo diz respeito, para o Brasil, a questões que são parte da constituição da nossa sociedade, como racismo, misoginia, patriarcado e também dos resquícios que ficaram da colonização. O nazismo é uma ideologia que abarca questões e preconceitos que surgem a partir dessas questões que a sociedade brasileira tem. Mas, se nós nos consideramos uma sociedade democrática, uma sociedade que preza pela dignidade humana, pelo respeito ao outro, pela diversidade, o neonazismo é um problema que a gente precisa enfrentar”.

Como as células neonazistas se formam?

Um dos principais objetivos dos pesquisadores é entender como se formam e crescem as células neonazistas no Brasil. Até o momento, a internet e as redes sociais têm se mostrado o principal local de disseminação da ideologia nazista, com fóruns e grupos que fazem apologia ao discurso de ódio.

“Atualmente as organizações neonazistas no Brasil são fragmentadas em grupos pequenos e difusos. Então, a gente não pode falar em uma organização neonazista ou um partido, mas pequenas células que se formam localmente. Com o advento da internet, esses grupos têm se expandido e se conectado cada vez mais. Isso ainda está muito ligado aos fóruns da internet, à conexão que essas pessoas vão fazer nesse ambiente”, explicou Bárbara Deoti.

A principal forma de aliciamento desses grupos é a exploração da vulnerabilidade e de temores de parte da sociedade. As células nazistas fazem promessas que pretendem “consertar” a sociedade e oferecem espaços que acolhem aqueles que se sentem, de alguma forma, excluídos ou prejudicados pelo restante da comunidade.

“Essas pessoas identificam nas transformações sociais e, especialmente na inclusão de sujeitos marginalizados, uma perda dos seus privilégios, uma ameaça ao lugar que elas ocupam. Isso se deve ao enraizamento profundo de preconceitos na nossa sociedade, como o racismo e antissemitismo”.

Ainda segundo Deoti, os jovens e adolescentes podem ser consideradas pessoas mais vulneráveis ao aliciamento por grupos nazistas, já que estão em uma fase de formação de opinião. Estes grupos usam da fragilidade dos jovens para convencê-los com promessas fáceis e discursos violentos.

“No caso dos jovens, eles estão em uma fase de formação de opiniões, de formação da própria identidade. Os grupos neonazistas se aproveitam dessa vulnerabilidade para aliciar os jovens, oferecendo promessas de um espaço de pertencimento e de explicações fáceis para as frustrações. A partir daí, eles incutem o discurso de ódio e promovem comportamentos violentos”.

Ataques à escolas

Na madrugada de 29 de novembro, adolescentes invadiram a Escola Municipal José Silvino Diniz, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, destruíram o refeitório e deixaram mensagens e símbolos nazistas nas paredes. Mais tarde, eles também tentaram invadir outra escola municipal, e, sem sucesso, depredaram apenas a fachada.

Quatro dias antes dos atos de vandalismo em escolas de Contagem, um jovem promoveu ataques a duas escolas na cidade de Aracruz, no Espírito Santo; quatro pessoas morreram e 12 ficaram feridas. Mais tarde foi descoberto que o agressor possui vínculos com grupos nazistas. No momento do atentado, ele usava uma suástica nazista no braço.

Ainda em Minas Gerais, dois dias antes do ataque nas escolas capixabas, um banheiro da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), em Divinópolis, na região Centro-Oeste do estado, acordou com pichações de mensagens nazistas e antissemitas na parede. As pichações diziam “morte aos judeus” e “viva Hitler”, acompanhada por uma suástica.

A especialista no assunto, Bárbara Deoti, acredita que ataques como este possuem uma tendência de se intensificar, especialmente devido ao aumento registrado de células nazistas em todo o país. Esses grupos, segundo ela, utilizam de paixões políticas para influenciar seus integrantes a praticarem ataques violentos.

“O número de células e de grupos neonazistas cresceu muito nos últimos quatro anos e, quanto mais essa ideologia se difundir, mais casos de violência vão acontecer. Um dos ingredientes principais seria o ressentimento, as paixões tem uma força mobilizadora muito potente, e eu acho que em casos como estes, os agressores se sentem ressentidos e ameaçados”, diz Deoti.

Neonazismo em Minas Gerais e fascismo à brasileira

Historicamente, a ideologia nazista sempre foi associada à imagem de Hitler e à ditadura alemã. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, muitos alemães migraram em massa para o Sul do Brasil, criando comunidades quase que inteiramente germânicas. Por isso, é comum que o brasileiro associe o aumento de células neonazistas aos estados sulistas.

Esta, entretanto, é uma associação errada. Segundo Bárbara Deoti, as pesquisas brasileiras que mapeiam os grupos nazistas têm mostrado um crescimento desta ideologia em todo o país. Minas Gerais, inclusive, foi palco para uma das células mais expressivas do Brasil.

Com a influência de líderes nazistas do século XX, a ideologia acabou se transformando, no Brasil, no integralismo, chamado também de “nazismo à brasileira”. O movimento integralista surgiu em 1930 com ideias extremamente nacionalistas, conservadoras e racistas, e se tornou o maior movimento de extrema direita da história do país.

Outras nações do mundo tiveram seus próprios governos e grupos nazistas na primeira metade do século XX, como o franquismo na Espanha e o fascismo de Mussolini na Itália.

“Nós temos o nosso fascismo à brasileira, o movimento integralista, que está aí desde os anos 1930 e nunca desapareceu. O movimento integralista sempre teve conexões com o Nazismo, e esse histórico não pode ser ignorado. Ele nos dá indícios muito claros para traçar a longevidade que essas ideologias sempre tiveram no Brasil”, afirma Deoti.

Combate à ideologia neonazista

Com o aumento expressivo de grupos neonazistas no Brasil, pesquisadores começaram a monitorar o funcionamento destas células, especialmente pelas redes sociais. O que os estudos têm mostrado é que o crescimento pode estar relacionado à maior aceitação de discursos radicais e preconceituosos na esfera pública.

“Um grande fator que influencia isso é que discursos nazistas têm se tornado cada vez mais aceitáveis e comuns nos espaços públicos e, cada vez que isso é mencionado publicamente, se torna menos repulsivo e mais aceitável. A gente precisa tornar inaceitáveis quaisquer menções a discursos de ódio e à ideologia nazista em falas públicas”.

A educação, aliás, é vista como a ferramenta mais poderosa de combate ao neonazismo e discursos de ódio que podem levar, futuramente, a ataques violentos como os vistos no Espírito Santo e em Contagem.

“A gente precisa educar os alunos sobre a realidade histórica do nazismo e do holocausto e, além disso, a gente precisa conectar esse conhecimento com a realidade brasileira dos alunos”, explica Bárbara Deoti.

Além disso, segundo a especialista, é necessário entender como estas células conseguem aliciar os jovens. "É muito importante que os pais e os educadores se mantenham atentos. É preciso acolher esses jovens e criar um espaço efetivo de desradicalização, que proporcione alternativas para aquele jovem ter uma reeducação ideológica. Ao mesmo tempo o jovem deve ter um espaço que entenda e acolha as frustrações e paixões que o levaram a ser aliciado por ideias tão extremas”.

Educar as pessoas sobre o significado e perigos do nazismo também é essencial na visão de Deoti. Para ela, há uma confusão expressiva na sociedade sobre as origens desta ideologia e o motivo pelo qual ela é considerada um crime. Apesar de frequentemente associado ao antissemitismo, que é a perseguição aos judeus, o nazismo também discrimina negros, ciganos, homossexuais e pessoas com deficiência física ou intelectual.

“Nós precisamos continuar reforçando que apologia ao nazismo é crime e a ideologia nazista é criminosa, porque ela prega o extermínio de certos grupos, simplesmente por existirem. É uma ideologia que já demonstrou todo o seu potencial destrutivo ao perpetrar um dos maiores genocídios da história ocidental, o holocausto. Por isso, fazer apologia ao nazismo tem consequências concretas”.

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