Vinhos mineiros: Epamig e Fapemig impulsionam a produção de vinho familiar no Sul
Projetos no município de Caldas e região unem tecnologia, resgate cultural e apoio à legalização de pequenas vinícolas

Uma das regiões mais tradicionais na produção de uvas e vinhos de mesa do Brasil passa por um processo de modernização e resgate cultural. A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (EPAMIG) está à frente de dois projetos estratégicos que buscam fortalecer a vitivinicultura conduzida por agricultores familiares nos municípios de Caldas, Santa Rita de Caldas e Andradas.
As iniciativas contam com um aporte financeiro de cerca de R$ 1 milhão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig). O foco das ações está na implantação de unidades demonstrativas com novas variedades de uvas híbridas — voltadas para a elaboração de sucos, espumantes e vinhos —, além de oferecer capacitações técnicas e consultoria para os produtores locais.
Resgate histórico e a economia familiar
A vitivinicultura faz parte do DNA do Sul de Minas, mas o setor passou por transformações profundas nas últimas décadas. “Até os anos de 1980, a uva era a principal fonte de renda da região. Os municípios de Caldas, Andradas e Santa Rita de Caldas eram responsáveis pelo abastecimento dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro com a produção de vinho”, resgatou a enóloga e pesquisadora da EPAMIG, Angélica Bender.
Embora o volume tenha diminuído desde então, a atividade segue crucial. “Essa produção persiste em menor proporção, mas ainda é muito significativa para os produtores e tem um grande impacto na economia e no sustento das famílias locais”, contextualizou a enóloga.
Para garantir que essa herança cultural não se perca, o projeto também aposta na educação patrimonial. Atividades especiais foram realizadas com estudantes do 6º ao 9º ano e em duas creches municipais de Caldas. Em uma das visitas, as crianças puderam vivenciar a tradicional experiência da pisa da uva, conectando a nova geração à história agrícola de suas famílias.
Força-tarefa pela legalização e inovação logística
Um dos desdobramentos mais importantes do projeto é o movimento em direção à formalização das pequenas vinícolas. A demanda ganhou força após uma ação fiscalizatória do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Em resposta, os viticultores buscaram o apoio da EPAMIG, da Emater-MG e do Sindicato dos Produtores Rurais de Caldas para criar um grupo de trabalho focado na regularização dos estabelecimentos.

Uma das principais barreiras para o pequeno produtor é o custo dos equipamentos de engarrafamento. Para solucionar o problema, o grupo estuda uma alternativa inovadora: a aquisição coletiva de um caminhão de envase móvel.
De acordo com a pesquisadora Angélica Bender, o envase é a etapa mais crítica e a que representa os maiores custos de implantação para o produtor. Para avaliar a viabilidade de solucionar esse gargalo, uma comitiva mineira visitou recentemente uma cooperativa em Jundiaí (SP), que já utiliza com sucesso o modelo de caminhão de envase móvel.
Os próximos passos já estão definidos. Após uma reunião no início de junho que reuniu um número expressivo de interessados, a equipe técnica dará início, na segunda quinzena deste mês, a visitas individuais para avaliar as condições estruturais de cada propriedade e traçar o diagnóstico para a legalização.
Olho no futuro: enoturismo em expansão
Embora o número exato de viticultores familiares na região ainda esteja sendo mapeado, a procura espontânea pela assessoria da EPAMIG tem crescido de forma acelerada, impulsionada pelo "boca a boca" e pela confiança nas instituições parceiras.
Além da produção de bebidas, o enoturismo desponta como uma das principais apostas de desenvolvimento econômico regional. O plano de estruturação do setor é amplo e une forças de uma rede de cooperação que envolve a EPAMIG (Vitivinicultura); Emater-MG e Senar-MG; Sindicato dos Produtores Rurais e Sebrae e poderes públicos e lideranças municipais.
Com a união entre a pesquisa científica e a valorização das origens, o Sul de Minas se prepara para consolidar sua uva e seu vinho de mesa como símbolos de qualidade, sustentabilidade e identidade cultural.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



