Imposto elevado é obstáculo para cachaça de alambique conquistar mercado internacional
Produtores defendem mudanças na tributação e mais investimentos em divulgação para ampliar exportações da bebida brasileira

A cachaça de alambique tem qualidade e potencial para conquistar novos mercados internacionais, mas pequenos produtores ainda enfrentam obstáculos para ampliar as exportações. Um dos principais problemas apontados pelo setor é a elevada carga tributária. Segundo representantes da cadeia produtiva, os impostos sobre a bebida chegam a 81,87%.
O tema foi discutido durante a 35ª Expocachaça, que acontece até este sábado (8), no CenterMinas Expo, em Belo Horizonte. Para o diretor e organizador do evento, José Lúcio Mendes Ferreira, a tributação reduz a capacidade de investimento dos pequenos produtores, que estão espalhados por diferentes regiões do país.
Segundo ele, a exportação da cachaça de alambique produzida por pequenos negócios segue uma lógica diferente da de outros produtos. O objetivo não é necessariamente conquistar grandes volumes, mas alcançar mercados de nicho e consumidores dispostos a pagar mais por uma bebida diferenciada. “A exportação da cachaça de alambique, do pequeno produtor, é nicho de mercado. Não é volume, é valor, é valor agregado. Então é um trabalho que tem que ser feito, um trabalho de formiguinha”, explica.
Reforma tributária
Para José Lúcio, a questão tributária precisa ser considerada nas discussões relacionadas à reforma tributária. Na avaliação dele, uma mudança que permita reduzir o peso dos impostos poderia dar aos pequenos produtores melhores condições para investir e buscar consumidores no exterior.
“Se o governo der uma atenção especial, agora falando inclusive na reforma tributária, e a gente conseguir resolver essa situação, eu acho que o pequeno produtor vai ter condições de avançar para o mercado externo e conquistar esse mercado”, afirma.
O representante do setor defende que a redução da carga tributária seja acompanhada de políticas de incentivo à internacionalização da bebida.
Qualidade precisa virar venda
Além dos impostos, outro desafio apontado pelos produtores é a divulgação da cachaça brasileira no exterior. Thales de Paiva Martins, presidente do Instituto da Cachaça de Alambique do Brasil (ICAL), acredita que o setor está próximo de alcançar um novo patamar, mas precisa de maior participação do poder público, principalmente em ações de marketing. “Eu acho que a gente está chegando no auge. Ainda falta um pouquinho. Esse pouquinho é justamente a ajuda do Governo Federal. A parte de investimento no marketing da cachaça é muito cara. No mundo inteiro tem a ajuda dos governos. No Brasil, o governo não chegou a isso”, afirma.
Segundo Thales, é necessário apresentar ao consumidor estrangeiro as características da cachaça de alambique e mostrar que se trata de um produto diferenciado.
“O governo brasileiro podia dar uma força maior para a cachaça de alambique, para a gente divulgar lá fora, para o pessoal entender que tem um produto muito diferente”, defende.
Para o produtor, o setor já discute qualidade e produção em encontros e eventos, mas precisa avançar na comercialização.
“A gente reúne demais, faz muito encontro, discute qualidade, mas eu quero saber mesmo é vender. O que tem que fazer para a gente vender mais? É isso que eu quero”, afirma.
Cachaça brasileira aposta no valor agregado
Para os produtores, a estratégia de internacionalização da cachaça de alambique deve estar baseada na diferenciação e no valor agregado.
Características como produção artesanal, origem, identidade regional e qualidade podem ser utilizadas para conquistar consumidores em mercados internacionais.
Na avaliação de Zé Lúcio, a bebida brasileira tem condições de competir com produtos tradicionais de outros países e já conquistou reconhecimento internacional por meio de premiações.
“A nossa bebida disputa de igual para igual e, muitas vezes, até ganha mais prêmios no mercado externo do que muita bebida tradicional”, destaca.

Famosinha de Minas
A busca por diferenciação também está presente na história da Famosinha de Minas, marca apresentada por Thales de Paiva Martins. O nome da cachaça é uma homenagem à mãe do produtor, que tem 96 anos.
“É uma homenagem para minha mãe, que é a pessoa mais famosa do mundo para mim, que está com 96 anos, uma dádiva de Deus. E, graças a Deus, um produto muito macio, muito gostoso, e todo mundo gosta”, conta.
A marca utiliza as redes sociais para divulgar novidades e informações sobre os produtos.
Expocachaça reúne produtores de 18 estados
A 35ª edição da Expocachaça reúne produtores de 18 estados brasileiros, além de representantes de entidades, especialistas e consumidores interessados na cadeia produtiva da bebida.
O evento também conta com programação cultural durante o fim de semana.
Para José Lúcio, a feira é uma oportunidade de aproximar produtores e consumidores e apresentar a diversidade da produção brasileira. “Tem muita coisa boa aqui. Não esqueça dos pais. Tem muita coisa boa para presentear os pais”, brinca.
Para o setor, a combinação entre tributação mais adequada, investimentos em marketing, valorização da produção artesanal e abertura de novos mercados pode ajudar a cachaça brasileira a ganhar espaço no mercado internacional.
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



