Queda nos preços da erva-mate pressiona setor e exige foco em eficiência no campo
Estudo da Embrapa aponta que aumento da oferta e custos elevados reduziram a rentabilidade dos produtores; diversificação e novos mercados são apontados como caminhos para a recuperação

O setor da erva-mate, tradicional no Sul do país, atravessa um período de pressão econômica. Segundo artigo publicado pela Embrapa Florestas, a combinação entre queda nos preços pagos ao produtor, aumento dos custos de produção em algumas regiões e expansão da oferta colocou parte da cadeia produtiva em alerta. Diante desse cenário, a saída para o setor passa menos pela tentativa de controlar preços e mais pela busca de eficiência produtiva, diversificação de renda e abertura de novos mercados.
De acordo com a publicação, após elevação no início da pandemia, os preços nominais têm apresentado tendência de queda, tanto da erva-mate em pé quanto na entregue para a indústria. A diferença de preço entre estas duas formas de comercialização tem se mantido no Paraná, refletindo a constância dos custos de colheita, comercialização e transporte da atividade. Porém, toda a redução de preço tem sido repassada ao produtor, resultando em uma queda percentual mais acentuada no preço da erva-mate em pé do que aquela entregue na indústria.
Em 2022, o preço pago na indústria era de aproximadamente R$ 22,00 por arroba, e o em pé, R$ 17,00 por arroba, sendo a diferença atribuída aos custos de colheita, comercialização e transporte. Em 2026, o preço na indústria foi de aproximadamente R$ 17,50 por arroba, e em pé, R$ 12,50. A diferença entre os dois permaneceu em torno de R$ 5,00 por arroba, mas a redução percentual do preço na indústria foi de 20%, e no preço em pé, 26,5%. Assim, o artigo analisa que a queda de preço na indústria foi totalmente repassada em termos absolutos para o produtor.
Já o Rio Grande do Sul apresenta preços médios nominais da erva-mate entregue na indústria inferiores aos praticados no Paraná, o que tem influenciado na percepção sobre a viabilidade do setor.
O artigo foi escrito pelos pesquisadores da Embrapa Florestas, Ivar Wendling e José Mauro Moreira, junto com o analista da Embrapa Florestas, Ives Goulart.
Variação regional dos preços
Segundo o artigo, atualmente, os preços da arroba da erva-mate apresentam forte variação regional. No Rio Grande do Sul, produtores relatam valores entre R$ 16,50 a R$ 17,00 por arroba entregue na indústria, enquanto em São Mateus do Sul (PR) os preços permanecem em patamares mais elevados, entre R$ 18,00 e R$ 20,00.
A retração é atribuída principalmente ao aumento da oferta, impulsionada pela entrada em produção de novos ervais implantados nos últimos anos, além de sinais de desaceleração no consumo. A redução de R$ 22,50 por arroba (em 2021/22) para os R$ 17,50 representa uma diminuição de mais de 22% na receita bruta, sem redução equivalente nos custos de produção.
O estudo evidenciou que os fertilizantes tiveram alta após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia e não retornaram aos níveis anteriores. Os gastos com colheita e transporte também aumentaram de forma expressiva, tanto pelo aumento do preço dos combustíveis quanto pela mão de obra. O custo destas operações passou de R$ 460,00 por tonelada em 2020, para R$ 820,00 em 2026, representando um aumento de 78,3% frente a uma inflação de 39,6% no mesmo período, chegando a impactar em mais de 50% nos custos de produção.
A situação afeta especialmente os produtores que comercializam a erva “no pé”, pois o valor recebido já incorpora descontos referentes à colheita e ao transporte. Com isso, a redução da rentabilidade acaba sendo ainda mais intensa.
Diferenças tecnológicas no campo
Outro ponto importante ressaltado pelo artigo é a diferença entre produtores tecnificados e aqueles que entram na atividade apenas em momentos de valorização da cultura. Produtores mais estruturados conseguem administrar melhor períodos de crise, reduzindo temporariamente gastos com manejo sem comprometer drasticamente a produção futura.
Já os produtores considerados “aventureiros”, atraídos apenas pelos ciclos de alta, tendem a abandonar a atividade quando os preços recuam. Isso é observado em outras atividades agropecuárias, como suinocultura, fumicultura e avicultura. Movimentação similar acontece no setor ervateiro.
A gestão econômica do erval também, junto com a eficiência produtiva, a diversificação e o investimento na qualidade e sustentabilidade são pontos centrais para os bons resultados.
Mercado atual
De acordo com os pesquisadores, as discussões do setor ainda revelam pontos de tensão, como a interpretação dos dados de produção. No entanto, é importante alertar que o uso do termo “supersafra” para descrever o momento atual é equivocado. O aumento recente da oferta está ligado mais à recuperação dos ervais após períodos de seca no Brasil e na Argentina e à entrada de matéria prima dos plantios pré-pandemia do que propriamente a um salto tecnológico de produtividade. Esta vem crescendo em um ritmo lento, após anos de queda.
Certamente um dos pontos de tensão atuais é a distribuição das margens de lucro ao longo da cadeia produtiva. Enquanto empresas atribuem a crise a fatores macroeconômicos e ao aumento dos custos operacionais, produtores levantam dúvidas sobre um possível crescimento das margens industriais em detrimento do valor pago no campo.
O artigo também ressalta o aumento do potencial da erva-mate para a demanda no Brasil e no mundo. O interesse internacional pela erva-mate tem se intensificado nos últimos anos. No Brasil, entretanto, existem caminhos ainda a serem trilhados, como a atração do interesse de novos tipos de indústrias para esta matéria prima, utilização de estratégias mais agressivas e contínuas de marketing, sobretudo em regiões não consumidoras, maior organização do setor e atuação em parceria.
Por outro lado, segundo os pesquisadores, já são percebidos os primeiros indícios de que a curva de retorno pode estar se invertendo nos próximos anos e, neste sentido, tem-se a expectativa de que é um bom momento para quem quer investir na cultura, desde que com planejamento, adoção de tecnologias, fugindo de estratégias aventureiras. Nem toda melhoria tecnológica tem custo, mas pode impactar altamente na produção. Por isso, produtores também devem se preparar para um novo ciclo de alta buscando ajustes de baixo custo com bom efeito na produção.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



