Preço do café mais consumido no Brasil cai 15% em 2026 e consumo volta a crescer
Após um ano de forte pressão inflacionária, Abic revela melhora no estoque das indústrias devolve estabilidade ao varejo e reaquece o consumo dos brasileiros

Às vésperas do Dia Nacional do Café, comemorado em 24 de maio, a Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) apresentou o balanço do primeiro quadrimestre de 2026 nesta quinta (21). Após um ano de 2025 desafiador, marcado pela disparada nos preços da matéria-prima e uma consequente retração no consumo, os primeiros quatro meses deste ano trouxeram um cenário de alívio e recuperação para a indústria e o varejo.
Presente em 98% dos lares brasileiros, o café movimenta uma cadeia robusta: o país reúne cerca de 1.050 indústrias, responsáveis pela geração de 8,4 milhões de empregos diretos e indiretos. Em 2025, o faturamento da indústria de café torrado atingiu R$ 46,24 bilhões — um salto nominal de +25,6% em relação a 2024, impulsionado não pelo aumento do volume, mas pelo repasse inflacionário dos preços ao consumidor final.
Vendas no varejo reagem a partir de março
No acumulado de janeiro a abril de 2026, as vendas de café no varejo registraram alta de 2,44%, somando 4,91 milhões de sacas vendidas (frente a 4,79 milhões no mesmo período de 2025). O indicador reflete o desempenho das indústrias associadas à ABIC, que detêm 86% de participação no mercado nacional.
O avanço interrompe a tendência de queda observada no primeiro quadrimestre de 2025, quando o setor havia amargado uma retração de 5,13% no consumo devido ao encarecimento do produto. Segundo o presidente da ABIC, Pavel Cardoso, a escalada de preços começou no final de 2024, mas atingiu em cheio o consumidor entre março e abril do ano passado.
A reação atual ganhou tração no final do período avaliado. Março e abril registraram crescimentos expressivos nas vendas, compensando o início de ano ainda lento:
- Março de 2026: +10,25% (frente a março de 2025)
- Abril de 2026: +3,66% (frente a abril de 2025)
"Os dados indicam uma tendência de recuperação, que ainda dependerá da confirmação da nova safra", avaliou Pavel Cardoso. "A redução da volatilidade tende a favorecer novas quedas de preços até o fim do ano, embora o cenário ainda dependa das condições climáticas relacionadas ao El Niño."
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Indústria respira com melhora na oferta de café cru
Além da retomada na ponta do consumo, o ambiente operacional das indústrias também apresentou melhoras significativas. O índice de abastecimento de matéria-prima, que operou em níveis "críticos" e "seletivos" durante a maior parte de 2025, retornou ao patamar "normal" entre fevereiro e março de 2026.
De acordo com o diretor-executivo da ABIC, Celírio Inácio, a maior disponibilidade de grãos beneficiou a estratégia de compras das empresas, embora o mercado exija cautela.
"Em 2025, a maior parte do tempo foi com oferta seletiva. Logo depois, no início de 2026, tivemos maior oferta e isso beneficiou a compra da matéria-prima. Oferta não significa facilidade na compra, pois os produtores ainda têm parâmetros de acordo com seus estoques, mas a indústria teve maior disponibilidade", explicou Inácio.
Por conta dessa forte oscilação recente, as indústrias têm trabalhado com níveis menores de cobertura de estoques. A estratégia evita travar posições financeiras longas e caras em momentos de volatilidade nas bolsas internacionais, garantindo a proteção das margens no varejo.
Preços nas gôndolas: queda no tradicional e alta nos nichos de valor agregado
O monitoramento de mercado da ABIC revelou um movimento de acomodação de preços entre março e abril de 2026, contrapondo as fortes oscilações do ano anterior. O maior destaque foi o recuo nos preços das categorias mais populares, justamente as que mais pesam no bolso do consumidor. Em contrapartida, os cafés de nicho e maior valor agregado registraram valorização.
O levantamento comparativo entre abril de 2025 e abril de 2026 aponta o comportamento dos preços por estilo:
Estilos com queda de preço (Média por kg)
- Tradicional / Extraforte: de R$ 65,50 para R$ 55,34 (-15,51%) — variedade mais consumida no país.
- Superior: de R$ 80,56 para R$ 70,37 (-12,65%)
- Cápsulas: de R$ 402,33 para R$ 364,16 (-9,49%)
Estilos com alta de preço (Média por kg)
- Especial: de R$ 137,96 para R$ 161,26 (+16,89%)
- Descafeinado: de R$ 94,98 para R$ 114,93 (+21,00%)
Na transição de março para abril de 2026, o comportamento de curto prazo evidenciou recuo expressivo no preço dos cafés solúveis e um aumento paralelo na procura e valorização dos cafés especiais.
Se as projeções de uma safra volumosa se confirmarem para o restante do ano — superando inclusive o recorde de 2020 —, a expectativa da ABIC é de que o fluxo de abastecimento permaneça regular, permitindo que a estabilidade de preços se consolide de forma definitiva no varejo brasileiro.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



