Tilápia 'invasora'? Setor teme perda de US$ 38 milhões com classificação, alerta Peixe BR
Votação marcada para a próxima semana pode derrubar embarques do peixe em 90% em apenas seis meses

O setor aquícola brasileiro vive dias de forte tensão com a possibilidade de uma mudança drástica na legislação ambiental. Uma proposta que tramita no governo federal pode reclassificar a tilápia como "espécie exótica invasora", medida que, se aprovada, promete aplicar um golpe severo na piscicultura nacional. De acordo com um levantamento técnico detalhado pela Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), o enquadramento tem o potencial de dizimar até 90% das exportações brasileiras da espécie em apenas seis meses.
O impasse não é recente: o processo de elaboração da Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras Presentes no Brasil, proposto em outubro do ano passado pela Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), chegou a ser suspenso temporariamente em dezembro após a forte repercussão e pressão do setor produtivo. No entanto, a trégua acabou e o tema voltou a assombrar a cadeia do pescado.
Agora, o veredito final está muito próximo, com a votação da proposta marcada pela Conabio para o próximo dia 27 de maio. Para os produtores e a indústria, a aprovação funcionaria como uma barreira comercial automática, sendo interpretada internacionalmente como um reconhecimento oficial de risco ambiental pelo próprio governo brasileiro. O resultado prático, alerta o setor, seria uma enxurrada imediata de restrições sanitárias, ambientais e comerciais nos mercados mais estratégicos do planeta.
O fantasma do 'precedente chinês' e o mercado dos EUA
A maior preocupação da cadeia produtiva está na relação comercial com os Estados Unidos, destino de nada menos que 85% das exportações de tilápia do Brasil, gerando um faturamento anual que ronda os US$ 35 milhões.
O receio do setor não é um mero exercício de suposição; ele se baseia em um precedente histórico real e catastrófico ocorrido na Ásia. "Em 2010, os Estados Unidos classificaram a carpa asiática como espécie invasora. Como consequência, as exportações chinesas da espécie registraram queda de aproximadamente 97% em apenas um ano, sem recuperação posterior do mercado", relembrou Francisco Medeiros, presidente da Peixe BR.
Caso o Brasil siga pelo mesmo caminho com a tilápia, a Peixe BR estima um rombo financeiro imediato de US$ 38 milhões apenas para esta cadeia.
Efeito cascata ameaça espécies nativas e certificações
Os prejuízos, no entanto, não devem parar nos tanques-rede de tilápia. A análise técnica da Peixe BR aponta para um "efeito cascata" generalizado, capaz de impor perdas anuais de US$ 64 milhões a todo o setor pesqueiro exportador do país.
Mesmo os produtores que apostam em peixes nativos — como o tambaqui e o pintado — seriam severamente afetados. A deterioração da imagem da aquicultura brasileira no exterior dispararia o rigor de auditorias internacionais e endureceria exigências sanitárias, sufocando o comércio de espécies que sequer fazem parte da discussão biológica do projeto.
Ainda segundo a entidade, outro ponto crítico é o risco iminente à manutenção de certificações internacionais de prestígio, como:
- BAP (Best Aquaculture Practices)
- ASC (Aquaculture Stewardship Council)
- Global G.A.P.
Esses selos, indispensáveis para acessar as gôndolas dos grandes supermercados europeus e americanos, possuem regras severas contra o manejo inadequado e o fomento de espécies consideradas nocivas ao meio ambiente. Se o Brasil perder as certificações, reconquistá-las pode levar anos de prejuízo e isolamento comercial.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



