Café mais barato: safra recorde promete nova queda no preço, afirmam ABIC e Sindicafé-MG
Apesar do otimismo, o presidente da ABIC, Pavel Cardoso, ressalta que a indústria precisa de tempo para repassar as quedas

O setor cafeeiro nacional vive um momento de transição e otimismo. Durante o seminário “Defesa do consumidor de café: o papel das entidades públicas e privadas”, realizado nesta terça-feira (12) pela Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC) na capital mineira, lideranças do setor confirmaram que o consumidor já sente o alívio no bolso e que a tendência é de preços ainda mais baixos com a entrada da nova safra.
Após quatro anos de dificuldades climáticas que elevaram o quilo do café a patamares históricos, a expectativa para 2026 é de uma colheita recorde, especialmente em Minas Gerais, estado que detém 50% da produção nacional.
Queda de preços e mudança de hábito
Segundo Sérgio Meirelles, presidente do Sindicato das Indústrias de Café de Minas Gerais (SINDICAFÉ-MG), o cenário de preços de R$ 60 a R$ 80 por quilo, vistos em meados de 2025, ficou para trás. "Hoje já está menos de R$ 30 na prateleira. Houve uma queda de 25%, uma redução substancial e, o melhor, estamos melhorando a qualidade", afirmou Meirelles.
O dirigente destacou que a "geração saúde" tem sido um motor fundamental para o setor. Com a redução no consumo de álcool e açúcar, o café ganhou status de suplemento natural e bebida de convivência.
"O assunto na academia agora é qual café você toma. O café deixou de ser apenas uma commodity para ser um produto especial. O paladar não retrocede: quando você toma um café bom, não quer voltar ao ruim", completou.
Meirelles explicou que a colheita em Minas começa em maio e o produto entra no mercado entre junho e julho. "A tendência é cair um pouco mais o preço. O ano passado o café estava R$ 2.500 a saca; este ano, vende-se um de qualidade a R$ 1.800, mas o produtor colhe o dobro, mantendo o faturamento e aumentando o acesso do consumidor".
Resiliência do consumidor e os desafios da indústria
Para o presidente da ABIC, Pavel Cardoso, o histórico recente foi de "volatilidade severa". Ele relembrou que, desde a geada de 2021, o setor enfrentou um "Armagedom" climático e especulativo, que culminou em uma escalada exponencial de preços no final de 2024.
"O quilo de café na prateleira chegou a representar 5,5% do salário mínimo em novembro de 2024. Isso afetou o consumo, mas o brasileiro mostrou uma resiliência impressionante. O preço subiu mais de 80% e o consumo caiu apenas 2%", pontuou Cardoso.
Apesar do otimismo com a safra atual, o presidente da ABIC mantém a cautela devido a revisões pontuais nas lavouras de café conilon (robusta) no Espírito Santo e Sul da Bahia. Ele ressalta que a indústria precisa de tempo para repassar as quedas, já que trabalha com estoques comprados anteriormente.
"A indústria é responsável e entregará o preço justo. Se as cotações se mantiverem como estão, a expectativa é que neste segundo semestre a indústria consiga transferir novas reduções de preço para o consumidor", projetou Pavel.
Sustentabilidade e mercado externo
O seminário também abordou a vantagem competitiva do Brasil em termos de sustentabilidade. Com o fim de tarifas para o café torrado na União Europeia (com o Acordo Mercosul-UE) e as rigorosas leis ambientais e trabalhistas brasileiras, o setor vê um horizonte próspero para a exportação de valor agregado.
"Nenhum outro país tem uma lei de proteção ao meio ambiente e ao trabalhador como a nossa. Temos certificações internacionais e práticas que superam nossos concorrentes", concluiu Sérgio Meirelles, reforçando a relevância de Minas Gerais como o maior polo produtor do mundo.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



