Pesquisa mapeia avanço da economia circular na ciência agroalimentar
Estudo da Embrapa e da UnB analisa produção científica e identifica tendências e lacunas no setor agroalimentar

A economia circular vem se consolidando como uma das principais estratégias para tornar os sistemas agroalimentares mais eficientes, resilientes e sustentáveis. Entretanto, ainda existem muitas questões em aberto sobre o tema, a evolução das pesquisas relacionadas ao assunto, os países líderes mundiais, as novas tecnologias e os desafios da implementação da economia circular.
Visando responder alguns desses questionamentos, o artigo “Circular economy in agrifood RD&I: a global bibliometric review” foi publicado na revista internacional Circular Economy and Sustainability (Volume 6, de 29 de julho de 2026), da Springer Nature. O estudo internacional foi realizado pela Embrapa, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB).
Segundo o analista da Embrapa Marcos Pena Jr., autor principal do artigo, o trabalho realizou a mais abrangente análise bibliométrica já produzida sobre economia circular aplicada à pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) no setor agroalimentar, examinando a evolução global da literatura científica nos anos recentes.
“Mais do que contabilizar publicações, nós buscamos compreender como o conhecimento sobre economia circular está sendo construído no mundo. A análise bibliométrica permite identificar quem está produzindo ciência, quais temas estão amadurecendo, onde surgem novas fronteiras de pesquisa e quais oportunidades ainda permanecem pouco exploradas. Esse tipo de evidência é fundamental para orientar decisões estratégicas em pesquisa, desenvolvimento e inovação”, explicou Marcos.
O levantamento demonstra que a produção científica sobre o tema apresentou crescimento exponencial nos últimos anos, refletindo a rápida incorporação da economia circular às agendas internacionais de sustentabilidade, segurança alimentar e inovação tecnológica.
Para construir esse panorama, os pesquisadores reuniram e analisaram centenas de artigos científicos indexados nas principais bases internacionais, utilizando técnicas de bibliometria e análise de redes científicas. O estudo permitiu identificar a evolução temporal da produção científica; os países, organizações e autores mais influentes; as revistas científicas que concentram as pesquisas de maior impacto; as redes internacionais de colaboração; e os principais temas emergentes e sua evolução ao longo do tempo.
Segundo os autores, esse tipo de investigação permite compreender como o conhecimento científico está sendo produzido e quais áreas concentram maior dinamismo, oferecendo subsídios para políticas públicas, definição de prioridades de pesquisa e planejamento estratégico de instituições de ciência e tecnologia. Além de, especialmente, elaboração de estratégias de PD&I.
Inovação e sustentabilidade
Os resultados mostram que a economia circular deixou de ser tratada apenas como uma estratégia de gestão de resíduos para assumir um papel cada vez mais integrado às agendas de inovação.
A literatura científica tem ampliado seu foco para temas como bioeconomia, valorização de biomassa, desperdício de alimentos, avaliação do ciclo de vida, biotecnologia, agricultura sustentável e tecnologias digitais aplicadas à produção agroalimentar. Ao mesmo tempo, o estudo evidencia oportunidades para ampliar pesquisas voltadas à transformação sistêmica das cadeias produtivas e ao desenvolvimento de soluções regenerativas, da lógica linear para a circular.
Para os autores, compreender como a economia circular vem sendo incorporada às atividades de PD&I é fundamental para acelerar a transição para sistemas agroalimentares mais sustentáveis, competitivos e resilientes diante dos desafios das mudanças climáticas, da segurança alimentar e do uso eficiente dos recursos naturais.
Fronteira do conhecimento
Segundo Sérgio Saraiva, analista da Embrapa e coautor do estudo, as organizações públicas de pesquisa precisam olhar continuamente para a fronteira do conhecimento.
“Ao mapear a evolução global da economia circular aplicada à inovação no segmento agroalimentar, o estudo oferece uma base científica para apoiar decisões sobre prioridades de pesquisa, formação de redes de cooperação e desenvolvimento de tecnologias que contribuam para uma agricultura cada vez mais sustentável, sem deixar de lado a competitividade e o lucro social. Uma forma de fortalecer o papel da Embrapa na construção das agendas científicas do futuro”, destacou.
Para o professor da UnB, Fabrício Leitão, a publicação traz informações estratégicas que ajudam organizações de pesquisa, como a Embrapa, a direcionar investimentos, fortalecer parcerias internacionais e antecipar oportunidades de inovação capazes de tornar os sistemas agroalimentares mais sustentáveis, competitivos e resilientes.
“A economia circular deixou de ser uma agenda restrita à gestão de resíduos e passou a orientar a forma como pensamos pesquisa, inovação e desenvolvimento no setor agroalimentar. Nosso estudo mostra que a produção científica mundial cresceu de forma acelerada e revela onde estão as principais competências, os temas emergentes e as lacunas de conhecimento”, finalizou Fabrício.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



