O cenário do agronegócio brasileiro, historicamente dominado por figuras masculinas, atravessa uma transformação profunda pelas mãos de mulheres que decidiram não apenas herdar o trabalho da terra, mas profissionalizá-lo.
Em celebração ao 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Itatiaia Agro conversou com duas produtoras mineiras que são exemplos de como a sensibilidade e a técnica feminina estão elevando o patamar do café e do queijo artesanal.
Café: herança, propósito e o futuro da família Onofre
Aos 25 anos, Amanda Evaristo Lacerda carrega no sobrenome e no cotidiano a responsabilidade da terceira geração da família Lacerda, em Espera Feliz, nas Matas de Minas. Neta de
Amanda cresceu na lavoura e tomou gosto
“Eu literalmente cresci no meio do café. Comecei a me envolver na produção ainda adolescente, ajudando no que era possível e aprendendo na prática. Foi um processo natural, porque o café sempre fez parte da minha vida”, contou Amanda. Hoje, ela divide com o irmão a gestão da Onofre Cafés Especiais e comanda a cafeteria da marca.
Para ela, ser mulher no campo exige resiliência. “Ainda precisamos provar nossa capacidade com mais frequência, mas isso nos fortalece. Existe muita competência feminina no campo”.
A continuidade da linhagem já tem data e nome: Amanda está grávida do primeiro filho, que se chamará Onofre, uma homenagem ao avô. “Quero que ele cresça conhecendo essa trajetória e entendendo o valor do trabalho e da terra. Se ele quiser seguir na produção, vou apoiar com muito orgulho”, afirmou.
Família Lacerda marca presença em vários eventos
Acumulando prêmios
Com a família multipremiada, Amanda conquistou em novembro a
“A gente trabalha muito procurando um café muito especial, mas eu não esperava ficar em primeiro e muito menos com a maior pontuação. Uma felicidade que não cabe no peito” contou a campeã no dia da premiação em novembro.
O café da produtora Amanda Lacerda foi o campeão da categoria Via Seca com a maior pontuação da história do concurso: 94,33
Queijo: a quebra de barreiras na Serra da Canastra
Em São Roque de Minas, Raquel Costa Faria, de 49 anos, representa a 6ª geração de queijeiros da Fazenda Santiago. Se no passado ela e a irmã ajudavam o avô a espremer a massa do queijo de forma quase lúdica, hoje Raquel é a mente estratégica por trás de um produto premiado mundialmente.
Produção bicentenária do Queijo da Canastra da família Faria
Dona de medalhas de ouro e prata no Mundial do Queijo do Brasil, Raquel reconhece que sua ascensão à liderança foi uma conquista política dentro da própria família.
“Eu venho de uma família que só foi liderada por homem. Não se vê a mulher na liderança de uma queijeira, na venda dos queijos. Tive muita batalha com meu pai para ter mudanças, mas de um jeitinho ou de outro eu consegui”, revelou Raquel.
Raquel produz queijo desde criança
Para ela, a ausência de um irmão homem permitiu que ela assumisse o protagonismo. “Antigamente as famílias davam preferência aos homens. Hoje, as mulheres estão à frente de grandes negócios. Isso é uma grande vitória”.
O poder da informação
Raquel ressaltou que a tecnologia e a conectividade foram essenciais para que o queijo da Fazenda Santiago saísse do anonimato. “Hoje a gente não precisa sair da fazenda para ter informação. Pela internet, palestras e divulgação, a gente conhece novas pessoas e vai para o mundo de fora”.
Além disso, a produtora destacou que a fazenda integra a
Fazenda Santiago está na Rota do Queijo de Minas
O recado para quem quer começar
A trajetória dessas duas produtoras mostra que o agro moderno não aceita mais a exclusão de gênero. Para as mulheres que desejam ingressar ou se aprimorar no setor, Amanda Lacerda deixa um conselho direto:
“Não espere se sentir totalmente pronta. Comece, busque conhecimento e confie em você. O agro também é lugar de mulher”.