Ferramenta com IA orienta produtores no controle da ferrugem asiática da soja

Sistema integra dados climáticos e imagens digitais para orientar o manejo e reduzir o uso de fungicidas no campo

Doença é causada pelo fungo biotrófico obrigatório Phakopsora pachyrhizi

A ferrugem asiática da soja é uma das doenças mais severas da cultura. Para auxiliar os produtores no diagnóstico da doença, cientistas brasileiros desenvolveram uma plataforma que integra inteligência artificial à análise combinada de dados climáticos, agronômicos e de imagens digitais. O sistema avalia o risco de ocorrência da doença e gera relatórios com recomendações técnicas de manejo, contribuindo para decisões mais precisas no campo. Agora, os pesquisadores buscam parceiros privados para viabilizar a transferência da solução ao setor produtivo.

A tecnologia reúne dados de sensores ambientais, imagens digitais das folhas e parâmetros agronômicos, como cultivar, espaçamento e calendário de plantio. Os resultados são apresentados em um painel on-line, que permite aos agricultores acompanhar séries temporais de dados climáticos e imagens das plantas.

O sistema foi desenvolvido no âmbito do projeto Ferramenta Digital Avançada para o Gerenciamento de Riscos Agrícolas, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A iniciativa integrou parte do doutorado do cientista da computação Ricardo Alexandre Neves na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob a orientação do pesquisador da Embrapa Instrumentação (SP) Paulo Cruvinel. O estudo A Cloud-Based Intelligence System for Asian Rust Risk Analysis in Soybean Crops foi publicado em julho de 2025 pelo periódico AgriEngineering.

Fusão de dados facilita diagnóstico

Os cientistas desenvolveram o sistema por on-farm research, ou seja, pesquisa a campo diretamente no ambiente de produção, em um modelo que utiliza variáveis climáticas, dados relacionados às plantas de soja e informações obtidas a partir de imagens digitais de folhas da soja. As variáveis climatológicas foram observadas no período de monitoramento na área da cultura.

“A tecnologia classifica a favorabilidade da doença em três níveis, baixo, médio e alto, a depender da combinação do conjunto das variáveis relacionadas ao estágio de infestação. Com isso, é possível realizar diagnósticos e prognósticos de controle da doença, com maior eficácia e precisão”, explicou Neves. Segundo ele, o nível de favorabilidade é definido por inferência estatística em função do comportamento do conjunto das variáveis consideradas e relacionadas à ocorrência da doença.

Os pesquisadores explicam que o sistema funciona a partir da junção de dados. Os principais viabilizam a análise de fatores essenciais ao desenvolvimento do fungo, como o período de molhamento foliar, umidade relativa acima de 90%, na faixa de temperatura entre 15°C e 28°C, ou o ponto de orvalho.

O trabalho utiliza técnicas avançadas e específicas de processamento para extrair informações das imagens digitais de folhas da soja. Padrões de cor, como verde, amarelo e marrom, estão associados aos estágios de evolução da doença.

Causada pelo fungo biotrófico obrigatório Phakopsora pachyrhizi, que depende da planta viva para sobreviver, a doença se desenvolve a partir da presença de esporos no ambiente, associada a condições climáticas favoráveis, como temperaturas entre 15°C e 25°C e alta umidade. Sem controle adequado, a ferrugem compromete a colheita e gera prejuízos expressivos aos agricultores.

Dados estão à disposição dos produtores na web

Os relatórios analíticos disponibilizados no painel de controle foram constituídos com base em um histórico de vinte anos e possibilitam avaliar períodos de ciclos da cultura. O sistema possui interface amigável para navegação, organizada, com informações básicas e de interesse para produtores e potenciais usuários.

De acordo com Cruvinel e Neves, os relatórios gerenciais buscam apoiar as tomadas de decisão do produtor quanto à gestão das áreas de plantio, possibilitando avaliar a ocorrência ou não da ferrugem asiática e o estágio de severidade da doença. Além disso, apresentam recomendações agronômicas baseadas no diagnóstico para o controle da doença.

Cruvinel acrescenta que esses relatórios se encontram na aba “Recomendações Agrícolas” do painel de controle, onde há também um link para o site AGROFIT, banco de informações sobre os produtos agroquímicos e afins registrados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), para consultas e seleção de fungicidas recomendados para o controle da ferrugem asiática.

Solução reduz uso de fungicidas

Os pesquisadores afirmam que o sistema viabiliza o monitoramento da presença ou não da ferrugem asiática da soja, bem como a avaliação da dinâmica de ocorrência da doença, em seus diferentes estágios de severidade e risco no processo agrícola produtivo.

“O ponto-chave da pesquisa foi criar um método que integra dados heterogêneos para oferecer um diagnóstico mais confiável. Depender apenas de imagens ou apenas de dados climáticos isolados não é suficiente para uma avaliação precisa, o que pode levar a diagnósticos falso-positivos. Além disso, a solução oferece prevenção e uso racional de fungicidas”, afirmou Neves, que é atualmente professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus de São João da Boa Vista.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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