Três em cada dez pescadores do Rio Doce deixaram atividade após rompimento em Mariana
Estudo do Instituto de Pesca indicou que 31% dos pescadores cadastrados declararam-se inativos, com a principal justificativa relacionada às consequências do rompimento da barragem

Uma nova publicação apresenta o panorama da pesca e da aquicultura na região afetada pelo rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), que ocorreu em novembro de 2015. O Projeto de Monitoramento e Caracterização Socioeconômica da Atividade Pesqueira no Rio Doce e no Litoral do Espírito Santo, divulgado pelo Instituto de Pesca (IP-APTA), reúne os resultados obtidos entre 2021 e 2024.
O trabalho foi desenvolvido sob a coordenação geral do pesquisador do IP Antonio Olinto Ávila da Silva, em parceria com o professor Maurício Hostim, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e teve como objetivo avaliar a evolução dos impactos do desastre sobre a atividade pesqueira, abrangendo tanto a pesca extrativa quanto a aquicultura.
A área de estudo contemplou ambientes continentais ao longo da bacia do rio Doce, nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, além dos ambientes estuarino e marinho do litoral capixaba.
Monitoramento em ampla escala
Ao longo do período de monitoramento, foram registradas 2.741 unidades produtivas, entre pescadores e embarcações, além de 24.897 viagens de pesca e descargas que totalizaram 15.891 toneladas de pescado. Paralelamente, às ações de caracterização socioeconômica resultaram na realização de 3.279 entrevistas com pescadores e pescadoras artesanais, 935 entrevistas voltadas à caracterização das embarcações e no mapeamento de 1.108 infraestruturas ligadas à cadeia produtiva da pesca e da aquicultura.
A pesquisa abrangeu 42 municípios, sendo 29 em Minas Gerais e 13 no Espírito Santo. O monitoramento da atividade pesqueira foi realizado em 32 municípios do ambiente continental e em 11 municípios do ambiente marinho, com destaque para Linhares (ES), que recebeu ambos os monitoramentos devido à sua localização estratégica na foz do rio Doce.
Os dados levantados permitiram caracterizar a atividade pesqueira em diferentes ambientes, incluindo rios, lagoas, estuários e áreas marinhas. O estudo também registrou informações sobre infraestrutura pesqueira, embarcações, aparelhos de pesca utilizados, principais espécies capturadas, volume e valor das descargas de pescado, além do perfil socioeconômico das comunidades pesqueiras.
Contribuições para o setor pesqueiro
Entre os resultados observados no ambiente continental, o levantamento identificou 1.965 unidades produtivas, das quais 31% dos pescadores cadastrados e 16% das embarcações declararam-se inativos. Em grande parte dos casos, a principal justificativa apontada para a interrupção das atividades esteve relacionada às consequências do rompimento da barragem.
No caso do monitoramento marinho e estuarino, no período de estudo, foram identificadas 776 unidades produtivas, sendo 87% artesanais e 13% industriais. No total foram registradas 17.270 viagens com um volume descarregado de 15.752 toneladas de pescado.
A análise dos dados permitiu traçar um panorama atual da atividade pesqueira na região e gerar informações estratégicas para subsidiar políticas públicas, ações de recuperação ambiental e iniciativas de apoio às comunidades que dependem da pesca e da aquicultura como fonte de renda e subsistência.
De acordo com a pesquisadora do IP e uma das autoras do relatório, Paula Maria Gênova de Castro Campanha, “este produto mostra o perfil e a atividade dos pescadores na região do Rio Doce, afetada pelo desastre de Mariana, e no litoral do Espírito Santo. O monitoramento representa a base de dados indispensável para a formulação de políticas públicas apropriadas para o setor”.
Também pesquisadora do Instituto, Maria Letizia Petesse ressaltou que “os desafios na atividade pesqueira, tanto na parte continental quanto marinha, são muito grandes e precisam ser acompanhados de forma constante para compreender as transformações na atividade ao longo do tempo”.
Nota da Samarco
Em nota enviada à reportagem, a Samarco, responsável pela barragem de Fundão, se posicionou. "A Samarco esclarece que, considerando o estabelecido no Novo Acordo do Rio Doce, o Programa de Monitoramento da Atividade Pesqueira na bacia do Rio Doce e região marinha adjacente tem como objetivo realizar um levantamento de dados sobre a atividade na região, mapeando o volume e as espécies pescadas para entender a realidade atual da pesca local. O encerramento do monitoramento está previsto para novembro deste ano, conforme prazo estabelecido no Novo Acordo do Rio Doce.
Diferentemente do que foi veiculado, o Programa não abrange a avaliação de causalidade de impactos decorrentes do rompimento da barragem de Fundão".
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



