Espécie rara de café é encontrada no Pará em quintais mantidos por gerações de agricultores
Pesquisa da Embrapa e Ufra identifica a variedade Coffea liberica no nordeste paraense e valoriza a preservação ancestral feita por famílias rurais às vésperas do tricentenário da chegada do café ao Brasil

Uma descoberta botânica de alto valor científico e histórico está aproximando a pesquisa acadêmica do conhecimento tradicional no Pará. O projeto 'Café Ancestral Agroecológico no Nordeste Paraense' identificou em quintais agroflorestais do município de Irituia a presença da espécie Coffea liberica, conhecida na região como café "beirão". A espécie é considerada uma raridade na cafeicultura brasileira atual e o achado ocorre às vésperas de um marco histórico: em 2027, o Brasil comemora o tricentenário da chegada do café ao país, cujas primeiras sementes aportaram justamente em Belém, em 1727, vindas da Guiana Francesa.
Além do "beirão", que apresentou variações de frutos vermelhos e amarelos, o levantamento mapeou a espécie Coffea arabica, chamada localmente de "pretinho" ou "moca" (esta última caracterizada por desenvolver uma única semente arredondada por fruto).
No total, os pesquisadores analisaram 57 exemplares em oito propriedades espalhadas pelos municípios de Irituia, São Domingos do Capim, Ourém, Capitão Poço e São Miguel do Guamá. Desses, 48 amostras férteis foram incorporadas ao Herbário IAN, da Embrapa Amazônia Oriental, inaugurando uma seção temática dedicada à agricultura da Amazônia.

Memória familiar e o protagonismo feminino
A conservação desses recursos genéticos raros ao longo dos séculos deve-se diretamente ao manejo de famílias agricultoras e, em especial, ao protagonismo feminino. No Sítio Conceição, em Irituia, o agricultor Agílio Cordeiro Vieiras, de 66 anos, relata que o café "beirão" já era mantido no quintal por sua mãe e sua avó desde a sua infância.
A história se repete em diversas propriedades do Alto Rio Guamá: foram as matriarcas da agricultura familiar que preservaram não apenas os pés de café, mas também as técnicas de cultivo, as formas de preparo e os saberes transmitidos de geração em geração.
Iniciado pelo professor José Sebastião Romano de Oliveira ("Zezinho"), da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra/Capitão Poço), o projeto alia ferramentas participativas, como "mapas falados" e "linhas do tempo" baseados em relatos dos moradores, à rigorosa análise taxonômica. A iniciativa reúne a Embrapa Amazônia Oriental, a Ufra e a Cooperativa D’Irituia, com suporte da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).
Produção sustentável e valorização de mercado
Cultivar o café em harmonia com a floresta em pé já é uma realidade consolidade para produtores como Avelino Brás de Oliveira. Há cerca de duas décadas, ele aposta no sistema agroflorestal (SAF) e hoje cultiva cerca de 3 mil cafeeiros consorciados com fruteiras amazônicas, citros e árvores nativas, contando com uma agroindústria própria na propriedade para beneficiar e torrar os grãos vendidos no Pará e em São Paulo.

Para fortalecer a cadeia produtiva, a Cooperativa D'Irituia avança na profissionalização e no desenvolvimento da identidade visual do produto, dando início ao registro de marca no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O grupo estuda solicitar selos de indicação geográfica e certificação orgânica.
"A pesquisa precisa avançar nesta identificação botânica, como também em sistemas produtivos mais eficientes para garantir futuramente escala e uma comercialização mais estruturada e profissional", ponderou o pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental, Osvaldo Kato, que atua ao lado da taxonomista Fernanda Ilkiu-Borges de Souza.

Apesar da proximidade com os 300 anos da chegada do café ao Brasil, quando as primeira sementes chegaram a Belém, a equipe ressalta que a identificação taxonômica, por si só, ainda não comprova que as plantas encontradas sejam descendentes diretas dos primeiros cafeeiros de 1727. Contudo, ao mapear esse patrimônio agrícola e cultural, o projeto abre caminhos para aprimorar o manejo agroflorestal, gerar renda para as famílias do nordeste paraense e demonstrar que a conservação ambiental caminha lado a lado com a valorização do conhecimento tradicional.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



