Inadimplência recorde no agro vem do custo e não do tamanho da dívida, aponta Cepea
Estudo da Esalq/USP cruza dados de 2013 a 2026 e revela que explosão nos juros e migração para o crédito livre triplicaram a conta financeira do setor

A inadimplência no crédito rural para pessoas físicas atingiu o topo histórico da série do Banco Central, com um salto de 0,8% em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026. Contudo, o atraso nas contas não decorre de um endividamento desmedido do produtor frente à sua produção, segundo o Texto Ocasional para Discussão (TOD), assinado pelos pesquisadores Lucilio R. A. Alves e Geraldo S. A. de C. Barros, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP).
O diagnóstico indica que o endividamento do agro passou a ter um custo muito mais elevado, mudou de credor e se concentrou criticamente em modalidades de juros livres e em setores vulneráveis às oscilações de mercado.
Os 5 pontos de atenção do diagnóstico do Cepea
Para responder de onde vem o pico de inadimplência, o estudo mapeou cinco vetores centrais do financiamento do agronegócio no Brasil:
1. O volume da dívida não é a causa do problema
Em 2025, o estoque total da carteira de crédito rural representava 94% da renda anual da agropecuária. O índice permanece dentro da margem histórica observada entre 2013 e 2019 (que oscilava entre 87% e 109%), período em que a taxa de inadimplência registrava cerca de um terço do patamar atual.
2. Aumento expressivo no encargo financeiro
Se o tamanho da dívida permaneceu proporcional, o custo para carregá-la disparou. A taxa média cobrada no crédito rural para pessoa física saltou de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% ao ano em 2025. Como resultado, a fatura anual de juros estimada para o setor quase triplicou, passando de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões — evoluindo de 3,9% para 11,4% da renda total gerada pelo agro.
3. Atraso focado no crédito privado e nas lavouras de grãos
As fontes privadas com taxas livres (como as Letras de Crédito do Agronegócio - LCA) saltaram de 5% dos contratos em 2013 para quase metade em 2023. Atreladas à variação da taxa Selic, essas operações concentram 77% do saldo em atraso, apresentando uma inadimplência de 17,6%, contra apenas 3,8% nos financiamentos de juros controlados.
O aperto sufoca sobretudo a cultura de grãos, cujo preço real caiu 28% em relação a 2021, somado à pior relação de troca com fertilizantes da série, enquanto a pecuária vive um ciclo oposto de recuperação.
4. Inadimplência oficial reflete apenas 25% do problema
A taxa oficial de calote oculta uma parcela expressiva do passivo rural. Em agosto de 2026, a chamada "carteira problemática" do Banco Central somava R$ 205 bilhões (23,8% de todo o crédito rural do país). Três quartos desse montante encontram-se renegociados ou prorrogados e, portanto, não entram no índice de inadimplência.
- Rio Grande do Sul: retém 13% da carteira nacional, mas concentra 21% da carteira problemática e 27% dos saldos prorrogados, mantendo uma inadimplência formal baixa, de apenas 3,2%.
- Centro-Oeste e Matopiba: o diferimento já deu lugar ao atraso explícito. A inadimplência atinge 8,8% em Goiás e supera os 15% em estados como Maranhão e Tocantins.
5. Financiamento extraoficial e alcance limitado de medidas públicas
Desde 2019, o investimento agropecuário subiu 71%, sendo que 64% desse aporte foi financiado fora do sistema de crédito rural tradicional (via CPRs, fornecedores, leasing ou capital próprio), gerando uma "dívida invisível" às estatísticas oficiais. Na esfera governamental, a resposta pública mostrou fôlego limitado: a MP 1.376/2026 renegociou R$ 5,98 bilhões até início de outubro, cerca de 5% do montante estimado, cobrindo apenas 1,3% das dívidas focadas em investimentos.
Soluções de curto e longo prazo
Segundo os autores do estudo do Cepea, o cenário atual resulta de financiamentos de longo prazo contratados durante o ciclo de margens altas (2020 a 2022) que venceram no momento em que os preços dos grãos despencaram e os juros dobraram.
Ou seja, o salto na inadimplência do crédito rural não aconteceu porque os produtores rurais pegaram empréstimos além do que suas fazendas conseguem pagar, mas sim porque o custo dessas dívidas disparou. Com a alta das taxas de juros e a migração dos financiamentos para bancos privados e linhas de juros livres, a conta anual de juros cobrada do setor quase triplicou nos últimos anos. Esse aperto financeiro afeta principalmente os produtores de grãos, que hoje enfrentam custos de produção elevados e preços de venda mais baixos, fazendo com que financiamentos contratados em anos anteriores ficassem pesados demais para quitar no prazo.
Para os pesquisadores, a solução para a crise requer evitar o alongamento generalizado de prazos e priorizar a separação individual entre liquidez e solvência, analisando a capacidade financeira real de cada propriedade. O levantamento conclui destacando a urgência de maior transparência em dados hoje inacessíveis, como a taxa de renegociações bilaterais e o volume de endividamento fora do sistema financeiro tradicional.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



