Itatiaia

México bloqueia aves do Brasil após foco de Newcastle em SC; país lidera compras de carne de peru

Medida paralisa compras do principal cliente da carne de peru brasileira, mercado que saltou 319% em 2026, e do 7º maior destino de frango; Governo e setor produtivo reforçam que caso não afeta a segurança do consumo humano

Por
Paraná bate recorde nas exportações de perus com salto de 34% no trimestre
Governo do Paraná/ Divulgação

O governo do México, por meio do Ministério da Agricultura e do Serviço Nacional de Saúde, Segurança e Qualidade Agroalimentar (Senasica), anunciou a suspensão temporária das importações de todos os produtos avícolas provenientes do Brasil. A decisão (Nota nº 299/Cidade do México) foi tomada após o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmar a detecção do vírus da doença de Newcastle em um estabelecimento comercial no município de Nova Itaberaba, no Oeste de Santa Catarina, estado que lidera a avicultura e a produção de perus no país.

A determinação mexicana desativou as Fichas de Requisitos de Saúde Animal no sistema do país. Com isso, fica impedida a entrada de carne de aves, vísceras, ovos férteis, pintos de até três dias de vida, aves ornamentais, canoras, de rapina e até mesmo animais de estimação levados por turistas. O México justificou o veto pela necessidade de resguardar sua produção nacional, mantendo o status de território livre da enfermidade.

Impacto comercial: México lidera compras de Peru e é chave no frango

A suspensão mexicana atinge o comércio exterior brasileiro em um momento de forte aceleração nas vendas de proteína animal, afetando diretamente dois pilares do setor:

  • Carne de peru (mercado em expansão)

O México consolidou-se em 2026 como o principal destino internacional da carne de peru brasileira. Entre janeiro e abril deste ano, o país importou 6.825 toneladas da proteína, um salto de 319,7% em volume e 627,4% em receita (movimentando cerca de R$ 153,5 milhões) frente ao mesmo período de 2025.

O bloqueio paralisa uma trajetória de forte recuperação nacional: nos primeiros quatro meses de 2026, o Brasil exportou 22.328 toneladas de carne de peru (alta de 23,1%), impulsionado pelo encarecimento do produto no mercado global, o preço médio atingiu R$ 20,3 mil por tonelada (alta de 77,6%). Mais de 99% do volume exportado é comercializado in natura, modalidade diretamente atingida pelo embargo.

  • Carne de frango e risco de autoembargo

Além do peru, o México é o sétimo maior comprador da carne de frango brasileira, respondendo por cerca de 30% das importações mexicanas da proteína. Em 2025, foram adquiridas 244,39 mil toneladas do produto. No ano passado, as exportações globais brasileiras de carne de frango renderam US$ 9,8 bilhões (5,3 milhões de toneladas para 153 países).

Devido aos rígidos acordos sanitários bilaterais, o Brasil também deve aplicar um autoembargo temporário nas exportações avícolas para a China, outro gigante entre seus parceiros comerciais.

Concentração no Sul e liderança de SC

A crise sanitária atinge em cheio o coração produtivo do setor. A Região Sul é responsável por 97% da produção nacional de carne de peru, liderada por Santa Catarina (62%), seguida pelo Rio Grande do Sul (23%) e Paraná (15%).

No primeiro quadrimestre de 2026, Santa Catarina liderou as exportações de peru com 8.906 toneladas e faturamento de R$ 196 milhões (alta de 171,1% em receita). Com o foco identificado exatamente em solo catarinense (Nova Itaberaba), a cadeia logística do estado enfrenta um gargalo imediato até a liberação dos embarques.

Foco sem sintomas e ações do governo brasileiro

Em coletiva de imprensa realizada em Brasília, o ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, prestou esclarecimentos e enfatizou que a detecção ocorreu precocemente graças ao sistema de vigilância ativa do país.

O foco envolveu um lote de cerca de 6 mil perus de corte. As análises laboratoriais confirmaram a presença viral, mas o Mapa e o Serviço Veterinário Oficial de Santa Catarina agiram prontamente:

  • Interdição e contenção: a propriedade foi isolada. Nenhuma ave do lote afetado foi destinada ao abate para consumo humano.
  • Depopulação e desinfecção: seguindo as normas da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), o plantel será eliminado e a propriedade passará por limpeza rigorosa.
  • Cinturão de monitoramento: uma área de restrição cobrindo 133 propriedades em Nova Itaberaba e municípios vizinhos (Coronel Freitas, Nova Erechim e Águas Frias) passará por inspeções e coletas enviadas ao LFDA-SP.

O ministro reforçou que a transparência é total e tranquilizou os consumidores: "queria destacar, porque acho que é importante a gente enfatizar, que o consumo dessa carne não traz nenhum risco às pessoas", declarou André de Paula.

Setor produtivo garante segurança alimentar

Em nota conjunta, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a Associação Catarinense de Avicultura (ACAV) e o Sindicarne-SC ressaltaram que a ocorrência se restringiu à detecção do vírus, sem qualquer manifestação clínica de doença nos animais confinados.

As entidades reiteraram que a questão é estritamente de sanidade animal no ambiente produtivo e não afeta a segurança dos alimentos, mantendo total confiança no rigor técnico do sistema sanitário brasileiro e na rápida normalização das relações internacionais.

Por

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.

 

 

Belo Horizonte