Itatiaia

Além do Brasil, El Niño preocupa agronegócio da Argentina, Uruguai e Paraguai

Fenômeno El Niño impacta o agro de maneiras distintas; enquanto alguns países veem a recuperação de lavouras após secas, outros enfrentam temporais, granizo e riscos de excesso hídrico

Por
El Niño pode ser o mais intenso desde 1950, segundo NOAA
Foto: NOAA

Não é só no Brasil que o El Niño preocupa o agronegócio. Na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, o fenômeno climático também entrou no radar de produtores, associações rurais e exportadores, com impactos que vão da recuperação das lavouras após períodos secos a danos provocados por temporais e riscos de interrupção das operações agrícolas.

O fenômeno climático El Niño está no radar do agronegócio de Argentina, Uruguai e Paraguai, com impactos diversos que variam da recuperação de lavouras após períodos secos a danos causados por temporais e riscos de interrupção nas operações agrícolas. As preocupações se manifestam de diferentes formas em cada país, com o início das chuvas em outubro na Argentina, temporais no Paraguai e projeções de precipitações acima da média no Uruguai para a primavera e o verão.

A diferença entre os países está no estágio dos efeitos observados. Na Argentina, as chuvas que chegaram no início de outubro começaram a recuperar a umidade do solo em áreas importantes para a produção de trigo e para o plantio de soja e milho. No Paraguai, temporais e granizo já danificaram cultivos e estruturas agrícolas em algumas localidades. No Uruguai, as projeções oficiais indicam maior probabilidade de precipitações acima da média durante a primavera e o início do verão, cenário que pode favorecer pastagens e lavouras, mas também aumentar os riscos de alagamentos e doenças.

Na Argentina, as precipitações do início de outubro começaram a mudar as perspectivas para a safra de verão depois de semanas de preocupação com a falta de água. O relatório de 8 de outubro da Guia Estratégica para o Agro, da BCR (Bolsa de Comércio de Rosário), descreveu a semana como um ponto de inflexão para a região agrícola central.

Segundo a entidade, a região recebeu aproximadamente 50 milímetros de chuva, volume que ajudou a recuperar o potencial produtivo do trigo e a recompor as reservas hídricas do solo antes do avanço do plantio de soja e milho. Nas áreas em que os acumulados superaram 40 milímetros, técnicos identificaram melhora nas perspectivas de rendimento do trigo.

O alívio é relevante porque, no fim de setembro, cerca de 70% da região agrícola núcleo estava em condições de escassez hídrica ou seca, segundo o acompanhamento da BCR. O déficit prejudicava o desenvolvimento do trigo e dificultava o avanço da semeadura do milho.

A recuperação das condições de umidade, entretanto, não significa que o risco climático tenha desaparecido. O desafio agora é administrar a possibilidade de precipitações excessivas justamente durante a implantação das lavouras de verão.

Em reportagem publicada em outubro, o jornal Clarín Rural também destacou que os modelos climáticos apontam para o fortalecimento do El Niño o que pode favorecer a produtividade da soja e do milho, mas o excesso hídrico e as dificuldades para entrar nos campos com máquinas estão entre os principais riscos identificados para a campanha.

A BCR alerta que o calendário agrícola pode ser afetado por períodos de chuva intercalados com janelas curtas de tempo firme.

A preocupação também envolve a colheita do trigo. Chuvas persistentes durante a fase final do ciclo ou no momento da retirada dos grãos podem atrasar os trabalhos e afetar a qualidade do produto, dependendo da intensidade e da duração dos eventos.

Nenhuma entidade no país arrisca a calcular o impacto econômico neste momento. Uma eventual melhora de produtividade pode ampliar a oferta exportável, mas problemas de campo e logística podem elevar custos e atrasar a chegada dos grãos aos portos.

No Paraguai, a chegada das chuvas coincide com a implantação da safra de soja 2026/27. O cenário é considerado favorável à produção enquanto a umidade do solo permanece adequada, mas os temporais registrados em outubro demonstraram que eventos extremos podem provocar prejuízos localizados mesmo em uma temporada com perspectiva positiva de água.

Em 5 de outubro, o jornal Última Hora noticiou danos causados por temporais e granizo em cultivos de frutas, hortaliças e soja, além de estruturas de produção protegida. Os problemas foram relatados em áreas dos departamentos de Caaguazú, San Pedro e Alto Paraná.

A UGP (União de Grêmios da Produção) informou que os ventos fortes e o granizo atingiram propriedades agrícolas. Em Caaguazú, produtores relataram danos à soja. A entidade não apresentou, naquele momento, uma estimativa nacional consolidada das perdas.

O Ministério da Agricultura e Pecuária do Paraguai publicou em 8 de outubro orientações para que produtores e técnicos acompanhem os boletins meteorológicos e adaptem as operações às condições de cada região. Entre as medidas recomendadas estão desobstruir canais de drenagem, monitorar doenças favorecidas pela umidade e planejar aplicações fitossanitárias conforme a previsão do tempo.

O diretor-executivo da Capeco (Câmara Paraguaia de Exportadores e Comercializadores de Cereais e Oleaginosas), Hugo Pastore, destacou em nota que as chuvas podem beneficiar a produção, mas eventuais excessos também ameaçam a logística rodoviária e portuária.

A própria Capeco apresentou, em 29 de setembro, uma avaliação do cenário climático para a área agrícola paraguaia e a região. O assessor agroclimático Eduardo Sierra afirmou que os prognósticos apontavam para um episódio forte de El Niño, mas não necessariamente para precipitações fora de todos os padrões históricos. Segundo a análise divulgada pela entidade, o balanço produtivo durante episódios do fenômeno tende, em geral, a ser positivo, embora o aumento da umidade possa ampliar a pressão de doenças e os problemas causados por excesso de água.

A posição da Capeco é importante porque relativiza a ideia de que um El Niño forte necessariamente provocará uma quebra de safra. O Paraguai costuma ser beneficiado pelo fenômeno.

Na pecuária, a ARP (Associação Rural do Paraguai) afirma que a maior oferta hídrica pode ampliar o crescimento das pastagens e da forragem, reduzindo o risco de déficit de água em períodos críticos. Por outro lado, o excesso de umidade pode aumentar problemas sanitários e reduzir áreas de pastagem em zonas sujeitas a inundações.

No Uruguai, a principal evidência recente é a previsão oficial de precipitações acima da média durante a primavera e o início do verão. O Inumet (Instituto Uruguaio de Meteorologia) publicou a tendência climática para outubro, novembro e dezembro de 2026, dividindo o país em duas grandes regiões.

Para o norte, o nordeste e partes do centro e do leste, o instituto atribuiu 60% de probabilidade à ocorrência de chuvas no tercil superior da distribuição histórica, 30% à faixa intermediária e 10% à inferior. No restante do território, a probabilidade de precipitações no tercil superior foi estimada em 40%, com 30% para cada uma das outras duas categorias.

A temperatura média também pode ficar abaixo do normal no trimestre, segundo o Inumet, que atribuiu 45% de probabilidade à categoria inferior. A combinação entre precipitações elevadas e temperaturas mais baixas pode influenciar a duração das janelas de trabalho no campo e as condições sanitárias de diferentes sistemas produtivos.

O INIA (Instituto Nacional de Pesquisa Agropecuária do Uruguai) preparou um relatório específico para orientar o setor diante do El Niño. As recomendações variam de acordo com o sistema produtivo e a região, porque o mesmo volume de chuva pode ser benéfico em uma área e prejudicial em outra.

Assim como no Paraguai, a avaliação é que na pecuária, a abundância de água favoreça o crescimento das pastagens e melhorar a oferta de alimento para os animais. Isso pode reduzir a necessidade de suplementação em determinadas condições e contribuir para o desempenho dos rebanhos.

Na agricultura, o excesso de chuva pode atrasar o plantio, dificultar a aplicação de fertilizantes e defensivos e elevar a incidência de doenças. A umidade excessiva também pode prejudicar o acesso de máquinas às áreas de produção, afetando o calendário de operações.

O setor arrozeiro merece atenção específica, segundo a entidade, pois a água é um insumo essencial à cultura, mas o excesso de precipitação não elimina a necessidade de manejo dos sistemas de irrigação, drenagem e colheita.

Por

Acompanhe as últimas notícias produzidas pela CNN Brasil, publicadas na Itatiaia.

Tópicos
 

 

Belo Horizonte