El Niño e La Niña alteram produtividade da soja no Cerrado, aponta estudo
Pesquisa com cinco décadas de dados mostra que época de semeadura e manejo do solo influenciam as perdas e ganhos de produtividade da soja sob diferentes condições climáticas

Uma nova pesquisa estuda os efeitos da ocorrência dos fenômenos El Niño e La Niña na produtividade da soja em diferentes regiões do Cerrado. Segundo o estudo que avaliou o desempenho da cultivar BRS 8383IPRO, os impactos variam conforme a época de semeadura e o sistema de manejo do solo. Os pesquisadores avaliaram os impactos em quatro polos produtores: Barreiras (BA), Planaltina (DF), Rio Verde (GO) e Cuiabá (MT).
Conduzida por Maria Clara Biondo, bolsista de iniciação científica da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob orientação de Alfredo Luiz, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, e com colaboração de Fernando Macena, pesquisador da Embrapa Cerrados, a pesquisa analisou cinco décadas de dados climáticos (1975 a 2024). O objetivo foi entender como as fases do fenômeno El Niño–Oscilação Sul (ENOS) interferem na produção simulada do grão e de que forma esses dados podem aprimorar o planejamento agrícola.
O ENOS é uma oscilação na temperatura das águas do Oceano Pacífico que altera o regime de chuvas e temperaturas em diversas partes do globo. Suas fases principais são o El Niño (aquecimento das águas) e a La Niña (resfriamento), intercaladas por períodos de neutralidade.
Ajuste na época de plantio diminui perdas
Para mapear os cenários, os pesquisadores utilizaram dados de produtividade simulados pelo modelo STICS e classificaram os anos da série histórica com base no Índice Oceânico Niño registrado entre março e maio. Esse intervalo garante a antecedência necessária para o planejamento da safra, cujo plantio no Cerrado ocorre de setembro a dezembro. As simulações consideraram diferentes datas de semeadura e dois sistemas de manejo: Plantio Direto e Plantio Convencional.
De forma geral, os anos de La Niña favoreceram o rendimento da lavoura, enquanto o El Niño provocou perdas, especialmente nas semeaduras antecipadas. O resultado indica que a escolha do momento de implantação do cultivo é determinante em anos sob influência do El Niño.
Plantio direto e distribuição das chuvas
O trabalho também confirmou a superioridade do Plantio Direto sobre o Convencional em todos os cenários. O não revolvimento do solo e a manutenção da palhada na superfície do solo, o sistema conserva a umidade, reduz a temperatura da terra e diminui a erosão, vantagens decisivas em períodos de chuvas irregulares.
Outro ponto identificado foi a alta correlação entre a produtividade e a transpiração das plantas, fator ligado à regularidade das precipitações ao longo do ciclo e não apenas ao volume total acumulado. Déficits hídricos em fases críticas comprometem o enchimento dos grãos.
Complemento ao ZARC
Atualmente, o planejamento do calendário agrícola no Brasil utiliza como principal referência o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), baseado em séries históricas de clima. Segundo os autores, a inclusão de informações sobre o ENOS pode vir a conferir, no futuro, maior dinamismo às recomendações, ajustando a época de semeadura e o manejo à previsão de cada safra.
“Por hora, independente da inclusão ou não das informações sobre o ENOS no ZARC, podemos recomendar que a semeadura da soja na região do Cerrado deve, sempre que possível, ser realizada apenas após o estabelecimento regular da estação chuvosa, evitando o chamado ‘plantio no pó’, sob condições de deficiência hídrica que possam prejudicar a germinação das plantas”, explicou Luiz.
Apesar da relevância das descobertas, os pesquisadores ressaltam que o ENOS não age sozinho: o rendimento final da lavoura depende da interação entre chuva, temperatura, características locais, manejo e outros eventos meteorológicos de grande escala.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



