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Do Vale do Mucuri para o Brasil: tradicional Requeijão Moreno é regulamentado em MG

Com sabor levemente defumado e receita secular, a iguaria ganha regras de fabricação que preservam o modo de fazer artesanal e abrem as portas do mercado nacional

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Do Vale do Mucuri para o Brasil: tradicional Requeijão Moreno é regulamentado em MG
Diego Vargas/ Seapa-MG

O tradicional requeijão moreno do Vale do Mucuri está prestes a conquistar novos horizontes e ganhar espaço definitivo no mercado nacional. Em cerimônia realizada na Praça Tiradentes, em Teófilo Otoni, o governador de Minas Gerais, Mateus Simões, oficializou o Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) da iguaria centenária. O marco histórico ocorreu durante as atividades da Praça de Serviços - Governo Presente, iniciativa que transferiu simbolicamente a capital mineira para o município.

A nova regulamentação define padrões rígidos de produção, boas práticas de fabricação e normas de segurança sanitária, ao mesmo tempo em que preserva o modo artesanal e secular de preparo. Na prática, o decreto abre as portas para que os produtores, após cumprirem os requisitos, vendam o alimento — que hoje circula quase exclusivamente no Vale do Mucuri — para todo o território brasileiro.

"Com isso, nós vamos poder passar a vender requeijão moreno do Mucuri no Brasil inteiro, em supermercados até. Uma coisa que era impossível até então, e que vai gerar muito orgulho para a gente", celebrou o governador. "O reconhecimento dos Modos de Fazer o Queijo Minas Artesanal tem gerado uma melhora de vida aos produtores mineiros. E vamos ver o mesmo acontecer com o requeijão moreno".

• Karoline Barreto/ Imprensa MG
• Karoline Barreto/ Imprensa MG

Produzido há mais de 100 anos e reconhecido como queijo artesanal de Minas em maio de 2024, o requeijão moreno é elaborado a partir de massa de queijo fermentada cozida com creme, o que confere sua coloração escura e seu sabor marcante.

Impulso econômico e valorização cultural

O RTIQ também pavimenta o caminho para a formalização das agroindústrias familiares e para a emissão das primeiras habilitações sanitárias específicas do produto. Segundo o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Thales Fernandes, a medida é um divisor de águas para o desenvolvimento regional.

"A iniciativa representa um avanço para a economia regional. A medida promove agregação de valor à produção leiteira, fortalece a cadeia produtiva e estimula a geração de emprego e renda no Vale do Mucuri", destacou Fernandes.

De acordo com dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), a produção do requeijão moreno está concentrada em 13 municípios da região:

  • Ataléia
  • Catuji
  • Franciscópolis
  • Frei Gaspar
  • Itaipé
  • Ladainha
  • Malacacheta
  • Novo Oriente de Minas
  • Ouro Verde de Minas
  • Pavão
  • Poté
  • Setubinha
  • Teófilo Otoni

Atualmente, 76 agroindústrias familiares são responsáveis pela produção de 91,4 toneladas da iguaria por ano, movimentando a economia de pequenos e médios produtores.

 

Da tradição familiar ao reconhecimento internacional

Para quem dedica a vida ao tacho de cobre, a assinatura do regulamento representa o ápice de uma jornada. É o caso da produtora Neusa Lopes, do município Malacacheta. Durante a solenidade, ela foi homenageada com a medalha de prata do Mundial do Queijo do Brasil na categoria Requeijão Moreno — premiação chancelada pela SerTãoBras.

Neusa, que aprendeu a receita na infância e produz o requeijão ao lado do marido há 27 anos, começou vendendo em feiras locais. O reconhecimento do mercado veio em uma sequência de conquistas: o casal faturou a medalha Super Ouro no Mundial do Queijo em 2024 e, em 2025, levou a prata no Expoqueijo Brasil, em Araxá.

Neusa Lopes e o marido produzem o requeijão moreno há 27 anos • Diego Vargas / Seapa-MG
Neusa Lopes e o marido produzem o requeijão moreno há 27 anos • Diego Vargas / Seapa-MG

“O regulamento é um sonho realizado, um marco na minha vida. Poderemos vender para todo o Brasil”, declarou a produtora, emocionada.

Parceria científica garantiu segurança jurídica

A construção do RTIQ foi fruto de uma intensa articulação técnica e jurídica iniciada em 2023, após uma demanda enviada pela Associação dos Produtores de Queijo da Microrregião da Serra Geral. A Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) liderou o processo, que contou com um forte embasamento científico.

A Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) validou as pesquisas que deram suporte técnico e confiabilidade aos dados. Posteriormente, o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) redigiu a minuta do regulamento e a submeteu à consulta pública.

O gerente de inspeção de produtos de origem animal do IMA, Rômulo Lage, ressalta que o maior ganho, além do comercial, é a garantia de um alimento seguro na mesa do povo. “Os consumidores poderão adquirir o produto com a certeza de que é elaborado da forma correta, respeitando todo o procedimento que as pesquisas mostraram ser a forma certa, com parâmetros físico-químicos e microbiológicos”, pontuou.

• Karoline Barreto/ Imprensa MG
• Karoline Barreto/ Imprensa MG

O diferencial do Requeijão Moreno

  • Consistência: firme
  • Coloração: varia do amarelo ao marrom
  • Sabor: levemente defumado
  • Matéria-prima: leite cru coagulado naturalmente
  • Processo de fabricação: fusão entre creme de leite cozido e massa de coalhada dessorada e lavada
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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde