Brasil deve produzir 200 mil toneladas de morango, mas praga silenciosa acende alerta
Impulsionada por ganhos de produtividade em MG, SP e RS, safra nacional deve crescer 2,6% este ano, mas exige manejo fitossanitário integrado

A cultura do morango no Brasil mantém sua trajetória de crescimento em 2026, impulsionada por ganhos contínuos de produtividade e maior tecnificação no campo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção nacional deve atingir a marca de 200 mil toneladas, o que representa um avanço de 2,6% em comparação ao ano anterior. O crescimento consolida a força de polos tradicionais como Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.
Apesar do cenário econômico positivo, os produtores enfrentam desafios climáticos e fitossanitários complexos. Episódios de calor fora de época têm desregulado o calendário produtivo e impactado o desenvolvimento das lavouras. Tradicionalmente, o plantio do morangueiro ocorre entre meados de abril e o fim de maio — período ideal para garantir o bom enraizamento e vigor das plantas. Contudo, as alterações climáticas recentes acenderam o sinal de alerta no campo.
- Minas Gerais é o principal produtor de morango da América Latina, com uma área plantada de mais de 3 mil hectares e uma produção anual de 184,9 mil toneladas. O cultivo é realizado, em sua maioria, por agricultores familiares, somando cerca de 11 mil pequenos produtores no estado. Os municípios que mais se destacam na produção são Espírito Santo do Dourado, Bom Repouso, Senador Amaral, Pouso Alegre e Estiva, todos no Sul de Minas.
- Importação de morango cresce 868% e preocupa produtores de Minas Gerais
A ameaça invisível do pulgão-da-raiz
Com o clima instável, o manejo fitossanitário tornou-se o ponto mais crítico para a sustentabilidade da cultura. A principal preocupação dos agricultores neste ciclo é o pulgão-da-raiz (Rhopalosiphum rufiabdominale). Por atuar de forma subterrânea, a praga é de difícil controle e frequentemente diagnosticada de forma tardia.
O inseto suga a seiva das raízes, injeta toxinas e provoca:
- Amarelamento das folhas;
- Redução drástica do vigor da planta;
- Paralisação do crescimento;
- Morte do morangueiro em casos severos.
Alerta climático: a infestação do pulgão-da-raiz tende a ser ainda mais agressiva em períodos de seca, quando o campo já se encontra sob estresse hídrico. Como a população do inseto é composta majoritariamente por fêmeas, a reprodução é rápida, e tanto os jovens quanto os adultos removem fluidos da planta continuamente.
Além dos danos diretos ao sistema radicular, o gerente de Assuntos Regulatórios do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), Fábio Kagi, lembra que o inseto atua como vetor do vírus conhecido como mosqueado-do-morangueiro, o que pode ampliar drasticamente as perdas financeiras e de produção.
Estratégia integrada é caminho para o controle
O enfrentamento dessa ameaça exige do produtor um planejamento rigoroso. De acordo com o especialista do Sindiveg, a solução não depende de uma única ferramenta, mas sim de um Manejo Integrado de Pragas (MIP).
“O enfrentamento da praga exige uma estratégia integrada, que combine o uso de inimigos naturais com a nutrição equilibrada do solo, evitando o excesso de nitrogênio, que favorece a infestação", explica Fábio Kagi. "O controle químico deve ser criterioso e baseado no monitoramento, com uso de inseticidas durante a frutificação e a colheita, enquanto outros defensivos podem ser aplicados em diferentes momentos do ciclo, desde que respeitadas as recomendações técnicas.”
Pilares para uma safra segura e produtiva:
- Monitoramento constante: Inspeção periódica das raízes e do solo para detecção precoce do inseto.
- Equilíbrio nutricional: Atenção à adubação nitrogenada, pois o excesso de nitrogênio deixa a planta mais vulnerável e "atrativa" para as pragas.
- Uso correto de defensivos: Aplicação de inseticidas biológicos ou químicos respeitando rigorosamente o período de carência e as fases do ciclo do morangueiro (frutificação e colheita).
"O crescimento da produtividade precisa vir acompanhado de um controle fitossanitário eficiente. O monitoramento constante e o uso integrado de ferramentas de defesa vegetal são fundamentais para evitar perdas e garantir a qualidade da produção brasileira", conclui Kagi.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



