Crédito rural em alerta: alongar dívidas é estratégia para a safra 2026, diz especialista

Com inadimplência recordes de 11,4% nas taxas de mercado, produtores buscam renegociação para proteger o ciclo produtivo

Movimento é impulsionado por um cenário de crédito mais seletivo

O ano de 2026 começa com um alerta ligado para o agronegócio brasileiro. O que antes era visto como um recurso de última instância, o alongamento e a renegociação de dívidas rurais entraram definitivamente na pauta estratégica de produtores e empresas do setor, segundo especialistas.

O movimento é impulsionado por um cenário de crédito mais seletivo, custos elevados e um dado preocupante: a inadimplência no crédito rural a taxas de mercado atingiu 11,4% no final de 2025, o maior nível desde 2011, segundo a CNA.

Para o advogado empresarial e especialista em renegociação rural, Arthur Rodrigues, o momento exige uma mudança de mentalidade. “O alongamento deixa de ser tabu e passa a ser instrumento de gestão de risco. Trata-se de uma travessia conjuntural para preservar o caixa e manter o ciclo girando diante de frustrações de safra ou gargalos logísticos”, afirmou.

Novo cenário do financiamento

O mercado de crédito para o agro tornou-se mais complexo. Se por um lado o estoque de títulos privados (como CPR, CRA e FIAGROS) atingiu a marca de R$ 1,4 trilhão, por outro, essa sofisticação exige maior atenção aos desenhos contratuais e garantias.

No campo institucional, o tema ganhou relevância em Brasília com o avanço do PL 8676/2017, que visa simplificar a renegociação do crédito rural, sinalizando que a dificuldade de pagamento deixou de ser um problema pontual para se tornar uma questão estrutural da atividade.

Direito, não “favor”

Um dos pontos centrais destacados por especialistas é que a prorrogação da dívida é um mecanismo previsto na Lei 4.829/1965 e no Manual de Crédito Rural (MCR). O produtor tem o direito de reorganizar seus prazos quando comprovada a incapacidade temporária de pagamento por fatores alheios à sua vontade, como eventos climáticos adversos.

“Um erro comum é achar que renegociar é apenas aceitar a proposta que chega do banco”, alertou Rodrigues. “Renegociação genérica pode mudar o enquadramento do contrato e tornar a dívida muito mais cara. É preciso entender os direitos antes de assinar qualquer aditivo.”

O perigo do “desespero contratual”

A pressa em resolver pendências bancárias sem o devido suporte técnico pode ser fatal para a saúde financeira da fazenda. Rodrigues explica que muitos produtores buscam o banco sem documentação sólida, o que enfraquece a margem de negociação e pode elevar o custo efetivo total da operação.

Guia Prático: 7 passos para uma renegociação segura

Para evitar decisões precipitadas, Rodrigues preparou um checklist antes de procurar a instituição financeira:

  1. Mapeie a operação: Identifique vencimentos, garantias e aditivos vigentes.
  2. Documente o fato gerador: Reúna laudos técnicos, evidências climáticas e registros de perda de produtividade.
  3. Meça o impacto no caixa: Calcule quanto a quebra afetou a receita real.
  4. Justificativa objetiva: Prepare um documento de uma página focada em fatos, causas e pedidos.
  5. Protocolo formal: Registre o requerimento oficialmente e guarde os comprovantes.
  6. Analise os aditivos: Evite assinaturas genéricas; entenda o novo Custo Efetivo Total (CET).
  7. Clareza no cronograma: Exija transparência sobre encargos e prazos finais antes do aceite.

Perspectivas para o ciclo 2026

A tendência é que a gestão financeira do agro seja cada vez mais multidisciplinar. “O produtor que se antecipa com prova técnica e estratégia reduz ruídos e evita o improviso. Alongamento bem feito garante a capacidade de investimento no próximo ciclo e sustenta a continuidade da produção”, concluiu Rodrigues.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde

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