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Chuvas atípicas na colheita desafiam cafeicultores em MG e acendem alerta para a qualidade dos grãos

Dados da Epamig mostram que volume de precipitação entre maio e julho em Três Pontas foi mais que o triplo do ano anterior; umidade no campo atrasa trabalhos, favorece pragas e exige cuidados reforçados na pós-colheita

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Lavoura de café no Vale do Jequitinhonha • Giullia Gurgel/ Itatiaia

As chuvas intensas e fora de época que atingiram as principais regiões produtoras de café durante a safra deste ano trouxeram severos desafios operacionais aos cafeicultores mineiros, afetando a fisiologia das plantas, o cronograma de colheita e a qualidade final dos grãos.

De acordo com dados da estação meteorológica mantida pela Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig) em Três Pontas (MG), o cenário observado no inverno deste ano foi atípico. Entre maio e julho, o volume acumulado de chuvas atingiu 141 mm no município, um salto expressivo em relação ao registrado no mesmo período dos anos anteriores, que somaram 11 mm em 2022, 35 mm em 2023, 12 mm em 2024 e 47 mm em 2025.

Segundo a pesquisadora da Epamig Vanessa Figueiredo, a precipitação volumosa em plena fase de desenvolvimento e colheita desregulou o ciclo produtivo. “A ocorrência dessas chuvas trouxe diferentes consequências para as lavouras, como alterações na fisiologia do cafeeiro, incluindo floradas fora de época, além de interferir diretamente nas operações de colheita e pós-colheita”, explicou.

 

Solo encharcado, broca-do-café e perda de qualidade

Além de provocar a queda precoce dos frutos no chão, o excesso de umidade acumulada no solo impediu a entrada frequente de máquinas e trabalhadores nas lavouras. O consequente atraso na apanha dos grãos, tanto os que permaneceram nas plantas quanto os caídos ao solo, abriu margem para o surgimento de microrganismos deterioradores.

Outro agravante no campo foi o aumento na incidência da broca-do-café, uma das principais pragas da cafeicultura, que encontrou nas condições úmidas o ambiente ideal para sobreviver e se multiplicar.

Risco sanitário e atenção às micotoxinas

A deterioração dos grãos devido à umidade excessiva acende o sinal de alerta para a segurança do produto. Grãos colhidos tardiamente ou do chão correm maior risco de desenvolver fungos produtores de micotoxinas, com destaque para a ocratoxina A (OTA).

A pesquisadora aposentada da Epamig Sara Maria Chalfoun esclarece que a contaminação está associada a grãos defeituosos. “Grãos com alguns defeitos, especialmente os pretos e ardidos, podem apresentar maior ocorrência desses fungos e maior risco de contaminação pela toxina. Por isso, cafés com elevada porcentagem de catação merecem atenção, conforme os tipos de defeitos presentes nessa fração”, alertou.

Chalfoun reforçou que os cuidados preventivos precisam abranger desde o controle fitossanitário no campo até o beneficiamento, a classificação, o armazenamento e o transporte do café.

Diagnóstico exige análise técnica

Apesar dos riscos elevados nesta safra, as especialistas da Epamig ressaltam que não se deve associar automaticamente um café de menor qualidade à presença de toxinas. A confirmação da presença da ocratoxina A depende exclusivamente de exames laboratoriais específicos.

Diante do cenário adverso, a recomendação da instituição é a adoção rigorosa dos Programas de Boas Práticas ao longo de toda a cadeia de suprimentos. “A prevenção deve ser entendida como uma responsabilidade compartilhada ao longo de toda a cadeia produtiva. Os cuidados iniciados pelo cafeicultor no campo precisam ter continuidade nas etapas seguintes, para que o produto chegue ao consumidor com suas características de qualidade sensorial e segurança preservadas”, concluem as pesquisadoras.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.

 

 

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