Cachaça de alambique vira atração turística e movimenta a 35ª Expocachaça em BH
Com foco em terroir, envelhecimento e visitação guiada, produtores transformam o destilado artesanal em experiência de mercado e atração da feira

O universo da cachaça de alambique passou por uma transformação cultural e econômica no Brasil. Cada vez mais associado ao turismo de experiência, o destilado nacional passa a adotar a mesma elegância narrativa que consolidou o enoturismo globalmente. O foco do consumidor já não está apenas no consumo final, mas no percurso: a singularidade do terroir, a riqueza das madeiras nativas brasileiras, o tempo de maturação e os segredos da destilação artesanal.
Esse novo comportamento transforma propriedades rurais em polos de atração turística. Alambiques históricos, caves de envelhecimento e fazendas abrem suas portas para um público que busca por conhecimento. O visitante deseja entender a complexidade por trás da bebida, desde a moagem da cana e a fermentação do mosto até a separação precisa do "coração" na destilação em alambiques de cobre.
É dentro dessa atmosfera de valorização da identidade e da gastronomia brasileira que a 35ª Expocachaça se consolida como o grande ponto de encontro do setor. Realizado de 6 a 8 de agosto de 2026, no CenterMinas Expo, em Belo Horizonte, o evento projeta números expressivos:
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250 expositores vindos de 18 estados;
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2.000 marcas entre rótulos, insumos e tecnologias;
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25 mil visitantes esperados ao longo dos três dias;
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R$ 30 milhões em negócios movimentados direta e indiretamente.
Para além de uma feira comercial, o evento atua como uma vitrine viva da diversidade do país. Em um único espaço, o visitante consegue vivenciar a riqueza sensorial de regiões produtoras de Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Bahia, Goiás, Rio Grande do Sul e outros estados. É a oportunidade ideal para comparar estilos, descobrir rótulos premiados internacionalmente e conversar diretamente com as famílias que perpetuam essa tradição do campo ao copo.
No primeiro dia da feira, a Itatiaia conversou com produtores e empresários do setor para entender essa revolução de perto.
Cuidado artesanal e liderança feminina
A tradição familiar combinada ao controle rigoroso de qualidade é o motor da produção liderada por Leila Sarmento e sua irmã, Daniele, na capital nacional da cachaça: Salinas.

"Meu pai começou a produzir cachaça em 1989 e permaneceu até 10 anos atrás. A partir daí, as duas filhas dele assumiram. Eu fico na produção e a outra filha mais nova fica no comercial e no marketing. No período da feira da cachaça em Salinas, na semana, a gente recebe vários turistas que têm a curiosidade de ver como funciona a produção", detalhou Leila, uma das proprietárias das cachaças Valiosa e Salineira.
Com um volume restrito focado no nicho super premium, a produtora destaca a conexão direta com o visitante: "Nossa produção é bastante limitada, é pequena: são só 15.000 litros por ano, porque o nosso nicho é realmente cachaça de alambique com qualidade e com uma produção menor. A cachaça Salineira foi criada pelo nosso pai desde 1989. Com o passar do tempo, foi criada a Valiosa para as duas filhas. Nosso foco é fazer uma cachaça totalmente artesanal. Quando as pessoas visitam e veem a produção, o cuidado e uma cachaça feita por mulher, que sou eu, elas realmente fazem com que aquela seja a cachaça preferida delas".
Inovação, premiação de elite e envelhecimento complexo
À frente da Meia Lua Destilaria desde 2019, o empresário Jovino Ferrari Jr. tem apostado em processos de maturação, unindo a tradição de Salinas a técnicas internacionais do mercado de destilados.

"A cachaça Meia Lua é super tradicional de Salinas, sendo produzida lá desde 1988. As linhas tradicionais usam bálsamo, amburana, carvalho e jequitibá. Temos também uma linha extra premium chamada Unna, envelhecida em barris novos. É um blend de cinco madeiras: carvalho americano, carvalho francês, amburana, eucalipto e canela-sassafrás. Usamos barris novos uma única vez, os mesmos utilizados pela Jack Daniel's e Jim Beam", explicou Jovino.
A destilaria, produzida na Fazenda Matrona, que também é aberta à visitação, acumula prêmios importantes e amplia a linha com licores e harmonizações: "A Unna foi eleita pela Cúpula da Cachaça em 2022 a 10ª melhor cachaça do Brasil. Quando completamos 5 anos, pegamos essa bebida e colocamos num barril importado de vinho do Porto por mais 2 anos. Assim nasceu a Unna Porto, com 6 anos de envelhecimento, que foi eleita este ano pela Cúpula da Cachaça como a melhor cachaça do Brasil na categoria blend. Além disso, lançamos no ano passado o licor de doce de leite com 40% de concentração e, este ano na feira, estamos lançando o doce de leite com maracujá, unindo a doçura do doce com o azedinho do cítrico".
Rota estratégica, controle total da cadeia e baixo teor alcoólico
Com 35 anos de história, a Cachaça Sabinosa aposta na proximidade geográfica com as rodovias para captar viajantes e no alinhamento com novas tendências de consumo de bebidas mais leves.

"Nossa empresa começou na década de 80 com meu pai. O nosso diferencial é que temos toda a cadeia produtiva: desde o plantio da cana, preparo do solo, extração do caldo, fermentação, destilação até a comercialização. A fábrica fica a 2 km do centro de Salinas e a apenas 500 metros da BR-251, um ponto estratégico para quem está passando de viagem e quer conhecer a produção", ressaltou Flaviano Cruz, proprietário da Sabinosa, em Salinas.
Atento ao comportamento dos novos consumidores, o produtor apresenta novidades na feira: "Entramos em um novo mercado com a bebida alcoólica mista, que tem teor alcoólico mais baixo, de apenas 22%. Temos nos sabores de tamarindo, umbu e estamos lançando o cajá. Tenho a visão de que o público vem diminuindo o consumo de graduação alcoólica alta. É uma bebida mais macia, adocicada e com sabor de fruta que lembra o cheiro da infância, de quando a gente subia no pé para catar fruta."

Tradição familiar no coração de Minas
Representando o Centro-Oeste mineiro, a Cachaça Sapézinha mantém as raízes de sua fundação enquanto atrai turistas pela proximidade com a capital. "A cachaça é produzida desde 1989, há 37 anos. Foi fundada por quatro irmãos que até hoje trabalham e produzem a bebida, desde o corte da cana até o engarrafamento", contou Patrícia da Silva.

Com estrutura voltada para o receptivo, o alambique convida o público a acompanhar de perto o processo: "Hoje nosso carro-chefe é a Sapézinha 12 anos de armazenamento em carvalho e jequitibá. A fazenda é aberta à visitação, onde mostramos toda a produção e o armazenamento. Ficamos em Cláudio, bem pertinho de Belo Horizonte."

Reestruturação e foco nas madeiras nacionais
Com 25 anos no mercado, o grupo Sabor de Minas se prepara para expandir seu atendimento turístico e consolidar suas linhas no mercado nacional.
"A cachaça Sabor de Minas já está em atividade há 25 anos. É um produto original de Salinas envelhecido em dois tipos de madeira: bálsamo e umburana. É um produto super suave, saboroso e de valor comercial bem interessante. A empresa está se reestruturando, fazendo melhorias na parte industrial da fábrica e, a partir deste ano, estaremos de portas abertas para receber todos os visitantes", afirmou Paulo de Faria Júnior, representante da marca em BH.

O representante detalhou a diferença de perfis sensoriais das marcas do grupo para atender a diversos paladares: "A cachaça de bálsamo atende quem aprecia uma bebida mais suave, com 42º alcoólicos. Já a de umburana traz um gosto um pouco mais marcante. Também temos a Cachaça Baluarte, do mesmo grupo, que oferece um sabor bem leve e agradável com 40º alcoólicos. Estamos de portas abertas em Salinas para receber toda a turma."

Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



































