Vacinação contra HPV avança, mas América Latina ainda tem mortes evitáveis
Região amplia vacinação contra HPV, mas falhas no rastreamento ainda elevam mortes por câncer de colo do útero

A vacinação contra o HPV avança na América Latina, mas a região ainda registra mortes por câncer de colo do útero, doença considerada altamente prevenível. O alerta consta de estudo publicado na revista The Lancet, que analisou dados de 35 países e territórios da América Latina e do Caribe.
O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum no mundo e está diretamente associado ao câncer de colo do útero. Apesar da disponibilidade de vacinas, a cobertura vacinal ainda é desigual: varia de 45% a 97% na América Latina e de 2% a 82% no Caribe, abaixo da meta da Organização Mundial da Saúde, que prevê 90% das meninas vacinadas até os 15 anos.
No Brasil, a cobertura em 2024 atingiu 82,83% entre meninas e 67,26% entre meninos de 9 a 14 anos. Em 2025, o Ministério da Saúde ampliou a vacinação, adotando dose única e incluindo jovens de 15 a 19 anos não imunizados.
Apesar dos avanços, especialistas apontam falhas no rastreamento como um dos principais entraves. Na maioria dos países da região, ainda predomina o modelo oportunístico, em que o exame é realizado apenas quando a mulher procura atendimento de saúde. “A gente sabe que esse modelo de rastreamento oportunístico é muito menos eficiente do que um rastreamento organizado, que tem todos os critérios a serem seguidos e é um rastreamento de base populacional”, explicou a consultora médica da Fundação do Câncer, Flavia Miranda Corrêa.
Segundo a especialista, esse formato contribui para diagnósticos tardios e maior mortalidade. Já o modelo organizado prevê identificação da população-alvo, convocação ativa e acompanhamento dos casos. “Não adianta rastrear sem garantir diagnóstico e tratamento”, destacou.
Na América Latina, apenas a Venezuela ainda não incorporou a vacina contra o HPV. No Brasil, o imunizante é oferecido gratuitamente desde 2014. Outra frente de avanço é a substituição gradual do exame Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV, já adotado em países como Argentina, Chile e México. No Brasil, a implementação ocorre de forma progressiva, com encaminhamento das pacientes entre os diferentes níveis de atenção à saúde.
Flavia Corrêa alerta, no entanto, para a necessidade de integração entre os sistemas de atendimento. “Se a gente não tiver a interoperabilidade desses sistemas, a gente pode perder a navegação da mulher e ela não concluir o tratamento, o que é o maior problema no Brasil”. O câncer de colo do útero pode levar de 10 a 20 anos para se desenvolver a partir de lesões iniciais, o que amplia as chances de diagnóstico precoce. Entre os sintomas estão sangramentos fora do período menstrual, após relações sexuais e corrimento persistente.
De acordo com o diretor executivo da Fundação do Câncer, Luiz Augusto Maltoni, a adoção de programas organizados de rastreamento foi determinante para a redução da doença em países como Austrália, Canadá e Dinamarca. O estudo da The Lancet aponta que a combinação entre vacinação, rastreamento e tratamento é essencial para alcançar a meta global de eliminação da doença nas próximas décadas.
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