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Vírus sabiá circula no Brasil há mais de 140 anos e sofreu mutações, aponta estudo

Segundo os cientistas, os novos dados sugerem que o vírus pode ter causado outras infecções ao longo das últimas décadas

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Estrutura da proteína GP1 do vírus sabiá • Ingra M. Claro/FM-USP

Pesquisadores brasileiros identificaram que o vírus sabiá (SABV), responsável por uma síndrome hemorrágica e neurológica rara e altamente letal, circula no Brasil há cerca de 142 anos e vem sofrendo modificações genéticas ao longo do tempo. As mudanças fizeram com que os testes antigos deixassem de detectar o vírus em casos recentes.

O estudo foi conduzido por cientistas ligados ao Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), com apoio da FAPESP, e publicado na revista científica PLOS Neglected Tropical Diseases.

Casos recentes foram identificados após nova análise

A pesquisa analisou dois casos fatais registrados no interior de São Paulo, em 2019 e 2020. Os pacientes apresentaram síndrome hemorrágica e neurológica aguda, mas inicialmente tiveram resultados negativos para febre amarela e para o próprio vírus sabiá.

Os pesquisadores descobriram que o vírus havia sofrido mutações justamente nas regiões utilizadas pelos testes diagnósticos antigos, desenvolvidos a partir de uma cepa identificada em 1990.

“Como se passaram mais de 30 anos, era provável que o vírus tivesse se modificado”, explicou a pesquisadora Ingra Morales Claro, autora do estudo.

Diante disso, o grupo desenvolveu novos primers — fragmentos de DNA usados para detectar o vírus em laboratório — capazes de identificar as cepas atualmente em circulação. O novo método já foi encaminhado ao Instituto Adolfo Lutz, referência em diagnósticos no estado de São Paulo.

Vírus pode ter provocado outros casos no passado

Segundo os cientistas, os novos dados sugerem que o vírus pode ter causado outras infecções ao longo das últimas décadas sem ter sido identificado corretamente.

As análises genéticas mostraram que os genomas recentes apresentam cerca de 89% de similaridade com cepas descritas anteriormente, indicando evolução contínua do patógeno.

Os pesquisadores também identificaram alterações na proteína usada pelo vírus para se ligar às células humanas.

“É importante conhecer o vírus e desenvolver métodos de detecção para nos anteciparmos a futuros surtos”, alertou a pesquisadora Ester Sabino, coordenadora do CADDE no Brasil.

Casos ocorreram no interior paulista

Um dos casos analisados envolveu um homem de 52 anos, morador de Sorocaba, que tinha histórico de caminhadas em áreas de mata. Ele procurou atendimento médico em dezembro de 2019 com suspeita inicial de febre amarela e morreu em janeiro de 2020.

Após a identificação do vírus nesse paciente, os pesquisadores revisaram amostras de outros casos semelhantes e encontraram uma segunda infecção fatal em um trabalhador rural de 63 anos, da cidade de Assis, também no interior paulista.

Reservatório ainda é desconhecido

Os cientistas ainda não sabem qual animal atua como reservatório natural do vírus sabiá, embora a principal hipótese seja a de roedores silvestres. As infecções identificadas ocorreram em áreas rurais, sugerindo possível contato entre humanos e animais infectados.

O SABV é considerado um dos vírus brasileiros com maior risco de transmissão por aerossóis em laboratório, exigindo nível máximo de biossegurança para manipulação. Atualmente, não existe na América do Sul um laboratório com essa capacidade.

A previsão é que o laboratório Orion, em construção no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, comece a operar até 2030 com estrutura adequada para armazenar e estudar o vírus ativo.

 

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