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Obesidade geográfica: estudo global aponta avanço desigual da doença no mundo

Pesquisa publicada na revista Nature analisou dados de 197 países e identificou desaceleração da obesidade em nações ricas e avanço acelerado em países em desenvolvimento

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Imagem ilustrativa. • Reprodução | Pexels

Um estudo internacional publicado na revista científica Nature revelou que a obesidade tem avançado de maneiras diferentes ao redor do mundo e colocou em debate o uso do termo “epidemia global” para definir o fenômeno. A pesquisa, divulgada pelo Jornal da USP, analisou dados de 197 países entre 1980 e 2024 e concluiu que as tendências variam conforme fatores econômicos, sociais, culturais e tecnológicos.

O levantamento reuniu informações de mais de 232 milhões de pessoas a partir de 4.050 estudos populacionais. Os pesquisadores observaram que, enquanto países ricos apresentaram desaceleração ou estabilização nos índices de obesidade nas últimas décadas, nações de baixa e média renda continuam registrando crescimento acelerado dos casos. O trabalho foi conduzido pela rede científica internacional NCD Risk Factor Collaboration (NCD-RisC), formada por cerca de dois mil pesquisadores. Entre os autores estão o professor Majid Ezzati, do Imperial College London, e os pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP Paulo Andrade Lotufo e Alicia Matijasevich.

Segundo Ezzati, chamar o fenômeno de “epidemia global” pode simplificar excessivamente uma realidade muito mais complexa. Em entrevista ao Jornal da USP, o pesquisador afirmou que a evolução da obesidade não ocorre da mesma forma em todos os países e que análises mais detalhadas mostram trajetórias bastante distintas entre regiões, gêneros e faixas etárias. Já o professor Paulo Lotufo explicou ao Jornal da USP que o termo “epidemia” costuma remeter a doenças que atingem populações de maneira uniforme, como ocorreu durante a pandemia de covid-19. Para ele, o crescimento da obesidade possui fortes marcadores sociais e regionais, o que exige análises menos generalistas.

A pesquisa identificou que países da Europa Ocidental conseguiram estabilizar os índices de obesidade em adultos e crianças após décadas de crescimento. Em algumas nações, como França e Dinamarca, determinados grupos chegaram a apresentar desaceleração significativa ou até queda nos índices. Já em países em desenvolvimento da América Latina, África e Ásia, os números continuam avançando rapidamente. No caso brasileiro, os pesquisadores apontaram aceleração contínua da obesidade, principalmente entre homens adultos. O estudo mostra que o aumento anual da prevalência da condição no Brasil permaneceu elevado ao longo dos últimos 45 anos analisados.

A pesquisadora Alicia Matijasevich destacou ao Jornal da USP que muitos países em desenvolvimento concentraram esforços históricos no combate à desnutrição, mas não criaram políticas suficientes para conter o avanço de alimentos ultraprocessados e bebidas açucaradas. Segundo ela, a ausência de medidas regulatórias e de incentivo à alimentação saudável contribuiu para o crescimento acelerado da obesidade nessas regiões.

Os cientistas também afirmam que fatores como urbanização, mecanização do trabalho, redução da atividade física, mudanças culturais e aumento do consumo de telas ajudam a explicar as diferenças observadas entre os países. Além disso, o estudo ressalta que medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic e Wegovy, ainda tiveram impacto pequeno nas tendências globais atuais devido ao uso recente e à baixa cobertura mundial.

Para os autores, os resultados mostram que a obesidade não segue uma trajetória única no planeta e que estratégias de enfrentamento precisam considerar as realidades específicas de cada país. A conclusão da pesquisa é que políticas públicas direcionadas, acesso a alimentos saudáveis e incentivo à atividade física podem influenciar diretamente na desaceleração do problema.

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Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.