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Especialista da Fiocruz esclarece dúvidas sobre hantavírus após surto em navio de cruzeiro

Infectologista afirma que risco global é considerado baixo, mas alerta para gravidade da doença e importância do diagnóstico rápido

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Vista geral do navio de cruzeiro MV Hondius atracado ao largo do porto de Praia, capital de Cabo Verde, em 3 de maio de 2026
Surto foi identificado no navio de cruzeiro MV Hondius • AFP

O surto de hantavírus registrado a bordo do navio de cruzeiro MV Hondius acendeu um alerta internacional sobre uma doença ainda pouco conhecida pelo grande público. Em entrevista divulgada pela Fundação Oswaldo Cruz, a infectologista Elba Lemos explicou os riscos da doença, as formas de transmissão e os cuidados necessários diante do episódio que já provocou mortes e casos suspeitos entre passageiros. 

Segundo a Fiocruz, o surto ocorreu no cruzeiro que saiu da Argentina com destino a Cabo Verde no início de abril. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informou que ao menos oito passageiros apresentaram sintomas suspeitos de hantavirose, incluindo três mortes relacionadas ao caso. 

À Fiocruz, Elba Lemos afirmou que o risco para a saúde pública mundial é considerado baixo, apesar da gravidade da situação. A especialista destacou que o hantavírus não é um agente novo e normalmente não provoca grandes epidemias. “A transmissão de uma pessoa para outra é rara”, explicou a médica na entrevista publicada pela instituição. 

De acordo com a pesquisadora, o ambiente fechado do navio pode ter favorecido a disseminação do vírus entre os passageiros. A infectologista ressaltou que apenas a variante conhecida como vírus Andes, identificada na Argentina e no Chile, possui capacidade comprovada de transmissão entre humanos. 

A Fiocruz informou que o hantavírus costuma ser transmitido principalmente pelo contato com fezes, urina ou saliva de roedores silvestres infectados. A contaminação ocorre, na maioria das vezes, pela inalação de partículas presentes no ambiente. Mordidas de roedores também podem transmitir o vírus, embora sejam consideradas menos frequentes. 

Durante a entrevista, Elba Lemos explicou que o período de incubação pode variar entre três e 60 dias, o que exige monitoramento prolongado de passageiros e trabalhadores expostos ao surto. A especialista afirmou à Fiocruz que pessoas possivelmente contaminadas devem permanecer em observação e procurar atendimento médico imediatamente caso apresentem sintomas. 

Entre os sinais iniciais da hantavirose estão febre alta, dores no corpo, mal-estar, tosse seca, náuseas, vômitos e diarreia. Em quadros mais graves, a doença pode evoluir rapidamente para pneumonia, insuficiência respiratória e choque circulatório. Segundo a infectologista da Fiocruz, o risco de morte é elevado quando não há tratamento intensivo adequado. 

A pesquisadora alertou ainda que os sintomas podem ser confundidos com outras doenças virais, especialmente dengue, o que pode dificultar o diagnóstico. Por isso, médicos devem investigar se o paciente teve contato recente com áreas rurais, galpões, depósitos de grãos, regiões de desmatamento ou ambientes com presença de roedores silvestres. 

A Fiocruz também destacou que o Brasil possui circulação de nove genótipos diferentes de hantavírus, mas nenhum deles apresentou transmissão confirmada entre pessoas até o momento. Os casos brasileiros se concentram principalmente nas regiões Sul e Sudeste, além de estados como Mato Grosso, Amazonas, Pará e Maranhão. 

Outro ponto abordado pela especialista foi o desenvolvimento de um teste rápido para detecção da doença. A tecnologia foi criada pelo Instituto Oswaldo Cruz em parceria com Bio-Manguinhos e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo Elba Lemos, o exame consegue identificar a infecção em até 20 minutos com apenas uma gota de sangue. 

A infectologista afirmou à Fiocruz que medidas preventivas devem focar na redução do contato com roedores e seus resíduos. Entre as recomendações estão manter depósitos fechados, evitar restos de alimentos expostos, ventilar ambientes fechados antes da limpeza e utilizar água sanitária para reduzir a circulação de partículas contaminadas.

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Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.