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Taxa de mamografias na rede privada é mais que o dobro da registrada no SUS

Estudo da USP também revela disparidade em biópsias do colo do útero

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Taxa de mamografias na rede privada é mais que o dobro da registrada no SUS • José Cruz/Agência Brasil

Um estudo conduzido pelo Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) revela que há desigualdade entre as quantidades de exames de mamografia e biópsia do colo do útero realizadas nos sistemas público e privado. O estudo relaciona os resultados com a oferta de médicos especialistas em ginecologia e obstetrícia. 

Em 2024, foram realizadas no Brasil 4,7 milhões de mamografias em mulheres de 50 a 69 anos, o que corresponde a uma taxa de 21,4 mil exames por 100 mil mulheres nesse grupo. No Sistema Único de Saúde (SUS), foram realizados 16,7 mil exames por 100 mil mulheres, entre beneficiárias de planos de saúde a taxa chegou a 36,4 mil — mais que o dobro.

Já em relação às biópsias do colo do útero, naquele mesmo ano, foram registradas 176,9 mil biópsias no país, somando SUS e saúde suplementar. Isso corresponde a uma taxa nacional de 254,4 exames por 100 mil mulheres de 20 a 69 anos. No sistema público, a taxa foi de 122,8 por 100 mil mulheres, enquanto entre as beneficiárias de planos de saúde chegaram a 625,7, cerca de cinco vezes mais.

Os dados foram publicados no artigo "Inequalities in mammograms and cervical biopsies provision in the public and private sectors of the Brazilian healthcare system and the availability of gynecology and obstetrics specialists" (Desigualdades na oferta de mamografias e biópsias de colo do útero nos setores público e privado do sistema de saúde brasileiro e na disponibilidade de especialistas em ginecologia e obstetrícia) na revista científica Clinics, publicação oficial da FMUSP e do Hospital das Clínicas (HC).

Desigualdade nas regiões

O levantamento revela também que o país tem cerca de 35,5 mil ginecologistas e obstetras. No entanto, esses profissionais estão distribuídos de forma desigual: quase metade (46,1%) atua em apenas 16 grandes cidades. 

O estudo também destaca a desigualdade por regiões. Enquanto na Região Sudeste do Brasil foram registradas 25,5 mil mamografias por 100 mil mulheres de 50 a 69 anos, no Norte foram 10,1 mil. A situação é semelhante em relação às biópsias do colo do útero. Regionalmente, o Sudeste brasileiro registrou 333,8 exames por 100 mil mulheres, enquanto o Norte apresentou 97,1.

“O que observamos é uma dupla desigualdade: ela é territorial, entre regiões do País, e também estrutural, entre o sistema público e o privado. Essas diferenças se somam e impactam diretamente o acesso das mulheres ao diagnóstico de câncer”, afirma o coordenador do estudo, professor Mário Scheffer. Enquanto a média nacional é de 37 especialistas por 100 mil mulheres, regiões como Norte e Nordeste apresentam índices muito inferiores, com cerca de 20 e 25 profissionais, respectivamente.

Apesar da tendência de o número de ginecologistas e obstetras apresentar maior volume de mamografias e biópsias, os autores do estudo indicam que o acesso não depende apenas da presença de médicos, mas também de fatores como disponibilidade de equipamentos, infraestrutura e organização dos fluxos de encaminhamento entre os serviços de saúde. 

O estudo também indica que diretrizes específicas do país podem influenciar o volume de exames realizados em setores públicos e privados. 

 

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Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.