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Suplemento de ervas vendido no TikTok é proibido no Brasil, diz Anvisa

No alerta, a agência detalhou o caso de Lois Kinder, de 44 anos, moradora de Warrington, em Cheshire, na Inglaterra, que teria consumido o suplemento antes de ser diagnosticada com a grave condição de saúde

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Sede da Anvisa em Brasília
Sede da Anvisa em Brasília • Divulgação/Anvisa

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reforçou, nesta quarta-feira (21), a proibição de suplementos alimentares de ashwagandha no Brasil. A decisão da agência, publicada em nota, cita o caso de uma britânica de 44 anos que desenvolveu falência hepática após consumir a erva asiática, popularizada no TikTok e vendida como promessa de relaxamento e alívio de sintomas da perimenopausa. A Anvisa já havia tomado medidas similares, como ao proibir a venda de suplementos de empresa clandestina de Minas Gerais.

No alerta, a agência detalhou o caso de Lois Kinder, de 44 anos, moradora de Warrington, em Cheshire, na Inglaterra, que teria consumido o suplemento antes de ser diagnosticada com a grave condição de saúde.

A erva tem sido amplamente indicada nas redes sociais e é comercializada, principalmente, no TikTok, com preços que variam entre R$ 20 e R$ 30. Na nota oficial, a Anvisa inclusive se refere ao produto como o "suplemento do TikTok", destacando sua popularidade na plataforma.

De acordo com a Anvisa, qualquer suplemento desse tipo não possui registro no Brasil, o que torna sua fabricação, comercialização, distribuição e uso terminantemente proibidos. A fiscalização da agência é rigorosa, e ela já atuou de forma decisiva, como ao proibir venda e uso de produtos à base de fenol após um caso fatal.

Os suplementos alimentares, quando devidamente regulamentados e com orientação profissional, podem ser uma alternativa para complementar a alimentação, sendo úteis para indivíduos que necessitam melhorar o consumo de nutrientes específicos ou que praticam atividades físicas intensas, como em casos em que se busca auxiliar em condições como a baixa libido.

A Anvisa ressalta, no entanto, que é terminantemente proibido relacionar esses produtos a alegações de cura, tratamento e prevenção de doenças. A decisão sobre a necessidade e o uso de qualquer suplemento deve ser tomada exclusivamente por profissionais de saúde qualificados, que irão definir o tipo, a quantidade, o momento e a forma de consumo.

Segundo o relato da família, os problemas de saúde de Lois tiveram início em 13 de julho deste ano, quando ela foi levada às pressas a um hospital em Warrington, em Cheshire, na Inglaterra. Os médicos diagnosticaram insuficiência hepática aguda. Lois foi então colocada em coma induzido e inserida na lista de transplantes de fígado superurgentes. Em 22 de julho, um doador foi encontrado, mas a britânica sofreu três paradas cardíacas durante o procedimento cirúrgico.

Apesar de ter sobrevivido, Lois permaneceu em coma pelas semanas seguintes. A família iniciou uma campanha de arrecadação de fundos no Go Fund Me, onde Ollie Kinder, marido da britânica, compartilhou um relato emocionante sobre a situação.

"Os dias que se seguiram foram repletos de medo, incerteza e dor no coração. Ver a pessoa que você ama lutar pela própria vida é algo para o qual nenhuma família jamais pode se preparar. A ideia de perder minha esposa, e de nossos filhos, Imogen e Jacob, perderem a mãe com apenas 44 anos de idade, era insuportável", declarou Ollie.

Seis semanas após o ocorrido, Lois começou a despertar e a realizar pequenos movimentos. Contudo, as complicações que sofreu resultaram em danos cerebrais significativos. Conforme o relato familiar, a extensão da recuperação da mulher ainda é incerta. A equipe médica responsável pelo caso informou aos familiares que a situação é "tão rara e clinicamente complexa que eles pretendem publicá-lo como um estudo de caso".

Para explicar as complicações neurológicas, o neurocirurgião Orlando Maia, membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN), detalhou como a falência de um órgão, a exemplo do que ocorreu com Lois, pode culminar em lesões cerebrais graves durante um procedimento cirúrgico.

Maia explicou que a falência hepática leva ao acúmulo de resíduos tóxicos no organismo, que afetam diretamente o sistema nervoso central. Isso pode causar a encefalopatia hepática, caracterizada por alterações comportamentais, agitação e perda de consciência.

A situação de Lois se agravou ainda mais durante o transplante de emergência. A gravidade do quadro circulatório favoreceu a formação de uma embolia pulmonar – o bloqueio da artéria principal do pulmão por um coágulo – que resultou nas três paradas cardíacas consecutivas.

Segundo o neurocirurgião, a combinação da obstrução pulmonar com as paradas cardiorrespiratórias interrompeu o fluxo de sangue oxigenado para o cérebro, provocando hipóxia (baixa oxigenação) e isquemia cerebral. A sequela neurológica, portanto, é o resultado direto do período em que o tecido cerebral permaneceu sem a irrigação adequada.

Embora a falta prolongada de oxigênio possa causar a morte irreversível de células nas áreas afetadas, o médico afirma que o cérebro possui uma capacidade de reorganização a partir das regiões preservadas. Por isso, movimentos voluntários após a saída do coma, como movimentar os dedos ou segurar um copo, são bons sinais. Isso demonstra que ainda existem vias neurológicas abertas conectando o cérebro aos membros.

Contudo, o especialista ressalta que o processo de reabilitação exige fisioterapia diária e acompanhamento contínuo. Ele aponta que pode ser necessário um período de até dois anos de terapia intensa para compreender quais funções o organismo conseguirá reconectar e quais déficits serão definitivos.

A reportagem original da CNN Brasil informou que tentou contato com o TikTok, e o espaço segue aberto para manifestação da plataforma.

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