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Combater o preconceito etário pode ajudar a viver mais?

Pesquisas investigam como a visão negativa sobre o envelhecimento influencia a saúde, o comportamento e a expectativa de vida; especialistas apontam que combater o etarismo também passa por transformar a maneira como a sociedade representa a velhice.

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A maneira como as pessoas percebem o próprio envelhecimento é objeto de pesquisas sobre saúde e longevidade.
A maneira como as pessoas percebem o próprio envelhecimento é objeto de pesquisas sobre saúde e longevidade. • Magnific

Envelhecer faz parte da vida, mas a forma como esse processo é percebido pode fazer diferença na maneira como as pessoas atravessam as diferentes fases da idade adulta. A associação entre velhice, fragilidade, perda de autonomia e incapacidade ainda é comum em muitas sociedades. Esse conjunto de ideias, além de alimentar o preconceito etário, pode influenciar a relação dos indivíduos com a própria saúde e com o futuro.

Uma reportagem publicada pela BBC Future em janeiro de 2026 aborda justamente essa questão e reúne evidências sobre como desafiar estereótipos relacionados à idade pode estar associado a uma vida mais longa e saudável. A discussão tem despertado o interesse de pesquisadores, que investigam os efeitos das percepções sobre o envelhecimento no bem-estar físico e psicológico.

O preconceito etário, também chamado de etarismo, acontece quando uma pessoa é julgada, excluída ou tratada de maneira desigual por causa da idade. Pode aparecer em situações cotidianas, como comentários que associam pessoas mais velhas à falta de disposição ou dificuldade de aprender, mas também em ambientes profissionais, serviços de saúde e relações sociais.

O problema não está apenas na maneira como os outros tratam quem envelhece. Com o passar do tempo, ideias negativas repetidas pela sociedade podem ser incorporadas à percepção que cada indivíduo tem de si mesmo. Assim, a pessoa pode começar a considerar determinadas limitações inevitáveis simplesmente por acreditar que fazem parte da idade.

Como a percepção sobre a idade pode afetar a saúde

A relação entre a visão sobre o envelhecimento e a saúde é investigada por diferentes áreas da ciência, especialmente a psicologia e a gerontologia. Uma revisão sistemática publicada em 2021 na revista Psychology and Aging, por exemplo, analisou 21 estudos longitudinais sobre a percepção que pessoas com 50 anos ou mais tinham do próprio envelhecimento.

Os resultados apontaram uma associação consistente entre percepções mais positivas sobre a idade e melhores desfechos ao longo do tempo. Entre eles estavam melhores avaliações da própria saúde, menor ocorrência de sintomas depressivos, melhor desempenho em atividades cotidianas e maior longevidade. Os pesquisadores também observaram relações com indicadores de saúde física e funcionamento cognitivo

Isso não significa que pensar positivamente seja suficiente para evitar doenças ou garantir uma vida mais longa. A relação é complexa e envolve fatores biológicos, sociais, econômicos e comportamentais. A percepção sobre a idade é uma das dimensões que podem influenciar a experiência de envelhecer, não uma explicação isolada para a saúde de alguém.

Uma das hipóteses estudadas é que as crenças sobre o envelhecimento interferem nas escolhas do dia a dia. Quem acredita que perder capacidades é inevitável pode ter menos disposição para experimentar atividades, aprender habilidades ou manter hábitos que favorecem a saúde. Em contrapartida, uma visão menos limitadora pode contribuir para que a pessoa continue buscando oportunidades de participação e autonomia.

O etarismo vai além das atitudes individuais

O preconceito relacionado à idade não se manifesta apenas em comentários ou comportamentos direcionados a pessoas mais velhas. Ele também pode estar presente em estruturas sociais que restringem oportunidades e reforçam a ideia de que envelhecer significa perder valor ou capacidade.

No mercado de trabalho, por exemplo, profissionais podem enfrentar dificuldades para conseguir uma vaga, participar de processos de promoção ou ter acesso a treinamentos por causa da idade. Na convivência social, a exclusão pode ocorrer quando suas opiniões são desconsideradas ou quando decisões sobre sua vida são tomadas sem consultá-los.

Na saúde, o problema pode aparecer quando sintomas são atribuídos automaticamente à idade, sem investigação adequada, ou quando a capacidade de recuperação e participação do paciente é subestimada.

Uma ampla revisão publicada na revista The Gerontologist reuniu 422 estudos realizados em 45 países, com dados de mais de 7 milhões de participantes. A análise identificou resultados negativos associados ao etarismo em 95,5% dos estudos examinados. As consequências investigadas incluíam diferentes dimensões da saúde, como condições físicas, saúde mental, cognição, qualidade de vida e mortalidade.

Os resultados reforçam que combater o preconceito etário não é apenas uma questão de convivência ou respeito. Trata-se também de criar condições para que pessoas de diferentes idades tenham acesso a oportunidades, cuidados adequados e participação na sociedade.

Envelhecer não significa deixar de aprender e participar

Uma das maneiras de enfrentar estereótipos é ampliar a compreensão sobre o que significa envelhecer. A idade cronológica, por si só, não determina interesses, habilidades, disposição ou projetos de vida. Pessoas da mesma faixa etária podem apresentar condições físicas, experiências e necessidades bastante diferentes.

Por isso, a ideia de que existe um comportamento esperado para cada idade pode limitar escolhas e reforçar exclusões. Aprender uma nova atividade, mudar de carreira, praticar exercícios, viajar, desenvolver habilidades ou iniciar projetos pessoais não são experiências restritas aos mais jovens.

Também é importante reconhecer que uma visão positiva sobre o envelhecimento não significa ignorar as transformações naturais do corpo. Mudanças na mobilidade, na visão, na audição e em outras funções podem acontecer ao longo da vida e merecem atenção. O ponto é não tratar essas mudanças como sinônimo de incapacidade ou como motivo para afastar alguém de atividades e decisões.

Combater o etarismo exige, portanto, mudanças individuais e coletivas. No cotidiano, isso passa por evitar generalizações, respeitar a autonomia das pessoas mais velhas e não presumir que elas sejam incapazes de aprender ou tomar decisões. Nas empresas e instituições, envolve rever práticas discriminatórias e garantir oportunidades independentemente da idade.

A ciência ainda investiga os mecanismos que conectam a percepção sobre o envelhecimento à saúde e à longevidade. As evidências disponíveis, entretanto, indicam que a maneira como a sociedade trata a idade e como cada pessoa percebe o próprio processo de envelhecer merecem atenção. Afinal, viver mais também envolve ter condições de continuar participando, fazendo escolhas e construindo projetos em diferentes etapas da vida.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.

 

 

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