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Beber menos está mudando a forma como as pessoas socializam

Encontros sem álcool ganham espaço na busca por novas conexões

Beber menos é uma realidade entre os jovens
Beber menos está mudando a forma como as pessoas socializam • Ia

Encontrar os amigos para tomar alguma coisa já não significa necessariamente pedir uma bebida alcoólica. Grupos de corrida, cafés, festas diurnas, encontros de caminhada e bares dedicados a opções sem álcool começam a ocupar um espaço antes fortemente associado à bebida.

Por trás dessa mudança está um comportamento que ganhou o nome de sober curious: questionar o próprio consumo sem assumir obrigatoriamente o compromisso de nunca mais beber.

A proposta é diferente da abstinência permanente. Alguém pode decidir reduzir a frequência, experimentar períodos sem álcool ou simplesmente observar em quais situações bebe por escolha e em quais segue um hábito social. Pesquisas acadêmicas descrevem o movimento justamente como uma abordagem mais flexível de moderação e reflexão sobre o consumo.

Essa mudança também expõe uma dificuldade: retirar a bebida pode significar mexer na maneira como parte da vida social foi construída. Happy hours, aniversários, jantares, encontros amorosos e comemorações frequentemente colocam o álcool no centro da experiência. Para quem decide beber menos, a pergunta deixa de ser apenas o que colocar no copo e passa a incluir onde e como encontrar outras pessoas.

Socializar sem álcool cria novos tipos de encontro

Uma das respostas está surgindo longe do balcão dos bares tradicionais. Comunidades organizadas em torno de corrida, exercícios, dança e outras atividades permitem que a experiência compartilhada ocupe o lugar que antes pertencia principalmente à bebida.

O fenômeno aparece inclusive em novos espaços comerciais. Em Brooklyn, Nova York, um bar dedicado a bebidas sem álcool passou a promover grupos de corrida, noites com DJs e encontros sobre saúde mental. A proposta é funcionar como lugar de convivência, e não apenas como endereço para consumir uma alternativa ao drinque convencional.

As chamadas wellness raves seguem direção semelhante. Realizadas geralmente durante o dia, combinam música e dança com ambientes livres de álcool e drogas. Algumas incorporam atividades como yoga, meditação ou exercícios de respiração, transformando elementos associados à vida noturna em uma experiência com outra lógica.

Há uma razão social importante por trás dessa procura. Reduzir o álcool pode provocar receio de perder vínculos ou deixar de participar de determinados grupos. Um estudo qualitativo sobre sober curiosity identificou justamente o medo de rejeição e perda de conexões entre as barreiras relatadas por participantes interessadas em diminuir o consumo.

O desafio não termina quando o copo muda

Escolher uma bebida sem álcool em uma festa parece uma alteração pequena. Para algumas pessoas, porém, ela exige aprender a enfrentar situações sociais sem recorrer automaticamente à bebida.

A American Psychological Association destaca que pessoas interessadas em reduzir o consumo podem encontrar dificuldades em situações como festas, casamentos e happy hours. Uma das questões é justamente a falta de experiência em socializar como adulto sem que o álcool faça parte da interação.

Por isso, a transformação não depende apenas do crescimento dos chamados mocktails. A existência de ambientes nos quais ninguém precisa justificar por que não está bebendo pode diminuir uma pressão social que permanece presente em muitos encontros.

Também não existe um único perfil de pessoa sober curious. Uma pesquisa americana com 1.659 adultos na faixa dos 20 anos encontrou familiaridade ainda limitada com o termo. Entre aqueles que participaram de desafios temporários de abstinência, metade relatou beber menos posteriormente e 15% permaneceu sem consumir álcool após o período. Os próprios autores alertam que os resultados pertencem à amostra estudada e não devem ser generalizados para toda a população mas todos os adeptos tem alguma atividade física preferencia.

A comunidade passa a importar tanto quanto a bebida

Talvez a parte mais significativa dessa tendência esteja justamente no pertencimento. Se a vida social continua organizada principalmente em torno de locais onde beber é esperado, reduzir o consumo pode produzir isolamento em vez de bem estar.

Pesquisas recentes sobre sober curiosity apontam oportunidades de conexão em ambientes sem álcool e apoio social como elementos relevantes para pessoas interessadas em mudar sua relação com a bebida. Isso ajuda a explicar por que comunidades, eventos e espaços dedicados ao convívio aparecem junto com o crescimento do movimento.

O resultado é uma mudança que vai além da substituição de cerveja ou vinho por uma versão sem álcool. A própria atividade passa a justificar o encontro: correr, caminhar, dançar, tomar café, assistir a uma apresentação ou simplesmente conversar.

Beber menos, prestar mais atenção na alimentação e nesse sentido, começa a alterar uma regra social antiga. O encontro não precisa desaparecer quando o álcool deixa de ocupar o centro da mesa. Para uma parcela das pessoas, é justamente nesse momento que novas comunidades começam a surgir.

 

 

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