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As ruas continuam sendo o maior algoritmo que a humanidade já criou

Ruas, bares e restaurantes continuam revelando aquilo que nenhuma inteligência artificial consegue interpretar: as relações humanas.

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As ruas que contam as verdadeiras histórias
As ruas continuam sendo o maior algoritmo que a humanidade já criou • Arquivo pessoal

Há poucos dias, uma notícia me fez refletir muito menos sobre tecnologia e muito mais sobre pessoas. O Spotify anunciou o Reserved, um recurso que identifica os ouvintes mais fiéis de um artista e oferece a eles acesso antecipado para comprar ingressos de shows. Pela primeira vez, vi um algoritmo tentando fazer algo que as ruas fazem há séculos: reconhecer quem realmente esteve presente. A ideia parece simples, mas carrega uma pergunta poderosa. Será que os dados conseguem substituir o olhar humano?

Sempre gostei de pedalar ou sair de skate sem destino pela cidade. Não pela atividade física em si, mas porque descobri que existe uma universidade funcionando diariamente entre calçadas, praças, bares e esquinas. Gosto de parar em um café, observar uma mesa ocupada por amigos, acompanhar o movimento de um restaurante no início da noite ou simplesmente imaginar a história de quem passa por mim. Hoje chamam isso de people watching. Eu continuo chamando de curiosidade. Nunca sei para onde aquelas pessoas estão indo, mas quase sempre volto para casa com a sensação de ter aprendido alguma coisa sobre a vida.

As ruas nunca foram feitas de asfalto. Foram feitas de encontros.

Sempre que releio As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, encontro a mesma impressão: cidades nunca foram apenas um conjunto de edifícios. Elas são construídas pelas relações que acontecem entre eles. Talvez seja por isso que eu nunca tenha acreditado que uma rua viva seja definida pelo trânsito ou pela quantidade de pessoas circulando. Uma rua ganha alma quando existe permanência. Os bares não vendem apenas cerveja. Os cafés não servem apenas café. Os restaurantes não entregam somente comida.

Eles oferecem um território onde histórias encontram espaço para acontecer. É ali que amizades começam, casais se apaixonam, famílias celebram conquistas, negócios surgem e despedidas ganham coragem para acontecer. As melhores cidades do mundo não são lembradas apenas por sua arquitetura. São lembradas porque existe gente ocupando suas mesas, caminhando pelas calçadas e transformando espaços comuns em lugares carregados de memória. Nenhum software consegue medir isso. Nenhum sensor registra o instante em que um abraço muda o dia de alguém ou quando uma conversa de quinze minutos altera completamente um destino.

O marketing talvez tenha esquecido onde as pessoas realmente vivem

Ao longo da minha trajetória trabalhando com marcas, aprendi muito mais conversando com desconhecidos do que analisando apresentações impecáveis. Perdi a conta de quantas vezes saí para caminhar sem roteiro, entrei em um bar, parei em um café, observei uma fila de padaria ou puxei conversa com alguém sentado sozinho em uma praça. As respostas nunca vinham prontas. Vinham acompanhadas de pausas, expressões, risadas, dúvidas e silêncios.

Hoje produzimos uma quantidade quase infinita de informações. Monitoramos comentários, acompanhamos tendências em tempo real, analisamos gráficos coloridos e chamamos isso de escuta. Tudo isso tem valor, mas existe uma diferença enorme entre observar comportamento e compreender pessoas. O dado mostra o que alguém fez. A rua costuma revelar por que ela fez. É justamente por isso que o recurso anunciado pelo Spotify me chamou atenção. Não pelos ingressos. Nem pela tecnologia. O que realmente importa é a tentativa de reconhecer quem permaneceu ao lado de um artista antes que ele se tornasse tendência. Durante décadas, o mercado aprendeu a medir alcance. Talvez tenha chegado a hora de aprender a reconhecer pertencimento.

Talvez a inteligência artificial consiga descobrir qual será a próxima música que vou ouvir, o restaurante que provavelmente visitarei ou o livro que devo comprar. Talvez ela antecipe desejos com uma precisão impressionante. Ainda assim, continuo acreditando que existe uma inteligência muito mais antiga e muito mais sofisticada. Ela mora nas ruas. Está nas mesas compartilhadas de um bar numa sexta-feira, no garçom que conhece o nome dos clientes, no dono do restaurante que pergunta pelo filho de quem voltou depois de meses, no café onde alguém escreve um livro enquanto outro tenta recomeçar a vida.

Os algoritmos conseguem identificar padrões com velocidade extraordinária. As ruas conseguem reconhecer pessoas. Existe uma diferença enorme entre saber quantas vezes alguém apareceu e perceber que essa pessoa nunca deixou de estar presente.

Talvez seja justamente aí que esteja a maior descoberta para qualquer marca, artista ou profissional da comunicação. Passei muito tempo acreditando que bastava ser visto. Com o tempo entendi que a atenção passa como o vento, mas o pertencimento cria raízes. As pessoas quase nunca guardam na memória quem falou mais alto. Elas guardam quem caminhou ao seu lado quando o silêncio parecia maior que as palavras. Os dashboards registram números, cliques e conversões. As ruas preservam encontros, lembranças e afetos. Enquanto a tecnologia tenta decifrar o ser humano por meio de dados, continuo acreditando que a verdadeira sabedoria permanece do lado de fora, onde a vida segue seu caminho sem pedir licença, lembrando que os maiores ensinamentos nunca couberam dentro de um gráfico.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.