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Hajime Moriyasu: tecnico do Japão da show fora das quatro linhas

Pedido de desculpas de Hajime Moriyasu após a eliminação revela valores da cultura japonesa que vão muito além do futebol.

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Japão Copa do Mundo
Hajime Moriyasu: tecnico do Japão da show fora das quatro linhas • Arquivo Pessoal

Quem em acompanha por aqui com certeza já leu matérias minhas falando sobre o Japão e nelas sempre efatizo que temos muito o que aprender com os japonses em todos so sentidos principalmente como seres humanos. E desta vez não poderia ser diferente só que o grande exemplo veio do futebol.

A derrota do Japão para o Brasil por 2 a 1, de virada, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 encerrou o sonho japonês de seguir na competição, mas abriu espaço para uma das imagens mais marcantes do torneio. Enquanto boa parte do noticiário naturalmente se concentrou na classificação brasileira, outro personagem chamou a atenção do mundo: o técnico Hajime Moriyasu. Em vez de buscar explicações externas ou apontar erros individuais, o treinador assumiu sozinho a responsabilidade pela eliminação e revelou que pediu desculpas aos jogadores por não conseguir conduzi-los à vitória.

A declaração rapidamente ganhou repercussão internacional porque foge do padrão visto no futebol moderno. "Lamento não poder levá-los à vitória", afirmou Moriyasu, antes de agradecer ao grupo pelo comprometimento e destacar que, mesmo sem alcançar o principal objetivo, a seleção japonesa construiu algo importante durante sua trajetória. O treinador também deixou claro que o foco agora passa a ser a preparação para a Copa da Ásia de 2027.

Mais do que uma entrevista coletiva, a fala do comandante japonês acabou se tornando uma aula sobre liderança.

A cultura japonesa ajuda a explicar a postura de Moriyasu

Quem observa apenas o futebol talvez enxergue um treinador educado ou excessivamente humilde. Mas, no Japão, esse comportamento possui raízes muito mais profundas. A formação cultural japonesa valoriza princípios como responsabilidade coletiva, disciplina, respeito ao grupo e compromisso com a missão assumida.

Esses valores foram moldados ao longo dos séculos por tradições como o Bushido, o antigo código de conduta dos samurais, que influenciou a forma como a sociedade japonesa passou a enxergar honra, dever e lealdade. Mesmo sem relação direta com o esporte moderno, muitos desses princípios permanecem presentes na maneira como empresas, escolas e instituições formam seus líderes.

Por isso, quando Moriyasu assume a responsabilidade pela derrota, ele não está apenas fazendo um gesto de elegância. Está demonstrando um princípio conhecido como giri, que representa o senso de obrigação moral para com aqueles que depositaram confiança em seu trabalho.

Da mesma forma, existe na cultura japonesa o conceito de haji, normalmente associado ao sentimento de vergonha por não conseguir cumprir uma responsabilidade assumida diante da coletividade. Diferentemente da ideia ocidental de culpa, frequentemente direcionada a fatores externos, o fracasso costuma ser encarado como uma responsabilidade pessoal que afeta todo o grupo.

Esse aspecto ajuda a entender por que o treinador preferiu proteger seus atletas em vez de dividir publicamente a responsabilidade pela eliminação.

Uma lição que vai além das quatro linhas

O futebol costuma ser um ambiente em que o resultado final apaga quase tudo o que aconteceu durante a caminhada. Vitórias transformam treinadores em gênios. Derrotas frequentemente produzem culpados.

A postura de Hajime Moriyasu seguiu justamente na direção oposta.

Ao assumir o peso da eliminação, ele fortaleceu a confiança do elenco e demonstrou que liderar significa estar ao lado da equipe principalmente quando o objetivo não é alcançado. Não houve críticas públicas aos jogadores, reclamações sobre arbitragem ou justificativas relacionadas ao adversário. Houve responsabilidade.

Esse comportamento também revela outro aspecto importante da evolução do futebol japonês. Desde os anos 1990, quando a criação da J-League acelerou o desenvolvimento da modalidade no país, o Japão passou a investir simultaneamente em estrutura, formação técnica e educação esportiva. O crescimento da seleção nacional nunca esteve baseado apenas na busca por resultados imediatos, mas na construção de um projeto de longo prazo.

O Japão chegou ao Mundial de 2026 levando mais do que um time competitivo. Levava uma maneira de compreender o futebol como extensão dos valores que moldam um povo. Contra o Brasil, encontrou coragem para sair na frente com Sano, resistiu enquanto pôde e obrigou um dos favoritos ao título a buscar a virada com Casemiro e Martinelli. O resultado encerrou a caminhada japonesa, mas não diminuiu o significado de sua trajetória.

Há derrotas que encerram sonhos e há derrotas que revelam a verdadeira dimensão de uma liderança. Enquanto muitos procuram justificativas ou dividem responsabilidades, Hajime Moriyasu escolheu carregar o peso da eliminação sobre os próprios ombros. Fez isso sem revolta, sem discursos grandiosos e sem retirar de seus jogadores a dignidade conquistada ao longo da competição.

Vivemos uma época em que quase tudo é medido por resultados. Esquecemos que existem conquistas invisíveis, aquelas que fortalecem o espírito, inspiram pessoas e permanecem vivas muito depois que o apito final silencia um estádio. O Brasil avançou porque venceu o jogo. O Japão saiu da Copa lembrando ao mundo que honra, humildade e responsabilidade também podem ser celebradas. Em uma Copa decidida por gols, sua maior vitória e exemplo aconteceu longe do placar.

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Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.