Lula fez críticas contra Trump ao menos 35 vezes desde 'química' em cúpula da ONU
A relação entre Lula e Trump é marcada por momentos de conciliação e atritos, com o presidente brasileiro criticando a postura do norte-americano em diversas ocasiões

A relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o líder norte-americano Donald Trump tem sido marcada por "altos e baixos" desde o primeiro encontro, em 23 de setembro de 2023, nos Estados Unidos. Apesar de um início com "química excelente", os quase nove meses registraram 67 declarações de Lula sobre Trump, com mais da metade delas (52%) contendo críticas.
Em quase nove meses, o chefe do Executivo brasileiro teve outras seis conversas com o presidente dos Estados Unidos, entre telefonemas, bilaterais e encontros durante agendas. Um levantamento feito pela CNN Brasil revelou que 35 das menções de Lula ao republicano tiveram viés de crítica, enquanto as outras 32 foram elogiosas ou em tom conciliador.
Nesta semana, Lula criticou, por exemplo, a intenção de Trump de taxar a passagem de embarcações pelo Estreito de Ormuz. A prática, segundo o petista, seria “pirataria”.
"Tem um tuíte dele dizendo que ele vai desobstruir o Estreito de Ormuz. O Estreito de Ormuz é aquele canal entre o Irã e o resto do mundo, que o Irã não deixa passar navio com petróleo. Ele fez um tuíte dizendo que ele vai desobstruir, mas cada navio que ele desobstruir, que ele tirar do estreito, o dono do petróleo tem que pagar 20% para ele. Isso antigamente chamava pirataria", afirmou o petista.
Antes, em 10 de julho deste ano, Lula também comentou que Trump teria “inveja” da China em razão da exploração de minerais críticos.
“Se o Trump está preocupado com a China, pode começar a se preocupar com o Brasil, que nós vamos ser detentor de fazer as mesmas coisas, ou mais qualificadas, que o chinês faz”, disse em reunião no Planalto.
Uma nova frente de desgaste foi consolidada na última quarta-feira (15) de julho, após os Estados Unidos confirmarem uma nova taxação de 25% em relação a produtos brasileiros.
Após a imposição das tarifas, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, criticou o presidente Lula e disse que as políticas econômicas do Brasil são "ruins para os americanos e ruins para os brasileiros". Ele também acusou o petista de não negociar de boa-fé com os Estados Unidos. O Planalto rebateu as críticas e disse que nunca deixou de comparecer às mesas de negociação.
A primeira conversa entre Lula e Trump ocorreu em setembro de 2023 durante a 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, nos Estados Unidos. Na época, os dois tiveram um breve encontro informal em que o presidente dos Estados Unidos afirmou ter tido uma "química excelente" com o líder brasileiro.
Após a breve conversa, Lula adotou tom amistoso e citou Trump em discursos públicos, dizendo ter se surpreendido com a “química” entre os dois. Em outubro de 2023, houve uma nova conversa por telefone em que Lula pediu que o governo americano retirasse a taxa aplicada a produtos brasileiros e as sanções contra autoridades.
No mesmo mês, os dois se reuniram em Kuala Lumpur, na Malásia. A reunião foi considerada “ótima” por Lula. O encontro ocorreu durante a 47ª cúpula da Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático).
Depois, em dezembro do ano passado, em mais um telefonema, Lula reforçou o apelo contra as taxações impostas ao Brasil. Em janeiro deste ano, os dois presidentes combinaram um outro encontro formal, que ocorreu em maio deste ano.
A reunião bilateral na Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos, foi precedida de uma conversa por telefone. O encontro, realizado em 7 de maio deste ano, durou cerca de três horas e foi considerado positivo por integrantes do Executivo brasileiro. A reunião também refletiu na melhora da imagem do governo petista.
Desde junho deste ano, no entanto, Lula tem adotado tom menos simpático em relação aos Estados Unidos. Ele fez críticas ao conflito no Oriente Médio e à atuação estadunidense. Para ele, a guerra contra o Irã é uma “maluquice”.
Lula também se irritou e criticou a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas. Em junho deste ano, Lula disse mais de uma vez que Trump “não foi eleito para ser o imperador do mundo”.
Sobre as eleições deste ano, o presidente petista também fez um alerta, dizendo esperar que Trump não interfira no pleito eleitoral brasileiro.
O presidente norte-americano é visto como um aliado da família Bolsonaro, que tem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como pré-candidato à Presidência. A relação de Trump com o clã Bolsonaro, no entanto, costuma ser minimizada por Lula.
“Para mim, ele [Trump] pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema. É um problema dele. Afinal de contas, gosto não se discute. Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil, como as eleições americanas são um problema deles, não meu”, disse Lula em 17 de junho deste ano.
Desde a primeira conversa entre os dois, Trump também fez declarações antagônicas sobre Lula. O presidente norte-americano chegou a dizer, em maio deste ano, que o brasileiro era um líder “dinâmico”, e depois, em junho deste ano, afirmou que Lula era “muito volátil”.
Os presidentes voltaram a se encontrar pessoalmente em 16 de junho deste ano, durante um evento social da cúpula do G7, em Evian-les-Bains, na França. Apesar do encontro, os dois deixaram a cúpula do G7 sem uma reunião formal.
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