Governo reorganiza articulação, mas ainda depende de Pacheco no Senado
Troca de Jaques Wagner por Teresa Leitão redistribuiu funções no Planalto após derrota de Jorge Messias ao STF; interlocutores do governo veem no ex-presidente do Senado a principal aposta para reaproximar Lula de Davi Alcolumbre

A troca de comando da liderança do governo no Senado reorganizou a articulação política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas ainda não resolveu o principal problema do Palácio do Planalto na Casa: reconstruir a relação com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
A avaliação é compartilhada por integrantes do governo ouvidos pela reportagem. Embora a chegada da senadora Teresa Leitão (PT-PE), que completou uma semana no cargo na última sexta-feira (3), tenha reduzido a tensão interna e aberto uma nova frente de diálogo com os senadores, o Planalto reconhece que o sucesso da articulação continuará dependendo da capacidade de restabelecer uma interlocução com Alcolumbre. Nos bastidores, um personagem ganhou papel central nesse esforço: o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Derrota no STF mudou a estratégia
Interlocutores do governo apontam que a necessidade de reorganizar a articulação política ganhou força após a rejeição, pelo Senado, da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF. A derrota, considerada histórica por aliados de Lula, foi atribuída à articulação de Alcolumbre e aprofundou o desgaste entre o Palácio do Planalto e a cúpula da Casa.
Desde então, segundo apurado pela Itatiaia junto ao Planalto, o presidente do Senado passou a reforçar a disposição de conduzir uma agenda própria, sem funcionar como avalista automático de projetos enviados pelo Executivo ou aprovados pela Câmara.
O cenário também alterou a estratégia do governo para matérias de maior impacto fiscal. Propostas classificadas internamente como "pautas-bomba", como a PEC que cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, passaram a exigir negociações mais intensas. A avaliação é de que, em temas dessa natureza, Lula poderá participar pessoalmente das conversas com parlamentares.
Integrantes do governo também esperam negociações prolongadas para propostas como a PEC da jornada de trabalho, conhecida como PEC da escala 6x1, e a reforma da segurança pública, diante da sinalização de Alcolumbre de que os textos deverão passar por amplo debate antes de chegarem ao plenário.
Cada um com uma missão
A mudança ocorreu após Jaques Wagner deixar a liderança do governo em meio ao desgaste provocado por seu envolvimento nas investigações do caso Master. A escolha de Teresa Leitão foi interpretada no Planalto como uma oportunidade para reorganizar a articulação política em um momento de tensão com o Senado.
Teresa Leitão passou a concentrar o diálogo cotidiano com os senadores, conduzindo negociações em plenário e nas comissões, além de atuar diretamente com líderes partidários para construir acordos e solucionar impasses regimentais.
Ao ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, coube reforçar as negociações envolvendo liberação de emendas parlamentares e o cumprimento de acordos financeiros firmados entre Executivo e Congresso.
Segundo interlocutores do ministro, Teresa foi escolhida por reunir um perfil considerado conciliador e manter bom trânsito entre diferentes bancadas, inclusive da oposição. A expectativa do governo é que essa característica facilite a retomada do diálogo político no Senado.
Pacheco ganha protagonismo
Enquanto Teresa assumiu a interlocução institucional, Rodrigo Pacheco passou a desempenhar um papel informal considerado estratégico pelo Planalto.
Aliado de Lula e também próximo de Alcolumbre, o ex-presidente do Senado tem atuado, segundo interlocutores do governo, para reduzir a tensão entre os dois presidentes e reconstruir canais de diálogo interrompidos após o desgaste provocado pela indicação de Jorge Messias.
A atuação ocorre em um momento em que Pacheco decidiu permanecer no Senado, em vez de iniciar uma campanha ao governo de Minas Gerais — movimento defendido por aliados de Lula meses atrás. Nos bastidores, integrantes do governo avaliam que sua permanência acabou ampliando sua importância na articulação política nacional.
Por que Teresa
A escolha da senadora pernambucana também foi resultado de um cálculo político.
Antes da definição, o nome mais cotado para assumir a liderança era o do senador Camilo Santana (PT-CE). A avaliação dentro do partido, porém, foi a de que ele deveria concentrar esforços na disputa eleitoral no Ceará em 2026. Sua indicação também poderia ampliar o desgaste político de Jaques Wagner, que já enfrentava pressão após deixar o cargo.
Pesaram ainda a experiência de Teresa na liderança da bancada do PT no Senado, seu perfil conciliador e o fato de ela estar no meio do mandato, sem disputar a reeleição em 2026. A escolha também atendeu a uma demanda da base petista por maior presença feminina em postos estratégicos do governo.
Para o cientista político Elias Tavares, a mudança representa uma tentativa de renovar a interlocução do governo no Senado, mas não altera automaticamente a relação com Alcolumbre.
"O que muda é o perfil da interlocução. Teresa chega com prestígio dentro do PT, experiência legislativa e capacidade de diálogo. Mas a qualidade dessa relação continuará dependendo da capacidade do governo de construir consensos e negociar suas pautas prioritárias", afirma.
A avaliação predominante entre integrantes do Planalto é que a troca de liderança reorganizou a articulação política, mas o teste da nova estratégia ocorrerá no segundo semestre. Será a capacidade de Teresa em construir maiorias e a de Pacheco em reabrir canais de diálogo com Alcolumbre que determinarão se o governo conseguirá destravar sua agenda no Senado.
João Pedro Melo é jornalista, formado pelo UniCEUB. Tem mais de dez anos de experiência na cobertura de Congresso Nacional, Palácio do Planalto e Supremo Tribunal Federal. Teve passagens pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação como repórter de política na TV e no rádio.
Aline Pessanha é jornalista, com Pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada pela FACHA - RJ. Possui passagem pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, como repórter de TV e de rádio, além de ter sido repórter na Inter TV, afiliada da Rede Globo.
Supervisor da Rádio Itatiaia em Brasília, atua na cobertura política dos Três Poderes. Mineiro formado pela PUC Minas, já teve passagens como repórter e apresentador por Rádio BandNews FM, Jornal Metro e O Tempo. Vencedor dos prêmios CDL de Jornalismo em 2021 e Amagis 2022 na categoria rádio





