Paulo Gonet usa fala de André Mendonça e detalha relação com Daniel Vorcaro em defesa ao MPF
No documento, Gonet afirma não ter 'relação de amizade alguma' com Vorcaro nem 'interesse pessoal' nos processos em que o banqueiro é parte ou investigado

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, distribuiu internamente no Ministério Público Federal (MPF) sua defesa para o julgamento que enfrentará na próxima semana no Conselho Superior do órgão, em Brasília. No documento de 30 páginas, obtido pela CNN, ele critica o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e detalha sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, negando amizade e interesse pessoal nos processos. A informação foi publicada pelo blog do jornalista Caio Junqueira.
No documento, Gonet afirma não ter “relação de amizade alguma” com Vorcaro nem “interesse pessoal” nos processos em que o banqueiro é parte ou investigado. Ele classificou as imputações contra ele como “descabidas e estapafúrdias”, utilizando uma fala recente de Mendonça no STF, que não viu atuação irregular do procurador-geral, como ponto a seu favor. Gonet conclui que se considera “juridicamente plenamente apto” para atuar nos processos do caso e pede que a hipótese de suspeição ou impedimento seja afastada.
O processo no Conselho Superior foi aberto a pedido do Partido Novo, com base em notícias de que Vorcaro teria solicitado a um terceiro que intercedesse junto ao procurador-geral na Operação Compliance Zero. Para mais detalhes sobre as alegações, veja a matéria inquérito da PF sugere proximidade entre Gonet e Vorcaro.
O documento traz diversas citações de Gonet. “Não é do meu feitio participar de debates públicos fora do lugar adequado para serem travados. Mesmo diante do reconhecimento pelo ministro que vasculhou mensagens com meu nome de que nada existe em meu desabono”, diz um trecho. Em outro ponto, o procurador-geral reafirma: “Em termos bastante diretos e simples, (informo) que não tenho com o Sr. Daniel Vorcaro relação de amizade alguma, nem muito menos tenho interesse pessoal nos processos em que ele conste como parte ou investigado.”
Gonet também aborda as notas recolhidas no Informação de Polícia Judiciária (IPJ), com “reclamos do Sr. Vorcaro, em tom de desespero”, datadas de 30 de outubro de 2025, 5 e 15 de novembro do mesmo ano, e que se referem a medidas que Vorcaro temia na primeira instância. O procurador-geral garante que “não recebi interferência nenhuma para obstar investigações” e que, ao contrário, garantiu “todo o suporte institucional e material” aos colegas.
Mesmo dando crédito ao que Vorcaro anotou sobre seus então advogados Pierpaolo Bottini e Roberto Podval terem buscado Gonet para se inteirar do caso, o texto reitera que ele “nada informou” e apenas teria garantido que o Ministério Público “cumpre sua função corretamente, sem perseguir ninguém”. Gonet acrescenta que costuma dizer, “embora sem me valer da expressão chula”, que “dos membros do Ministério Público nunca esperarei 'sacanagem' em face de nenhum investigado”.
Gonet ressalta que, no período em que as notas foram escritas, quem atuava pelo Ministério Público Federal não era o procurador-geral da República, mas sim um procurador da República, que “reconhece não ter recebido qualquer interferência indevida de minha parte”.
Nesse período, segundo Gonet, a Procuradoria-Geral da República recebeu propostas de colaboração premiada, e ele assenta que todas as propostas deveriam ter estrita vinculação a um conjunto de premissas.
A única interação presencial de Gonet com Daniel Vorcaro, segundo sua defesa, ocorreu em abril de 2024, em Londres, durante um evento promovido pelo Grupo Voto e pela revista eletrônica Consultor Jurídico. O convite foi formalizado por Marcio Chaer, responsável técnico do evento, onde Gonet participou de um painel sobre “O papel do Judiciário para a estabilidade democrática”. Veja mais sobre como Gonet se defende de acusações.
No evento, que contou com a presença de diversas autoridades e uma apresentação do ex-primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, Gonet afirma ter estado com Vorcaro “juntamente com diversos outros convidados, sem haver entabulado nenhuma conversa de ordem profissional”. Ele reitera que, na época, “nada havia de público sobre atividades ilícitas do Banco Master nem do seu dirigente”.
Até aquele momento, “o Sr. Daniel Vorcaro me era pessoa desconhecida”, diz Gonet. O Banco Master, que não constava como patrocinador do evento, era, para ele, “apenas uma instituição financeira em atividade aparentemente regular”. Marcio Chaer, organizador, posteriormente confirmou por escrito que Gonet não foi informado de antemão sobre os patrocinadores.
A defesa destaca que o relatório da IPJ assinala que Gonet “não consto da lista de contatos do Sr. Vorcaro”. “Não há registro algum de ligação efetuada por ele para o meu número de telefone – nem poderia haver mesmo, porque isso nunca aconteceu”, afirma.
Gonet argumenta que as mensagens de Vorcaro a terceiros, rogando por intercessão, revelam a falta de contato pessoal direto. “Se houvesse essa facilidade de contato pessoal, ele não precisaria enviar mensagens para terceiros”, pontua. O procurador-geral reforça que, além do evento de Londres, “jamais estive nem em residência do Sr. Vorcaro, nem na sede do seu Banco, nem com ele me encontrei em qualquer outro lugar”.
A IPJ também fez Gonet recordar a “única outra vez” em que falou com Vorcaro, além da oportunidade do evento de abril de 2024: em 15 de março de 2025, quando Ciro Soares ligou para Vorcaro e passou o telefone para Gonet saudá-lo. A conversa foi breve e ocorreu “antes de qualquer ciência minha de notícia de atividades ilícitas quaisquer”.
Gonet explica que, no dia da ligação, Ciro havia mencionado que o Banco Master estava para concluir uma transação para adquirir o BRB. O procurador-geral deu os parabéns por gentileza, embora o assunto não fosse de sua alçada profissional e o “quadro real era outro”, totalmente desconhecido por ele.
Ciro Soares foi apresentado a Gonet como “bem-sucedido advogado e empresário”, de personalidade “extrovertida e socialmente agradável”. Ciro esteve com Gonet na Brazil Conference 2024, em Boston, nos EUA, em abril de 2024, e é primo do então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais, Jarbas Soares, além de próximo a outras autoridades, o que lhe conferia “credibilidade social”.
A IPJ reproduz três mensagens para Ciro, “anteriores à eclosão da crise do Banco Master”. Gonet detalha que a frase “Que bom! Estou na torcida por vocês!” foi direcionada a Ciro e Vorcaro (plural). Já a mensagem “já estou com saudade de você” era endereçada apenas a Ciro (singular). Gonet considera “não crível que se impute à minha frase 'saudade de você' como direcionada ao Sr. Vorcaro”.
Gonet também nega que a expressão “você é uma máquina”, mencionada em outro contexto e encaminhada por Ciro a Vorcaro, fosse dirigida ao banqueiro. Ele afirma que se referia a Ciro, em seu “estilo afetuoso”, e que a frase não tem relevância, “a não ser que se queira ceder a impulso de maledicência e difamação”.
“Não sou responsável pelo que terceiros dizem entre si”, reitera Gonet, destacando que a imputação de frases a quem mal se conhece e nem sequer está na lista de contatos telefônicos só se explica pela “leviandade no trato dos fatos” e “desejo maledicente de disseminar dúvida”.
Por fim, Gonet declara que sua participação no evento jurídico de Londres, em 2024, “não acarretou nem acarreta nenhum impacto na minha atuação como Procurador-Geral da República”. Ele também menciona ter declinado da aceitação de um evento que ocorreria em 2025 e que foi cancelado, e enfatiza que seu filho “não chegou a ser nem sequer convidado pelos organizadores do evento, não teve, jamais, contato algum com o Sr. Daniel Vorcaro, nem esteve em Londres”.
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