Você conversa com seu pet? Estudo revela quanto os tutores costumam falar com seus cães e gatos
Pesquisa analisou mais de 5 mil gravações e identificou as formas mais comuns de interação entre pessoas e animais, incluindo elogios, perguntas, ordens e apelidos

Quem vive com um cachorro ou gato provavelmente já conversou com ele muitas vezes ao longo do dia. Agora, um estudo realizado por pesquisadores da Universidade do Arizona (EUA) conseguiu medir esse comportamento de maneira mais objetiva e descobriu que os animais estão presentes em uma parcela considerável das conversas de seus tutores.
A pesquisa analisou 5.072 gravações de áudio de 240 adultos e mostrou que as falas direcionadas a cães e gatos correspondem, em média, a 9,2% dos momentos em que uma pessoa está falando.
O trabalho foi publicado na revista científica Frontiers in Psychiatry e buscou entender melhor como acontece a interação cotidiana entre humanos e animais. A intenção também é ajudar a explicar por que estudos anteriores chegaram a conclusões diferentes sobre os possíveis efeitos da convivência com pets sobre a saúde mental.
O que as pessoas mais falam para os animais?
Para realizar a análise, os pesquisadores desenvolveram uma ferramenta chamada AURAL-Pet, capaz de identificar diferentes características das conversas entre pessoas e seus animais.
O sistema consegue reconhecer, por exemplo, quando alguém está dando uma ordem, fazendo uma pergunta, elogiando o animal, demonstrando frustração ou usando um apelido carinhoso. Ele também identifica situações em que a pessoa conversa com o animal como se estivesse falando com outro ser humano.
Entre os comportamentos encontrados nas gravações, 63,3% dos áudios tinham pessoas falando diretamente com o animal. Em 55,3% dos casos, o conteúdo era claramente direcionado ao pet enquanto animal.
As ordens apareceram em 24,7% das gravações, enquanto perguntas foram identificadas em 18,7%. Já em 18,2% dos registros, os participantes trataram o animal de alguma maneira como um substituto humano.
O estudo também identificou um tom de voz específico utilizado com os animais em 27,1% dos áudios.
Cães e gatos viram confidentes
As gravações mostraram que a relação entre tutores e animais pode assumir diferentes formas. Em alguns casos, cães e gatos aparecem simplesmente como parte da rotina. Em outros, acabam ocupando um papel semelhante ao de um companheiro para conversar.
Uma das situações registradas envolveu uma pessoa que havia tido "um dia difícil no trabalho" e falou com seu animal:
"Você sempre fica feliz em me ver; você sempre me faz sentir tão bem."
Para os pesquisadores, exemplos como esse ajudam a mostrar que a presença de um animal pode ter significados diferentes dependendo da pessoa e do contexto.
As conversas também acontecem quando os tutores estão sozinhos. Segundo os dados, nos áudios em que havia um animal presente, 44% das pessoas estavam sozinhas. Em 35,7% dos casos havia outra pessoa presente e, em 14,1%, várias pessoas participavam da situação.
Cada pessoa se relaciona de uma maneira diferente
Uma das descobertas que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a grande diferença entre os participantes.
Algumas pessoas utilizavam apelidos carinhosos em praticamente todas as interações registradas com os animais. Outras nunca faziam isso. O mesmo padrão apareceu em relação a perguntas, ordens, elogios e conversas mais pessoais.
Essa variação pode ser importante para entender por que pesquisas sobre o chamado "efeito pet" apresentam resultados tão diferentes. Alguns trabalhos relacionam a convivência com animais a menores níveis de solidão e depressão, enquanto outros encontram benefícios mais fracos ou nenhum efeito significativo.
Para Emily Bray, professora adjunta do Colégio de Medicina Veterinária da Universidade do Arizona e autora principal do estudo, é necessário observar o que as pessoas realmente fazem quando estão com seus animais.
Segundo ela, são necessários "dados objetivos sobre o que as pessoas realmente estão dizendo e como estão interagindo" com seus pets para compreender melhor essas diferenças.
Nova ferramenta pode ajudar pesquisas sobre saúde mental
A AURAL-Pet foi desenvolvida justamente para observar o comportamento espontâneo, sem depender apenas daquilo que os participantes dizem que fazem.
As gravações eram realizadas em momentos aleatórios do dia por meio de um aplicativo para celular. Os participantes sabiam que seus áudios poderiam ser utilizados em pesquisas, mas não conheciam a pergunta específica que estava sendo investigada.
Depois de treinado, o sistema conseguia analisar cada gravação de 30 ou 50 segundos em aproximadamente 1,5 minuto.
Para Bray, uma das principais vantagens é poder observar diretamente o comportamento das pessoas. "Podemos ir diretamente ao comportamento humano, e isso me encanta como pesquisadora do comportamento animal. Os humanos também são animais, não é?", afirmou.
A ferramenta já começou a ser utilizada em outro estudo, voltado para adultos com mais de 60 anos. Os pesquisadores querem descobrir se os animais funcionam principalmente como substitutos de companheiros sociais ou se também ajudam seus tutores a interagir mais com outras pessoas.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



