Tosa caseira em cães pode trazer doenças dermatológicas

Raças de “pelo duplo”, como Spitz, Chow Chow e Golden Retriever, por exemplo, precisam de tosa especializada para evitar alopecia pós-tosa

O uso de máquinas de tosa é desaconselhado devido ao risco de queimaduras térmicas, pelo aquecimento da lâmina, e cortes na pele fina do animal

A maior parte dos tutores vê a tosa dos cães apenas como uma medida de higiene ou alívio térmico durante o verão, mas há complexidades fisiológicas nos pets que, se ignoradas, podem resultar em reações dermatológicas ou traumas comportamentais. O crescimento da prática de tosa domiciliar (“home grooming” em inglês) levanta o alerta da comunidade veterinária sobre a necessidade de conhecimento técnico prévio por parte dos tutores.

A pelagem dos animais tem um papel muito importante na termorregulação e na proteção imunológica da pele dos pets. O ideal é que os tutores, antes de qualquer tentativa de tosa o próprio cão, compreendam a função biológica do pelo.

Outro fator de atenção é entender quais raças não costumam lidar bem com uma tosa genérica, principalmente com o uso de máquinas. Raças de “pelagem dupla”, como Spitz, Chow Chow e Golden Retriever, por exemplo, precisam de tosa especializada para evitar a alopecia pós-tosa.

“É fundamental que a tosa seja realizada por profissionais especializados, que conheçam as particularidades desta pelagem. Além disso, deve ser utilizado a tesoura apenas na parte final da haste do pelo e nunca com a máquina”, diz a dermatologista veterinária Gabriela Rissi.

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“Pelagem dupla” significa dizer que esses cães possuem uma segunda cobertura de fios curtos e finos, o subpelo. O corte abrupto dele altera o ciclo folicular:

De acordo com a especialista, quando ocorre a tosa, este isolamento térmico extra, o qual a pele dessas raças foi desenvolvida para ter, é perdido. Assim, a pele e o folículo piloso, expostos a baixas temperaturas e sem a proteção térmica, entram em fase de repouso (telógena), caracterizando a alopecia pós-tosa.

“A preservação do subpelo é importante para manter a temperatura elevada próxima à pele, pois quando ocorre a perda do isolamento térmico, pode-se causar a interrupção do crescimento piloso e originar todo o quadro alopécico”, diz Gabriela.

Além da reação dermatológica, o bem-estar do animal durante o procedimento da tosa também é importante. O ambiente doméstico, embora familiar, não dá a contenção técnica adequada, o que pode elevar os níveis de estresse do animal.

É o que apontam estudos realizados pelo Centro Universitário de Brasília (CEUB) sobre o estresse durante procedimentos estéticos indicam que o manuseio incorreto do animal ou de ferramentas para tosa pode gerar medo persistente.

O Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), por meio de suas resoluções sobre boas práticas, também reforça que qualquer procedimento deve ser isento de pânico ou dor e categoriza o estresse evitável como uma infração ética e legal na relação de cuidado com o animal..

Outro ponto crítico é a higiene dos instrumentos. Tesouras e lâminas domésticas raramente passam pelos processos de esterilização exigidos em clínicas e pet shops regulamentados. O Manual de Responsabilidade Técnica do CRMV alerta que “todos os equipamentos devem estar em adequado estado de conservação e a desinfecção é etapa obrigatória para evitar a transmissão de dermatofitoses (fungos) e piodermites”.

Portanto, a recomendação veterinária é que a intervenção caseira se restrinja à “tosa higiênica”, como a limpeza dos coxins (a área entre as “almofadinhas” das patas) e região perianal dos cachorros.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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