Por que o fígado do seu cão pode estar doente sem dar sinais; entenda

Diferentemente do coração ou dos pulmões, que dão sinais imediatos de que algo não vai bem, o fígado trabalha (e sofre) em silêncio

Raças como o Bedlington Terrier, Dobermann e o Labrador Retriever possuem predisposição genética para doenças de acúmulo de cobre, um mineral que, em excesso, destrói os hepatócitos (as células do fígado)

Na área da veterinária, principalmente o ramo voltado para os cães, o fígado recebe o título de “laboratório do corpo”. Responsável por mais de 1.500 funções vitais, da filtragem de toxinas à produção de proteínas de coagulação, o órgão possui uma característica biológica boa e ruim: a resiliência. Diferente do coração ou dos pulmões, que dão sinais imediatos de que algo não vai bem, o fígado trabalha (e sofre) em silêncio.

Segundo o Tratado de Medicina Interna Veterinária, da dupla de veterinários estadunidenses Stephen Ettinger e Edward Feldman, considerado a “bíblia” da veterinária mundial, um cachorro só começa a apresentar sinais clínicos visíveis de insuficiência hepática quando cerca de 75% a 80% da massa funcional do órgão já foi perdida. Quando o diagnóstico chega, muitas vezes em estágios avançados, a capacidade de regeneração já está comprometida.

As causas para esse problema variam muito e no Brasil, o cenário é agravado pela Leptospirose, doença bacteriana endêmica em períodos chuvosos e que ataca o fígado.

Além disso, o uso indiscriminado de medicamentos humanos pelos tutores figura como uma causa frequente de intoxicação aguda. Manuais de farmacologia veterinária e diretrizes do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) alertam constantemente: o paracetamol, analgésico comum em nossos lares, é altamente tóxico para o fígado de cães e gatos. E o mais grave: pode levar ao óbito em poucas horas.

Outro fator de risco é a genética. Raças como o Bedlington Terrier, Dobermann e o Labrador Retriever possuem predisposição genética para doenças de acúmulo de cobre, um mineral que, em excesso, destrói os hepatócitos (as células do fígado).

Leia também

Como o fígado leva um tempo para reclamar, o tutor precisa ser um observador atento. Quando a reserva funcional se esgota, o corpo do animal entra em colapso tóxico.

Com base na literatura de patologia clínica de instituições como a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Itatiaia listou os sinais que exigem internação imediata:

  • A icterícia é o sinal mais clássico. As mucosas da gengiva, a parte branca dos olhos e a pele interna das orelhas ficam amareladas devido ao acúmulo de bilirrubina (pigmento amarelado produzido pela quebra dos glóbulos vermelhos) não processada.
  • Sintomas gastrointestinais inespecíficos: vômitos frequentes, diarreia possivelmente com coloração acinzentada e perda súbita de peso.
  • “barriga d’água” é o nome conhecido para ascite. Quando ela ocorre, o fígado doente para de produzir albumina, a proteína que segura a água dentro dos vasos sanguíneos, fazendo com que o líquido extravase para o abdômen.
  • Alterações neurológicas também são um fator de atenção, pois sem a filtragem adequada, a amônia sobe para o cérebro. O cão pode andar em círculos, pressionar a cabeça contra a parede ou apresentar convulsões após as refeições.

Uma vez confirmada a hepatopatia, o tratamento medicamentoso é um “auxiliar” da nutrição.

De acordo com diretrizes globais da Associação Mundial de Veterinários de Pequenos Animais (WSAVA, em inglês) sobre nutrição, o pet hepático deve consumir proteínas de alta digestibilidade, como ovo ou derivados de leite em fórmulas comerciais.

Em casos crônicos, uma boa alimentação não apenas estabiliza o quadro, mas permite uma folga ao fígado para que ele utilize sua capacidade regenerativa para recuperar parte da função perdida.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

Ouvindo...