Médico veterinário realiza cirurgia pioneira em Betim-MG para remover tumor em peixe
Equipe médica realizou a retirada de uma neoplasia crônica em uma carpa; apesar do sucesso técnico, o animal não resistiu devido à gravidade do quadro

Você já imaginou um peixe passando por uma cirurgia fora d'água? Um procedimento realizado na Clínica ProPet, em Betim, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, mostrou o avanço e a complexidade da medicina veterinária de animais não-convencionais. Uma carpa de lago ornamental foi submetida a uma delicada intervenção para a remoção de um tumor ovariano.
Conduzido pelo médico veterinário Thiago Freitas, especialista em animais silvestres e exóticos, o procedimento durou cerca de duas horas e envolveu técnicas avançadas de anestesia por imersão e engenharia de suporte à vida.
Ver um peixe operado fora do aquário pode parecer uma cena impressionante. O médico Thiago Freitas explicou à Itatiaia como é possível manter o animal vivo durante o processo: "O peixe é 'entubado' com água corrente e oxigênio. Embora ele esteja fora do aquário, continua recebendo água continuamente sobre as brânquias através de um sistema de irrigação. Essa água passa pela boca, percorre as brânquias e oxigena o corpo do animal, enquanto mantemos a pele e o muco constantemente úmidos."
A anestesia funciona por imersão. O medicamento é diluído na água até o peixe atingir o plano anestésico ideal. Durante a cirurgia, a mesma solução controlada é utilizada no circuito que irriga as brânquias.
Complexidade e diagnóstico tardio
Embora a clínica já tenha atendido pacientes minúsculos — como um peixe beta de apenas 2 gramas e uma tarântula de 23 gramas —, a cirurgia na carpa foi um caso atípico e de extrema complexidade. Um dos maiores obstáculos na rotina com animais aquáticos é o tempo que se leva para notar os sintomas.
"Muitas vezes, quando o responsável nota que tem algo de errado, o problema já é muito crônico, o que piora consideravelmente a recuperação", revelou o veterinário. No caso da carpa, o quadro já era grave: havia uma grande quantidade de aderência visceral e líquido livre inflamatório, o que estendeu o tempo cirúrgico para remover a neoplasia ovariana e o oviduto (órgão onde ficam os ovos).
O médico veterinário destacou que o sucesso técnico da operação foi respaldado por sua pós-graduação na FAMESP-SP, além de intensos treinamentos prévios em cadáveres e estudo de literatura científica especializada.
Recuperação e o pós-operatório
Após a retirada do tumor, o animal foi transferido para um "aquário hospital" — que, pelo porte da carpa, consistiu em uma caixa d'água com temperatura rigidamente controlada e oxigenação extra.
Em pacientes pós-cirúrgicos desse tipo, alterações na flutuabilidade e demora para voltar a nadar e comer são esperadas. No entanto, o prognóstico para casos crônicos permanece delicado. Apesar de todos os esforços da equipe médica, a carpa morreu no dia seguinte, devido à gravidade e ao estágio avançado do quadro inflamatório.
O caso, contudo, deixa um marco para a medicina veterinária da Região, provando que os recursos diagnósticos e cirúrgicos para os pets não-convencionais estão em franca evolução, oferecendo uma chance de tratamento mesmo para as espécies mais sensíveis.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



