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Beija-flores e abelhas têm papel essencial na sobrevivência de plantas do Cerrado; entenda

Pesquisa realizada na Serra do Cipó, em Minas Gerais, mostra que os polinizadores ajudam a manter a diversidade genética das canelas-de-ema e podem ser decisivos para a conservação de espécies ameaçadas

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abelha
Pixabay

Um estudo realizado na Serra do Cipó, em Minas Gerais, revelou que beija-flores e abelhas têm uma função ainda mais importante para o Cerrado do que simplesmente transportar pólen entre as flores. Esses animais ajudam a manter a diversidade genética de plantas características dos campos rupestres e aumentam as chances de produção de sementes capazes de germinar.

A pesquisa analisou 13 espécies de canela-de-ema do gênero Vellozia, plantas típicas das regiões montanhosas do Cerrado. Os resultados mostram que, embora muitas dessas espécies consigam realizar autofecundação, a reprodução depende fortemente da presença de polinizadores no ambiente.

O trabalho foi publicado na revista científica Annals of Botany e destaca a importância da conservação de aves e insetos para proteger a flora dos campos rupestres.

Polinização ajuda a manter a diversidade genética

A polinização cruzada acontece quando o pólen de uma planta é levado por um animal até outra planta da mesma espécie. Esse processo permite a troca de material genético entre diferentes indivíduos.

Na prática, essa mistura aumenta a variabilidade genética das populações e pode ajudar as espécies a enfrentar doenças e mudanças nas condições ambientais.

Para entender melhor esse processo, os pesquisadores acompanharam as plantas durante dois anos. Foram observados aspectos como o período de floração, as características das flores e a capacidade de reprodução das espécies.

Os cientistas também compararam flores que receberam polinização manual, flores que ficaram expostas aos visitantes naturais e flores protegidas por pequenos sacos, que impediam o acesso de pássaros e insetos.

Depois, os pesquisadores avaliaram a quantidade de frutos e sementes produzidos e verificaram se as sementes tinham capacidade de germinar.

Câmeras equipadas com sensores de movimento também foram instaladas próximas às flores para identificar quais animais participavam da polinização.

Beija-flores

Entre os principais responsáveis pela polinização estavam os beija-flores, incluindo o beija-flor-de-orelha-violeta (Colibri serrirostris) e o besourinho-de-bico-vermelho (Chlorostilbon lucidus).

Abelhas sem ferrão do grupo Meliponini, do gênero Trigona, também tiveram participação importante. A abelha-africanizada comum (Apis mellifera) igualmente foi observada visitando as flores em busca de alimento.

A pesquisa identificou ainda diferentes estratégias de floração entre as espécies estudadas. Algumas concentram a produção de flores durante a época de chuvas, entre outubro e fevereiro. Outras apresentam uma floração mais prolongada, que pode avançar durante os meses secos.

Em algumas espécies, como Vellozia alata e Vellozia caruncularis, os pesquisadores observaram que o fogo pode estimular a produção de flores. Após determinadas queimadas, as plantas chegaram a florescer poucas semanas depois.

Autofecundação

Um dos resultados que mais chamaram a atenção dos pesquisadores foi a diferença entre conseguir produzir frutos e realmente gerar sementes de boa qualidade.

A maioria das espécies analisadas conseguiu realizar autofecundação quando os polinizadores estavam ausentes. No entanto, isso não significa que esse mecanismo seja suficiente para garantir a sobrevivência das populações.

Nos testes controlados, sete das 11 espécies avaliadas não produziram frutos ou sementes quando os visitantes das flores foram impedidos de chegar.

Nos poucos casos em que as plantas conseguiram produzir frutos sozinhas, as sementes frequentemente apresentaram baixa qualidade ou não conseguiram germinar.

Isso indica que a autofecundação funciona mais como uma alternativa de emergência do que como uma estratégia capaz de substituir a polinização realizada pelos animais.

Desaparecimento dos polinizadores pode afetar o Cerrado

Segundo os pesquisadores, a redução das populações de polinizadores pode comprometer a troca de material genético entre diferentes grupos de plantas.

Esse processo é especialmente preocupante nos campos rupestres, que abrigam espécies com distribuição restrita e plantas que não são encontradas em outras regiões.

A pesquisadora Irene Gélvez-Zúñiga destaca que o gênero Vellozia é vulnerável às mudanças climáticas por reunir plantas características dos campos rupestres.

"O gênero Vellozia é considerado vulnerável às mudanças do clima porque engloba um grupo de plantas características dos campos rupestres. Nosso estudo inclui quatro espécies de Vellozia consideradas como ameaçadas ou quase ameaçadas: V. alata, V. albiflora, V. glabra e V. patens. Várias espécies são endêmicas [só existem naquele local] ou apresentam distribuição restrita [em pequenas manchas]".

A pesquisadora também chama atenção para duas espécies. "Contudo, nossos resultados apontam que devemos dar uma atenção redobrada à V. taxifolia, que é uma espécie que não tem capacidade de reprodução autônoma, e para a V. patens, que tem uma porcentagem de produção de frutos e sementes muito reduzida em condições naturais".

Os campos rupestres são ambientes de grande importância ecológica, mas estão sujeitos a diferentes pressões. Entre elas estão as mudanças no uso da terra, o avanço da mineração, o turismo desordenado e os efeitos das mudanças climáticas.

A vegetação também tem papel importante na manutenção de nascentes e na oferta de serviços ecossistêmicos, como a purificação da água e a regulação do microclima.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

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