Entre orquídeas e escorpiões: o lado folclórico de Juquinha, o ícone da Serra do Cipó
Monumento homenageia José Patrício, figura cercada por lendas e lembrado como um dos maiores ícones da região

Quem percorre a MG-010, na Serra do Cipó, dificilmente passa pelo Alto Palácio sem notar a estátua do Juquinha. Localizada em meio à paisagem da Cordilheira do Espinhaço, a obra é um dos principais cartões-postais da região e homenageia José Patrício.
Conhecido como Juquinha da Serra, José Patrício era andarilho e costumava abordar turistas que paravam para admirar a paisagem. Ele vendia ou trocava flores sempre-vivas por alimentos e conversava com quem passava pela estrada, hábito que o transformou em uma figura conhecida por gerações.
Entre a história e o imaginário popular

Além da convivência com turistas, Juquinha também ficou conhecido pela ligação com a natureza. Um dos episódios mais lembrados de sua trajetória foi a entrega de uma orquídea ainda não catalogada à botânica Nanuza Luiza de Menezes.
A planta, posteriormente identificada como Constantia cipoensis, é encontrada naturalmente apenas na Serra do Cipó. A descoberta ajudou a reforçar a importância da preservação da região.

Com o passar dos anos, a história de Juquinha também ganhou contornos folclóricos. Moradores contam que ele teria sobrevivido a picadas de cobra, se alimentado de escorpiões e até "ressuscitado" durante o próprio velório.
Embora não existam registros que comprovem esses relatos, eles ajudaram a consolidar sua imagem no imaginário popular e fazem parte das histórias transmitidas por gerações na Serra do Cipó.
Entre as pessoas que mantêm viva a memória do andarilho está o ex-prefeito de Conceição do Mato Dentro, Zé Fernando, que o conheceu ainda na infância, ao lado do pai, e o descreve como um dos maiores símbolos da mineiridade.
O Juquinha era o guardião da Serra do Cipó e da Serra do Espinhaço, mas também dos valores da modéstia, da ética, da moral e da mineiridade. Aquela estátua não representa apenas sua figura, mas também os valores mais profundos da alma mineira.
Patrimônio histórico e conservação
Criada pela artista plástica Virginia Ferreira, a estátua foi instalada em 1987 e, ao longo das últimas décadas, tornou-se uma parada quase obrigatória para quem visita a Serra do Cipó. Em 2021, o monumento foi tombado como patrimônio cultural de Santana do Riacho, em reconhecimento ao seu valor histórico, artístico e simbólico.
Entre agosto e dezembro de 2025, a escultura passou por uma restauração que incluiu limpeza, recuperação estrutural, tratamento contra ferrugem e recomposição de partes danificadas pela ação do tempo. O obra foi reinaugurada em maio deste ano.
Jornalista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, é repórter multimídia no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). Antes passou pela TV Alterosa. Escreve, em colaboração com a Itatiaia, nas editorias de entretenimento e variedades.



