Aves e borboletas podem desaparecer da Europa: crise ambiental avança, aponta estudo
Pesquisa aponta que mudanças climáticas, agricultura intensiva e exploração das florestas ameaçam espécies comuns e indicam cenário ainda mais grave até 2050

O canto dos pássaros e o voo das borboletas, elementos comuns das paisagens europeias, podem se tornar cada vez mais raros. Um estudo publicado na revista 'Nature Ecology & Evolution' indica que as populações de diversas espécies continuarão em queda nas próximas décadas, mesmo com a adoção de políticas de conservação consideradas ambiciosas.
A pesquisa foi liderada pelo Instituto Nacional de Pesquisa em Agricultura, Alimentação e Meio Ambiente da França (INRAE) e contou com a participação de instituições espanholas, entre elas o Centro de Pesquisa Ecológica e Aplicações Florestais (CREAF) e o Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC).
Os pesquisadores analisaram 265 espécies de aves e 144 espécies de borboletas comuns na Europa entre 2000 e 2021. A partir desses dados, foram projetados diferentes cenários para avaliar como as populações poderiam estar em 2050.
Mesmo no cenário mais favorável, a previsão não é de recuperação. As populações de aves comuns devem continuar diminuindo, especialmente entre aquelas associadas às áreas agrícolas.
Quase metade das borboletas de pastagens desapareceu
As borboletas são consideradas importantes indicadores da saúde ambiental por serem bastante sensíveis às alterações nas condições do ambiente.
Segundo o último relatório sobre borboletas de pastagens da Europa, elaborado pela Agência Europeia do Meio Ambiente, esse grupo sofreu uma redução de 47% entre 1991 e 2024.
A situação das aves também preocupa. De acordo com a atualização mais recente da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), 61% das espécies de aves do planeta registraram queda em suas populações.
Na Europa, o cenário é especialmente delicado para as espécies que dependem de áreas agrícolas. Outro levantamento citado pelo estudo aponta que a presença dessas aves no continente caiu 77% na última década.
Agricultura intensiva está entre os principais problemas
Um dos fatores apontados pelos pesquisadores é a transformação cada vez mais intensa do território.
O avanço dos monocultivos, o uso frequente de pesticidas e fertilizantes e a redução da diversidade das paisagens prejudicam principalmente as aves que vivem em áreas agrícolas e as borboletas encontradas nos campos e pastagens.
As mudanças climáticas também aumentam a pressão sobre esses animais. O aumento das temperaturas e as alterações no regime de chuvas podem afetar diretamente diferentes espécies de borboletas e aves.
"Uma das variáveis mais determinantes está no fato de que a intensidade dos usos do solo continua aumentando", explicou Tristan Bakx, pesquisador do CREAF e coautor do estudo.
A exploração das florestas também aparece entre as preocupações. Segundo o pesquisador, a utilização das áreas florestais para extração de madeira deve se intensificar na Europa nos diferentes cenários analisados.
Abandono rural também pode prejudicar a biodiversidade
O problema não está apenas na intensificação das atividades agrícolas. O abandono de áreas rurais também pode modificar profundamente os ambientes naturais.
Com a expansão de florestas mais extensas e uniformes, a diversidade de espécies pode diminuir. Isso cria habitats menos adequados para determinadas aves e borboletas, que dependem de áreas abertas e de diferentes tipos de vegetação.
No passado, sistemas tradicionais de exploração contribuíam para manter uma espécie de mosaico na paisagem, com áreas abertas e pequenos espaços entre as formações florestais.
"Muitas espécies de pássaros e borboletas florestais precisam de florestas mais diversas, com clareiras, espaços abertos e diferentes estruturas de vegetação, habitats que tendem a desaparecer tanto pelo abandono rural quanto pelo aproveitamento intensivo das florestas", afirmou Bakx.
Espanha pode sentir os efeitos com mais intensidade
O sul da Europa está entre as regiões que devem sofrer mais com o declínio das populações de aves e borboletas. A Espanha aparece no centro dessa preocupação porque combina maior pressão sobre as áreas agrícolas com uma expectativa de impactos mais fortes das mudanças climáticas.
Alguns sinais dessa redução já podem ser observados no país. O alzacola rojizo, uma espécie de ave, teve uma queda de 94,8% na Espanha entre 2004 e 2020, segundo dados citados da organização SEO/BirdLife. Outra espécie afetada é o alcaravão-comum, que sofre com os efeitos da intensificação agrícola.
Entre as borboletas, um exemplo é a apolo. Acostumada a temperaturas mais baixas, a espécie tem sido pressionada pelo aquecimento do clima a buscar altitudes maiores. O problema é que existe um limite físico para essa fuga: quando a montanha termina, não há mais para onde subir.
A situação das borboletas espanholas também chama atenção. Segundo dados da Universidade Autônoma de Madri relacionados ao novo Atlas e Livro Vermelho das Borboletas Espanholas, 30% das espécies do país estão ameaçadas.
Medidas de conservação podem não ser suficientes
Os pesquisadores não afirmam que áreas protegidas e políticas de conservação sejam inúteis. Pelo contrário. Essas iniciativas continuam sendo consideradas fundamentais para diminuir a pressão humana sobre as espécies.
"São ferramentas fundamentais para reduzir a pressão dos humanos sobre as espécies", destaca o CREAF ao tratar das áreas protegidas e de outras medidas de conservação.
O problema é que, segundo o estudo, essas ações isoladamente não seriam suficientes para interromper a perda de biodiversidade.
"É provável que sejam necessárias novas estratégias nos sistemas de produção agrícola e de extração de madeira e uma mitigação ainda mais forte das mudanças climáticas para mudar a situação", afirmou Bakx.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



