Venezuela sob escombros: um país entre a destruição e a esperança
Documentário Original Itatiaia mostra bastidores na cobertura do terremoto de 24 de junho

"Não esqueça da Venezuela". Esse pedido da fisioterapeuta Juseph Vargas me marcou. Como milhares de venezuelanos, ela teve a casa destruída pelo duplo terremoto de 24 de junho. Três semanas depois, a Itatiaia desembarcou no país vizinho para registrar a procura por vítimas e o desafiador cenário de catástrofe — não apenas ambiental, mas também econômica, política e social.
Busca por sobreviventes, histórias de quem passou horas, dias, debaixo dos escombros, a ajuda brasileira e o desafio de recomeçar a vida são eixos que guiam o documentário publicado hoje nos canais de Youtube da Itatiaia.
Durante anos, a Venezuela foi retratada para nós como um lugar onde tudo havia deixado de funcionar. À distância, a realidade parece difícil. De perto, essa realidade era muito mais complexa. Carros circulavam normalmente, ônibus cumpriam seus trajetos, supermercados estavam abastecidos e o comércio seguia funcionando. Mas, por trás dessa aparente normalidade, havia uma população convivendo com uma grave crise econômica, salários insuficientes e a necessidade de adaptação constante para sobreviver.

A missão jornalística, porém, tinha como principal objetivo mostrar outra ferida: a provocada pelo terremoto de 24 de junho. Em La Guaira, Vargas e outras áreas atingidas, a paisagem revelava prédios destruídos, famílias desalojadas e comunidades inteiras tentando reconstruir a própria vida. Com poucos equipamentos e muita gente trabalhando com marretas, enxadas e barras de ferro, voluntários se transformaram em equipes improvisadas de resgate. O cheiro de poeira e decomposição, o calor de até 35 graus e o silêncio interrompido pelo trabalho nos escombros tornaram a cobertura uma das experiências mais difíceis que vivi como jornalista.
A Itatiaia ouviu sobreviventes, voluntários, médicos, equipes de resgate, autoridades e famílias que perderam suas casas. Vimos uma Venezuela marcada pela fé e pela solidariedade. Igrejas, abrigos, comerciantes, vizinhos e voluntários ajudavam como podiam. Ao mesmo tempo, ouvi críticas à demora da assistência, relatos de dificuldades econômicas e histórias de famílias divididas pela migração. O terremoto atingiu um país que já enfrentava uma longa crise e tornou ainda mais visíveis fragilidades que existiam havia anos.
A experiência também trouxe lembranças de tragédias que conhecemos bem em Minas Gerais, como os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho e as enchentes que devastaram cidades na Zona da Mata mineira. Em todos esses lugares, os números deixam de ser números quando ganham rosto, nome e história. Entre os escombros venezuelanos, conheci pessoas que perderam quase tudo, mas continuavam encontrando forças para acreditar no dia seguinte. Descobri que reconstruir uma cidade é um enorme desafio de engenharia, mas reconstruir uma vida exige algo ainda mais difícil: esperança.

Todas essas histórias estão no documentário Venezuela Sob Escombros, que tem reportagem e roteiro de João Felipe Lolli, produção associada do jornalista venezuelano Alex Carmona, e edição de Arthur Gomides.
Uma reportagem produzida a partir do contato direto com quem viveu a tragédia, mostrando não apenas a destruição provocada pelo terremoto, mas também a crise, a fé, a solidariedade, a migração e a luta de um povo para recomeçar. É um retrato de uma Venezuela que não cabe em discursos políticos ou manchetes prontas — uma Venezuela de pessoas que, mesmo entre os escombros, continuam tentando reconstruir suas vidas.
Assista:
Mineiro de Urucânia, na Zona da Mata. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2024), mesma instituição onde diplomou-se jornalista (2013). Na Itatiaia desde 2016, faz reportagens diversas, com destaque para Política e Cidades.



