Por que o presidente do Paraguai renunciou? Entenda crise bancária que atinge o país
Santiago Peña deixou o cargo nesta quinta-feira (5); chefe do estado vivia um processo de impeachment, acusado de intervir no banco digital Ueno, que deixou milhares de clientes sem acesso a seus recursos

A crise no sistema financeiro do Paraguai, que deixou milhões de clientes sem acesso às próprias economias, desencadeou uma turbulência política e terminou com a renúncia do presidente Santiago Peña nesta quinta-feira (05).
O chefe de Estado estava sob pressão após a intervenção do Banco Central paraguaio no Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras do país, e enfrentava um processo de impeachment no Congresso.
A saída de Peña ocorreu depois que ele perdeu o apoio de integrantes do próprio partido, o Colorado, e ficou politicamente isolado diante das acusações de favorecimento à instituição financeira. A crise também provocou protestos populares em Assunção, capital paraguaia, e levantou questionamentos sobre a fiscalização do sistema bancário nacional.
Em um vídeo publicado na rede social X, Santiago Peña afirmou que decidiu deixar o cargo pensando na estabilidade do país e pediu desculpas à população caso tenha falhado durante o mandato. "Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento falhei", declarou. Confira a publicação:
Mensaje del Presidente de la República, Santiago Peña, al pueblo paraguayo. https://t.co/RBz6IfFV9L
— Santiago Peña (@SantiPenap) November 5, 2026
Com a renúncia, o vice-presidente Pedro Alliana passa a assumir o comando do país.
O que aconteceu com o banco Ueno?
A crise começou com a intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank, um banco digital e uma das principais instituições financeiras do país. A medida foi adotada após a identificação de insuficiência de capital e problemas nos índices de solvência do banco.
De acordo com as informações divulgadas sobre o caso, o desequilíbrio financeiro estaria relacionado a empréstimos concedidos a empresas vinculadas ao grupo controlador da instituição, o Grupo Vázquez.
Com a intervenção e o início do processo de liquidação, as operações financeiras foram paralisadas. Clientes ficaram sem acesso aos depósitos, cartões e serviços digitais, em um episódio que atingiu aproximadamente três milhões de usuários.
O número representa quase metade da população paraguaia, estimada em 6,1 milhões de habitantes. Além dos recursos de pessoas físicas, cerca de US$ 850 milhões em depósitos públicos estavam concentrados na instituição, incluindo valores ligados ao Instituto de Previdência Social do Paraguai.
A situação ampliou a preocupação com os efeitos da crise sobre o sistema financeiro do país. Outros aplicativos bancários também apresentaram instabilidade, enquanto clientes passaram a transferir suas contas para outras instituições.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban), por sua vez, afirmou que o sistema bancário continuava operando normalmente e que as instituições trabalhavam para atender ao aumento da procura de clientes que deixavam o Ueno.
Por que a crise atingiu o presidente?
A situação ganhou dimensão política porque Santiago Peña tinha ligação direta com o grupo controlador do banco. Economista e ex-ministro da Fazenda, o presidente foi acionista do conglomerado proprietário do Ueno até março de 2025, quando se desfez de sua participação. A relação anterior com a instituição passou a ser um dos principais argumentos da oposição para questionar a atuação do governo durante a crise.
No pedido de impeachment, parlamentares apontaram possíveis conflitos de interesses, favorecimento ao banco e manipulação de regras regulatórias. Também levantaram suspeitas de desvio de recursos previdenciários, concessão de créditos acima dos limites permitidos e possível acobertamento de irregularidades por integrantes do Banco Central.
A oposição ainda questionou a concentração de recursos públicos na instituição e a atuação das autoridades responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro. O caso também provocou consequências dentro do próprio Banco Central. O presidente da autoridade monetária, Carlos Carvallo, deixou o cargo após as suspeitas de falhas na fiscalização da instituição.
Na esfera criminal, a Procuradoria paraguaia emitiu mandados de prisão contra executivos e ex-dirigentes do banco. Oito integrantes da instituição foram presos, entre eles o presidente-executivo Miguel Vázquez. Ao todo, 27 pessoas ligadas ao banco foram formalmente acusadas, segundo as informações divulgadas sobre a investigação. Peña, por sua vez, afirmou que os responsáveis pelas irregularidades deveriam responder à Justiça, sem exceções.
Como funcionava o processo de impeachment?
A crise financeira se transformou em uma ameaça direta à permanência de Santiago Peña na Presidência depois que parlamentares da oposição reuniram as assinaturas necessárias para apresentar um pedido de impeachment. A denúncia foi protocolada por 35 deputados e levou à convocação de uma sessão extraordinária na Câmara dos Deputados do Paraguai, nesta quinta-feira (5).
Durante os debates, os parlamentares acusaram o presidente de responsabilidade política pela crise e apontaram possíveis irregularidades envolvendo o banco e integrantes do governo.
A pressão aumentou quando o ex-presidente Horacio Cartes e a principal bancada governista na Câmara anunciaram apoio ao processo de impeachment. A movimentação representou uma perda decisiva de sustentação política para Peña, que pertence ao Partido Colorado.
Em meio à discussão, a deputada da oposição Rocío Vallejo criticou a atuação do presidente e destacou a dimensão do impacto sobre os clientes da instituição. "Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente", declarou.
O debate também foi marcado por manifestações de outros parlamentares contra o governo e as autoridades financeiras. Com a retirada do apoio de integrantes de seu próprio partido, Peña ficou isolado politicamente e apresentou a renúncia antes que o processo de impeachment avançasse.
Protestos e tentativa de devolver o dinheiro
A crise também provocou manifestações nas ruas de Assunção. Centenas de pessoas protestaram por duas noites consecutivas, cobrando a liberação dos depósitos e a responsabilização dos envolvidos no colapso do banco.
Nessa quarta-feira (04), manifestantes ocuparam áreas próximas ao Congresso e sedes bancárias. Os atos terminaram em confrontos com as forças de segurança, que utilizaram gás lacrimogêneo e canhões de água para dispersar a multidão.
Diante da pressão popular, o governo anunciou medidas para acelerar a devolução dos recursos aos clientes. Peña promulgou uma lei que estabeleceu prazo de cinco dias úteis para a restituição da maior parte dos valores depositados na instituição.
O presidente também defendeu que os interesses dos poupadores fossem colocados acima das disputas políticas e afirmou que sua prioridade era garantir a recuperação do dinheiro. Mesmo com as medidas anunciadas, a crise continuou provocando instabilidade e ampliando a pressão sobre o governo.
Cronologia dos acontecimentos:
- 2 de novembro: o Banco Central do Paraguai (BCP) decretou a intervenção e liquidação do Ueno Bank após constatar severa insuficiência de capital e um rombo estimado em dezenas de milhões de dólares. As operações digitais, cartões e depósitos foram paralisados.
- 3 de novembro: a Justiça do Paraguai determinou a prisão preventiva de executivos e ex-dirigentes da instituição (incluindo o presidente do banco, Juan Manuel Gustale, e o empresário Miguel Vázquez). Pressionado pelas suspeitas de vista grossa na fiscalização, o presidente do BCP, Carlos Carvallo, apresentou sua renúncia.
- 4 de novembro: milhares de manifestantes ocuparam o entorno do Congresso e sedes bancárias em Assunção cobrando a liberação dos depósitos e a responsabilização do governo. O Senado aprovou medidas emergenciais para tentar antecipar a restituição aos poupadores. Peña indicou o economista Raúl Vera Bogado para tentar reestruturar a autoridade monetária.
- 5 de novembro: partidos da oposição protocolaram o pedido de abertura de impeachment contra Santiago Peña na Câmara dos Deputados, acusando o presidente de improbidade administrativa, favorecimento e acobertamento institucional. As forças de segurança reforçaram o cerco ao centro da capital diante do risco de escalada dos conflitos sociais.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.




