O que está acontecendo na França? Entenda protestos registrados no país há mais de um mês
Nos dias 17 e 18 de outubro, mais de 500 mil pessoas foram às ruas do país; mobilização nacional acontece no fim do mandato do presidente Emmanuel Macron, eleito em 2017 e reeleito em 2022

Há pouco mais de um mês, a França tem registrado uma das maiores mobilizações no país. Os protestos reúnem uma combinação de fatores sociais, econômicos e educacionais. Mas, alguns dos atos tornaram-se violentos, registrando uma morte, dezenas de feridos e milhares de detidos. No fim de semana dos dias 17 e 18 de outubro, mais de 500 mil pessoas foram às ruas, segundo divulgado pelo Ministério do Interior.
As manifestações, inicialmente lideradas por estudantes e servidores públicos contra cortes de gastos no orçamento do governo e as condições precárias nas escolas, posteriormente ganharam apoio de sindicatos contra a alta no custo de vida e a desigualdade social. A enorme mobilização motivou, inclusive, outros países da Europa — com a Albânia e a Itália, por exemplo, também registrando protestos.
O movimento na França acontece no fim do mandato do presidente Emmanuel Macron, eleito em 2017 e reeleito em 2022. Macron afirmou que esta é a última participação dele e que planeja o fim da carreira política em 2027. O francês se pronunciou pela primeira vez em cadeia nacional sobre as manifestações no país no dia 18 de outubro.
Durante a fala, transmitida na TV, Macron atribuiu que a "violência desenfreada" nos protestos a "grupos radicais de extrema-esquerda, acompanhados por numerosos criminosos". Ele ainda reiterou que "quem saqueou terá de pagar pelos danos, e aqueles que tentaram derrubar a República serão responsabilizados".
O primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, é quem tomou frente em combater as manifestações no país. Em 19 de outubro, ele solicitou que as cidades decretem toques de recolher a partir da noite do mesmo dia.
Confira, nesta reportagem, a motivação dos protestos no país e as consequências da enorme mobilização.

Movimento estudantil
A onda inicial dos protestos na França começou no dia 17 de setembro, em escolas de ensino médio nos arredores de Paris, ganhando rapidamente o apoio de professores, sindicatos e outros setores sociais.
Os alunos manifestaram contra a falta crônica de professores, a ausência de substitutos, turmas superlotadas e a precariedade da infraestrutura das escolas públicas (como problemas de manutenção e falta de recursos).
Rapidamente os atos foram marcados por forte repressão policial. No dia 5 de outubro — data em que cerca de 500 colégios ficaram total ou parcialmente fechados —, um estudante de 15 anos perdeu a mão em Lens, no Norte do país, após pegar uma granada de efeito moral, de agentes de segurança, que explodiu logo em seguida.
O caso foi confirmado pelo governador do estado de Pas-de-Calais, François-Xavier Lauch:
"Lamento que tivemos um estudante de Ensino Médio que ficou gravemente ferido durante uma manifestação. Um estudante, de 15 anos, teve a mão arrancada. Felizmente, a vida desse estudante não está em risco. Nós o transferimos muito rapidamente para Lille, para um hospital que tinha condições de recebê-los. Mas, enfim, é um fato muito grave", declarou.
No dia seguinte, em 6 de outubro, o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagyoko, foi atingido por gás de pimenta ao tentar proteger estudantes da polícia. Vídeos compartilhados nas redes sociais mostram Bagyoko à frente de um grupo de estudantes e gritando aos policiais "parados", momentos antes da confusão:
Bally Bagayoko (alcalde de izquierdas en Saint-Denis con la France Insoumise) Pone su cuerpo para que los antidisturbios no peguen a su pueblo. https://t.co/WHFBzaGvkW
— John bach rose (@johnsixx256) October 7, 2026
Em seguida, um outro vídeo flagra Byoko sendo abraçado e levado por populares.
https://t.co/RAw7ORibRV
— rico73 (@Rico73Rico7318) October 6, 2026
A data marcou um dos maiores dias de mobilização no país, com organizadores do protesto apontando que 450 mil pessoas estiveram nas ruas. No mesmo dia, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, se pronunciou sobre as manifestações, afirmando que "não pode haver espaço para tolerância à violência". "Incendiar uma escola secundária não melhora o estado dos edifícios escolares. Linchar um professor não ajuda a substituir professores", disse.
Outros casos de violência chamaram atenção, como a de um estudante, de 14 anos, que perdeu vários dentes devido à explosão de uma bomba de gás lacrimogêneo em Paris. No dia 7 de outubro, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou, em 7 de outubro, a suspensão de uso de bombas de efeito moral nos protestos estudantis.
Em entrevista à rádio francesa RTL, o ministro explicou que a suspensão se aplica "apenas aos protestos do ensino médio" e "somente pelo tempo necessário para compreender o que aconteceu". Mesmo assim, a violência seguiu sendo registrada nos protestos, com forte confronto policial.
Em 13 de outubro, a ativista sueca Greta Thunberg participou de uma manifestação em frente a uma escola de ensino médio em Saint-Denis. Na ocasião, a jovem de 23 anos afirmou que os estudantes franceses merecem mais apoio:
"Eles devem saber que, em todo o mundo, estamos acompanhando esses acontecimentos. Somos inspirados pelos jovens que estão reivindicando seus direitos básicos", declarou a ativista em frente ao Lycée Paul Eluard, em Saint-Denis, uma das escolas onde o movimento ganhou força desde o início da mobilização.
"Seja a falta de financiamento adequado para as escolas, a crise climática ou as crises de injustiça social, já passou da hora de os jovens se mobilizarem e retomarem o controle do próprio futuro", afirmou Thunberg.
A ativista também criticou a violência policial francesa nos protestos. Para Thunberg, a atuação das forças de segurança é um sinal "extremamente violento" de que as autoridades estariam protegendo o status quo e ignorando as reivindicações dos jovens.

Manifestação se vira para desigualdade social
Com a enorme mobilização nacional, as manifestações ganharam apoio de sindicatos contra a alta no custo de vida e no preço dos combustíveis. Entre as críticas ao governo francês está:
- Perda de poder de compra: população enfrenta alta nos preços de bens essenciais, moradia e energia, gerando um sentimento generalizado de estrangulamento financeiro.
- Precarização dos serviços essenciais: manifestantes criticam a redução de investimentos públicos em áreas vitais, como saúde, transporte e educação.
- Medidas de austeridade: as políticas do governo focadas na contenção do déficit fiscal aumentaram o descontentamento social e a percepção de abandono estatal.
Em resposta, o governo liderado por Emmanuel Macron alega dificuldades para ampliar gastos em meio a um forte déficit público que ultrapassa 5% do PIB e uma dívida acumulada de trilhões de euros, priorizando cortes e outras frentes.
No fim de semana dos dias 17 de 18 de outubro, o país registrou uma das noites mais violentas dos últimos anos. De acordo com o Ministério do Interior, mais de 500 mil pessoas foram às ruas, sendo a maioria pacíficos.
Durante as manifestações, que em alguns momento tornaram-se atos violentos, uma pessoa morreu, mais de 500 policiais ficaram feridos e mais de 2 mil pessoas foram detidas.
Estima-se que 1,5 mil lojas e estabelecimentos comerciais foram saqueados e destruídos. A polícia de choque usou gás lacrimogêneo e canhões de água contra a multidão. Em vários locais, agentes foram flagrados agredindo pessoas com cassetetes.
Resposta de líderes franceses
O presidente da França, Emmanuel Macron, se pronunciou sobre os protestos no país no dia 18 de outubro. Durante a fala transmitida na TV, Macron afirmou que "nada justifica" o que classificou de "violência desenfreada" registrada em manifestações registradas no fim de semana que antecedeu.
"Esta noite, todos sentimos raiva e vergonha", disse Macron, acrescentando que é preciso fazer uma distinção entre os manifestantes com "reivindicações legítimas" e "aqueles que destruíram, quebraram e saquearam".
O francês ainda prometeu "total transparência" sobre a resposta das forças de segurança aos protestos que terminaram em violência, após críticas de que a preparação da polícia havia sido inadequada. Ele também atribuiu a "violência desenfreada" a "grupos radicais de extrema esquerda, acompanhados por numerosos criminosos".
"Quem saqueou terá de pagar pelos danos, e aqueles que tentaram derrubar a República serão responsabilizados", disse Macron.

Mesmo com Macron se pronunciando sobre a mobilização nacional, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu é a liderança do governo que vem se posicionando e aplicando medidas contra as manifestações.
No dia 19 de outubro, Lecornu anunciou ter solicitado a prefeitos de cidades, que estão registrando manifestações, que decretem toques de recolher por conta dos protestos:
- Na cidade de Paris, a circulação está proibida na Place de la République e nas ruas ao redor do bairro de Les Halles das 22h do dia 19 até às 6h do dia seguinte, no horário local.
- Autoridades de Lille, Douai, Wattignies e Denais, no noroeste francês, também anunciaram que vão aplicar o toque de recolher.
Na mesma data, o governo francês realizou uma reunião de emergência para decidir quais medidas devem ser tomadas para controlar a violência nas ruas.
O dia também foi marcado por um protesto que bloqueou o acesso ao Museu do Louvre, em Paris. A ação liderada pelo movimento estudantil teve como objetivo denunciar a repressão policial em protestos.
Durante o ato, os estudantes — que afirmaram apoiar "a luta pelo direito de estudar, de trabalhar, de viver livremente em boas condições" — distribuíram panfletos com a mensagem: "Estamos orgulhosos de anunciar que bloqueamos o maior museu do mundo".
A data escolhida pelo grupo corresponde ao primeiro aniversário do roubo de joias no Museu do Louvre.

Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.



